A batata quente (pelando?) #S&P500


Este ano temos a escolha de um novo presidente da república. As pesquisas recentes mostram perda de popularidade do presidente atual.



Se Lula for reeleito, já sabemos o que esperar: nada de resolver as contas públicas mas continuar gastando sem controle. Se for um outro candidato com melhores intenções, pode ser um pouco diferente — mas por que um pouco? Vão entender no decorrer deste post.

Existe uma possibilidade de difícil solução — quem quer que  ganhe a eleição. E aposto que nenhum dos candidatos está sequer pensando nisso, embora o tema seja intensamente debatido lá fora. Estou falando do risco de demissões em massa provocadas pela inteligência artificial.

Se for o Lula, conhecendo seu histórico intervencionista, vai querer expulsar a IA da economia — convoca os amigos do STF e proíbe seu uso. Lógico que isso é impossível na prática, mas a tentação estaria lá. Se for um candidato de outro perfil, seria ele obrigado a expandir ainda mais o Bolsa Família para absorver os deslocados? Nenhuma das respostas é boa. E o problema, se vier, não vai esperar o vencedor das urnas se organizar.

Na minha avaliação — e reconheço que existe divergência séria sobre isso — o desemprego causado pela IA vai acontecer. Espero sinceramente estar errado. Mas o que sei é que, quem quer que ganhe, é prudente pensar nesse assunto agora e ter um plano B caso o cenário se confirme.

Existe um estudo publicado em março de 2026 por dois economistas — um da Wharton School, outro da Universidade de Boston — que merece mais atenção do que tem recebido. O título é "The AI Layoff Trap", e a conclusão cabe numa frase: no limite, as empresas automatizam até atingir produtividade ilimitada e demanda zero. Uma economia que produz tudo e vende para ninguém.

O argumento é perturbador na sua simplicidade. Cada empresa que demite trabalhadores e os substitui por IA age de forma perfeitamente racional. O problema é que os trabalhadores demitidos eram também consumidores. Quando isso acontece em escala e velocidade suficientes, a demanda agregada colapsa — e as próprias empresas que lucraram com a automação começam a perder receita. O ciclo não tem saída natural.

Os autores testaram todas as soluções propostas: renda básica universal, taxação de capital, participação acionária dos trabalhadores, programas de requalificação, acordos voluntários entre empresas. Nenhuma funcionou no modelo. A única intervenção capaz de corrigir a distorção seria um imposto cobrado por tarefa automatizada, forçando as empresas a precificar a destruição de demanda antes de apertar o gatilho. Nenhum governo está implementando isso. Nenhuma economia relevante está sequer discutindo seriamente.

A narrativa dominante divide o mundo em otimistas — que citam o histórico das revoluções tecnológicas anteriores e apontam que sempre se criaram mais empregos do que se destruíram — e pessimistas, que alertam para a velocidade e escala inéditas desta transição. Ambos tendem a falar de um mundo homogêneo. Não é.

Um relatório publicado em maio de 2026 pelo Goldman Sachs confirma que, até agora, o impacto agregado da IA no mercado de trabalho americano permanece estatisticamente insignificante — sem relação clara com desemprego ou crescimento de emprego no geral. Os otimistas vão parar aqui e dizer: "está vendo?" Calma, não é bem assim. Os mesmos dados mostram setores específicos já perdendo 11 mil postos por mês, adoção corporativa subindo de 18,9% para 19,8% apenas entre março e abril — com expectativa de 23% em seis meses — e ganhos de produtividade entre 23% e 33% onde a IA já foi implantada. O problema não é o que está acontecendo. É o que esses números implicam quando a curva se inclinar de vez. A batata ainda não está queimando a mão — mas está claramente esquentando.



Tenho a impressão de que a IA é muito mais impactante do que as revoluções anteriores — talvez com exceção da internet, se esta puder ser considerada um caso comparável. A revolução industrial atingiu setores específicos em sequência e deu décadas para que novas ocupações emergissem. A internet criou milhões de empregos novos, mas a disfunção nos setores atingidos levou anos. A IA está comprimindo essa janela de forma inédita: o ChatGPT foi lançado em novembro de 2022 e em menos de três anos já afeta decisões de contratação em escala global. Apenas no primeiro semestre de 2025, quase 80 mil demissões no setor de tecnologia foram atribuídas à IA.

E o mais relevante: diferente de todas as revoluções anteriores, a IA atinge diretamente o trabalho do conhecimento — analistas, redatores, programadores, atendimento especializado, gestão intermediária. Não há setor de refúgio óbvio para quem tem formação universitária e construiu carreira em funções cognitivas.

Aqui entra a dimensão que me parece mais explosiva para o Brasil. A intuição inicial seria: mão de obra menos qualificada está menos exposta à IA, que tende a substituir trabalho cognitivo. Há alguma verdade nisso em partes específicas da cadeia produtiva. Mas o raciocínio ignora dois fatos fundamentais.

Primeiro: a IA generativa não respeita a linha entre trabalho manual e intelectual da forma que a automação industrial respeitava. Tradução, atendimento ao cliente, redação, análise de dados, contabilidade básica, suporte técnico — são exatamente as funções de entrada no mercado formal que sustentam a classe média emergente. Pesquisas mostram que, após o lançamento do ChatGPT, os ganhos de freelancers em categorias expostas caíram mais de 20% globalmente. Esses trabalhadores estão majoritariamente no Sul Global.

Segundo: os países emergentes não estão protegidos pela baixa qualificação. Estão duplamente expostos. Os empregos formais de classe média são atingidos pela IA. Os informais são atingidos pela automação mais barata e acessível. E o Estado não tem capacidade fiscal nem institucional para absorver o choque.

