O sonho da facilidade #IBOVESPA
Existe uma narrativa sedutora sendo construída nos mercados: a de que
bastaria seguir fórmulas acadêmicas e modelos automatizados para alcançar o
equilíbrio perfeito entre risco e retorno. Dois estudos recentes ajudam a
alimentar essa fantasia. Um deles sugere que investidores deveriam aumentar a
exposição em ações além das práticas tradicionais de alocação. O outro
demonstra que sistemas baseados em redes neurais conseguem antecipar cerca de
71% das decisões de gestores ativos. Separadamente, cada conclusão parece
racional. Juntas, criam a sensação de que o investidor pode abandonar o
processo decisório e simplesmente seguir uma cartilha estatística.
A proposta acadêmica que recomenda maior peso em renda variável parte de uma lógica matemática elegante: considerar a renda futura como um ativo semelhante a títulos de renda fixa. Assim, indivíduos mais jovens ou com expectativa de renda elevada poderiam assumir mais risco no mercado acionário. A teoria não busca maximizar riqueza absoluta, mas otimizar o consumo ao longo da vida. É uma construção sofisticada, que tenta traduzir escolhas humanas em equações. O problema surge quando esse raciocínio se ancora excessivamente em retornos históricos e ignora rupturas estruturais que não cabem em planilhas.
O investidor que observa apenas o passado tende a acreditar que qualquer
queda relevante será compensada pelo crescimento estrutural das empresas. Em
ciclos longos isso frequentemente ocorreu, e muitos usam essa constatação para
justificar uma exposição crescente em ações. A ideia não é nova; estratégias
semelhantes já foram aplicadas por investidores conhecidos, com a diferença de
que eles selecionavam empresas em momentos específicos de preço, e não
simplesmente ampliavam a alocação de forma automática.
Quando se adiciona o segundo estudo à equação, o cenário se torna ainda
mais provocativo. Pesquisadores mostraram que modelos de aprendizado conseguem
prever a maioria das decisões de compra e venda realizadas por gestores de
fundos. O dado que mais chama atenção não é apenas o percentual elevado de
previsibilidade, mas a conclusão implícita: grande parte do que parece
julgamento humano sofisticado segue padrões replicáveis por máquinas. Se
decisões rotineiras podem ser antecipadas, o valor real da gestão ativa passa a
residir apenas na parcela pequena e menos previsível das escolhas.
Esse ponto levanta uma pergunta inevitável: se a maior parte das movimentações de portfólio pode ser replicada por algoritmos, faz sentido pagar por estratégias caras que apenas reproduzem comportamentos sistemáticos? A pressão sobre a indústria de fundos tende a aumentar à medida que investidores percebem que boa parte do processo decisório já é capturável por modelos.
Combinar as duas teses cria uma visão quase utópica do investidor ideal:
alguém que aumenta a exposição em ações seguindo uma fórmula, delega a execução
a sistemas automatizados e apenas coleta os resultados ao final da jornada.
Seria um cenário sem estresse, sem escolhas difíceis e talvez até sem a
necessidade de orientação externa.
A história dos mercados mostra que mudanças estruturais raramente
respeitam projeções lineares. Estamos vivendo um momento em que novas
tecnologias surgem com velocidade suficiente para tornar setores inteiros
obsoletos em questão de meses.
Não acredito que a gestão de patrimônio possa ser terceirizada ao
passado ou a uma equação única. Existe um outro estudo frequentemente citado
que aponta que cerca de 90% do retorno de um portfólio vem da alocação
estratégica de ativos.
A inteligência artificial não elimina o risco; apenas altera a forma
como ele se manifesta. Se máquinas conseguem antecipar o comportamento médio
dos gestores, o mercado passa a reagir mais rápido, comprimindo margens e
reduzindo a janela de vantagem informacional.
No fim, a combinação entre alocação automática e replicação algorítmica
cria uma sensação confortável de controle, mas também pode produzir uma falsa
segurança.
Análise Técnica
No post “IA-26-o-novo-virus”, fiz os seguintes comentários sobre o
IBOVESPA:
“A bolsa está buscando atingir novas máximas, expondo os objetivos
anotados acima. Para o primeiro patamar de 192,1 mil seria uma alta de 2%,
enquanto o de 214,3 mil aproximadamente 14%. Podem estar certos de que, em
algum momento, irá ocorrer uma correção e, se minha contagem estiver certa,
vislumbraria uma que “machucaria”, razão pela qual navego com stops curtos, o
que pode fazer com que eu saia da festa antes do fim”.
O S&P 500 fechou a 6.946, com alta de 0,81%; o USDBRL a R$ 5,1238,
com queda de 0,59%; o EURUSD a € 1,1805; e o ouro a U$ 5156, com alta de 0,23%.
Fique ligado!
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