O Brasil encerrou 2025 com uma das menores taxas de desemprego da sua história — 5,1% — num momento que parece bom nas estatísticas. Mas a estrutura por baixo é frágil. A taxa de informalidade permanece em 38% da força de trabalho, característica estrutural que a retomada econômica não conseguiu resolver. Apenas 15% da força de trabalho possui qualificação de nível superior. O setor informal concentra exatamente os trabalhadores com menor capacidade de adaptação e menor acesso a programas de requalificação.

Um estudo de Stanford sobre IA no Brasil aponta que a automação está projetada para afetar mais da metade da força de trabalho do país — mas as oportunidades de criação de empregos em setores ligados à IA permanecem marginais, dada a estrutura educacional e a capacidade limitada de pesquisa. Estimativas independentes calculam que 55% dos empregos formais têm alto risco de desaparecer e que 62% dos informais têm probabilidade elevada de substituição. A demanda por profissionais de IA está concentrada em São Paulo e no Rio de Janeiro. O restante do país assiste de longe.

Aqui está o núcleo do problema para qualquer presidente eleito em 2026. O Bolsa Família já custa 1,5% do PIB e há evidências preliminares de que, no nível atual de benefício, o programa começa a mostrar correlação negativa com a participação no mercado de trabalho — ou seja, desincentiva a busca por emprego formal em certas faixas. Se a esse contingente se somarem trabalhadores deslocados pela automação sem perspectiva real de recolocação, o modelo fiscal implode. E o modelo social junto.

Países com instituições robustas tendem a transformar automação em produtividade. Países com instituições frágeis tendem a converter automação em desigualdade. O Brasil está claramente no segundo grupo — não por fatalidade, mas por escolha acumulada de décadas de subinvestimento em educação, infraestrutura digital e capacidade institucional de resposta.

Os governos vão reagir — não por virtude, mas por necessidade política. O que provavelmente virá não é o elegante imposto proposto por um estudo da Wharton School, mas versões híbridas, imperfeitas e tardias: taxas sobre automação, renda básica setorial, restrições regulatórias ao uso de IA em determinadas funções. Feias, contraditórias — mas inevitáveis quando a pressão social atingir o ponto de ruptura.

O problema é o timing. A diferença entre uma transição administrável e uma crise social não está na existência da intervenção — está em quando ela chega. E por ora, nenhum candidato brasileiro, de nenhum campo político, está antecipando esse problema com a seriedade que ele exige.

Essa é a batata quente que o próximo presidente vai herdar. Quente demais para segurar, importante demais para largar. E quanto mais tempo passar sem um plano B, mais ela vai esquentar.


Análise Técnica

No post "a matemática da euforia", fiz os seguintes comentários sobre o S&P 500:

"O gráfico abaixo ficou um pouco carregado, mas vou explicar. A alta poderia encerrar em qualquer dos níveis indicados pelo colchete vermelho — 7.246 ou, mais provavelmente, 7.373. Concluída essa fase, uma correção deveria se suceder, levando o índice ao intervalo indicado no retângulo avermelhado, entre 6.934 e 6.694, para só então retomar a alta."



Na semana passada, fiz algo inédito nos 15 anos de postagem: saí da posição num dia comentando no post "Nunca se apaixone por um investimento" e voltei no dia seguinte "O novo patrão do Fed". Esse tipo de ação pode transmitir uma postura diferente da que procuro oferecer aos leitores.

Mas qual foi o raciocínio? Primeiro, como os leitores mais antigos já sabem, navegar em ondas 5 sempre merece cautela redobrada — no caso, agravada pelo fato de estarmos diante do provável encerramento de uma onda 1 de maior grau, não mostrada no gráfico. Segundo, a situação no Estreito de Ormuz: por mais que o mercado sinalize que a guerra acabou, ela não acabou. Continuamos com o dedo no gatilho.

Não vou postar o gráfico com janela de 1 dia, pois é idêntico ao da semana passada — quem quiser, vale uma olhada no post anterior; os parâmetros estão descritos acima. O que apresento a seguir é um gráfico de 2 horas, que permite visualizar melhor o que se pode esperar no curto prazo.



Sem querer ser tedioso — mas sendo! Hahaha. — Ondas 5 podem terminar antes do esperado. Sigamos com cuidado; o stop loss já foi atualizado.

Um leitor anônimo comentou ontem sua preocupação com os P/L elevados — ou melhor, argumentou que, com lucros altos, o indicador se sustenta. Citou como exemplo a PLTR (Palantir), cuja demanda explodiu por ocupar um nicho raro: une IA com dados sigilosos dentro de ambientes seguros. É, de fato, a "queridinha" das Forças Armadas — e não só delas. Uma outlier autêntica.

Respondi ao leitor que o post de ontem — "o mercado não deixa dinheiro na mesa" — estava baseado nos índices em geral, e não especificamente na PLTR, que precisa mesmo ser cara dado o potencial que carrega. Se não entregar, vai desmoronar — isso é certo. Mas enquanto entregar, o prêmio se justifica.

Sobre os lucros, quero acrescentar um ponto a partir do gráfico a seguir. Tirando eventos excepcionais — como a recuperação pós-recessão de 2008 e o efeito base da Covid em 2020, onde as surpresas positivas nos trimestres seguintes são esperadas —, os lucros estão superando as estimativas dos analistas com margem considerável. O que chama atenção, porém, é a percentagem de empresas que não atingiram seus objetivos: um recorde histórico. Vale lembrar: esse cenário não está ocorrendo no contexto de uma recessão.



O S&P 500 fechou a 7.259, com alta de 0,81%; o USDBRL a R$ 4,9304, com queda de 1,09%; o EURUSD a € 1,1696, sem variação; e o ouro a U$ 4.555, com alta de 0,72%.

Fique ligado!

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