Agora a carteirinha Vale PIB

 


Hoje é feriado no Brasil, mas os mercados americanos operam normalmente — e com notícias importantes. Reservei a sexta-feira para falar de inteligência artificial, e o dia de hoje oferece material farto em dois assuntos que merecem atenção.

O primeiro é o mais relevante: os números do Produto Interno Bruto americano do primeiro trimestre de 2026, divulgados ontem pelo Departamento de Comércio, mostram crescimento anualizado de 2%. Parece um número modesto até que se olhe para dentro: três quartos desse crescimento têm origem direta na inteligência artificial. O investimento empresarial em equipamentos e propriedade intelectual — categorias intimamente ligadas à infraestrutura de dados e ao desenvolvimento de modelos — avançou 10,4% no período, o ritmo mais forte em quase três anos.



O economista Oliver Allen, da Pantheon Macroeconomics, estimou que o investimento em inteligência artificial respondeu por cerca de metade do crescimento do PIB no trimestre, mesmo após descontar as importações de equipamentos. Já a análise da Bloomberg mostra que as despesas com processamento de informação e software sozinhas contribuíram com aproximadamente 30% da expansão do primeiro trimestre. Em outras palavras, um segmento relativamente estreito da economia carrega nas costas o desempenho macro do país.



O fenômeno não se limita aos Estados Unidos. A China cresceu 5% no primeiro trimestre, sustentada em grande parte pelo mesmo vetor: exportações de circuitos integrados e maquinário elétrico dispararam 63%, alimentando a expansão de centros de dados no Sudeste Asiático. Do outro lado, a Europa — notoriamente atrasada na corrida pela inteligência artificial — registrou crescimento pífio: a zona do euro expandiu apenas 0,1% no trimestre, abaixo da expectativa dos economistas. França ficou estagnada; Alemanha cresceu míseros 0,3%. O contraste é brutal e didático.

Em maio de 2024, no post "só-entra-com-carteirinha", lancei a ideia de que o mercado caminhava para separar radicalmente as empresas que adotassem a inteligência artificial daquelas que ficassem para trás — e que, sem a carteirinha, não haveria entrada no salão. À época, era uma leitura do comportamento do mercado de ações; hoje, é o dado oficial do PIB americano. O mundo se divide, de forma cada vez mais nítida, entre os que embarcaram nessa tecnologia e os que ficaram observando da plataforma.

Há um risco embutido nessa concentração, e é preciso dizê-lo com clareza. Economias que dependem de um único motor de crescimento ficam expostas de forma desproporcional quando esse motor tropeça — seja por restrições de financiamento, saturação de mercado ou qualquer outro choque. Por ora, os grandes nomes do setor — Amazon, Google, Meta e Microsoft — planejam investir coletivamente até 725 bilhões de dólares em infraestrutura este ano. Esse fluxo sustenta o crescimento, mas também concentra o risco em proporção equivalente.

Sobre o segundo assunto do dia: um experimento fascinante e, admito, instigante. Uma equipe de pesquisadores — Nick Levine, Alec Radford e David Duvenaud — criou um modelo de linguagem chamado Talkie, treinado exclusivamente com textos anteriores a 1931. Sem o ruído de décadas de internet, sem os debates sobre consciência artificial, sem os manuais de alinhamento. A proposta é simples e elegante: se o modelo conhece apenas o mundo até aquele ponto, ele consegue prever o que aconteceu depois?

Acho a ideia boa. Genuinamente boa. Separar o modelo de treinamento contemporâneo e usar apenas fontes históricas cria um laboratório controlado para testar a capacidade preditiva da inteligência artificial em condições bastante específicas. O que emerge quando se remove o viés do presente? Quais padrões sobrevivem?

Tenho minhas dúvidas sobre a efetividade prática, no entanto. O problema não é a metodologia — é a matéria-prima. Há muito menos texto digitalizado de épocas anteriores a 1931 do que das décadas recentes. A escassez de dados históricos de qualidade pode limitar a capacidade do modelo de captar padrões relevantes. O próprio time reconhece que o projeto ainda está incompleto.

Mas vale como tentativa e como ideia interessante — e isso, no campo da pesquisa em inteligência artificial, já é bastante. O Talkie, ao ser questionado sobre quem era, respondeu que era um médico. Ao ser perguntado sobre ações para comprar e segurar por décadas, recomendou ferrovias das quais ninguém jamais ouviu falar. Engraçado, sim. Mas também revelador: sem a bagagem do presente, o modelo projeta o futuro a partir de outra lógica — e essa lógica, por mais anacrônica que pareça, pode conter lições que ignoramos.

A inteligência artificial não é só o motor do PIB americano de 2026. É também um espelho em que testamos nossa própria compreensão do passado e do futuro. E por enquanto, o espelho ainda está sendo polido.

 

Análise Técnica

No post "unicórnio-virou-banal", fiz os seguintes comentários sobre o Nasdaq 100:

"No post acima, me fixei em uma janela de longo prazo. Chegou a hora de voltar para a terra. Como o gráfico abaixo mostra, a bolsa estaria no caminho de formar as cinco primeiras ondas, o que levaria ao primeiro objetivo em 28 mil ou, mais acima, a 29,2 mil."



Em novas máximas, o Nasdaq 100 se aproxima dos objetivos apontados: 28 mil (+1,4%) ou 29 mil (+6,5%). Deveria estar pronto para liquidar a posição, mas ondas 3 costumam nos presentear com surpresas por meio de ondas estendidas. Em todo caso, estamos alertas e ajustando o
stop loss à medida que o movimento assim o indicar.



Em relação à Nvidia, comentei anteriormente:

"Observando em uma janela de prazo menor, ainda são questionáveis as subdivisões das ondas de menor grau. Sendo assim, prefiro aguardar mais evidências para projetar objetivos mais concretos de curto prazo. Além disso, ela ainda não havia feito sua lição de casa para ultrapassar a máxima de US$ 211."



Finalmente a Nvidia ganhou terreno na última semana e ultrapassou o nível acima; contudo, recuou em seguida. Essa retração deveria encontrar suporte na área delimitada no gráfico abaixo. Vale notar que, agora, a ação parece estar à frente dos índices. A questão que se coloca: qual dos dois devemos privilegiar para nossas posições?



A dívida americana é assunto recorrente em qualquer reunião de investidores. Alguns são mais enfáticos que outros sobre as consequências que podem infligir aos detentores desses títulos — e por que não à própria moeda. Outro argumento frequente é o de que, se a China resolver vender seu estoque, seria um caos generalizado. Mas afinal, quem são os detentores desses títulos?



Na figura acima nota-se que o total, da forma como é apresentado, já representa mais de 100% do PIB — um nível nada confortável. Mas como se compõe essa dívida? A parcela detida por estrangeiros é de aproximadamente 30%, um número elevado caso todos resolvessem vender ao mesmo tempo. Individualmente, porém, nenhum país detém uma parcela substancial que, sozinha, pudesse provocar um abalo sistêmico.

Por razões geopolíticas, não vejo nada que pudesse representar uma ameaça concreta no curto prazo. O risco real estaria numa condução equivocada da política monetária — aí sim o cenário seria mais preocupante. Por enquanto, segue o jogo.



O S&P 500 fechou em 7.230 com alta de 0,29%; o EURUSD a 1,1719, com queda de 0,10%; e o ouro a U$ 4.611, com queda de 0,23%.

Fique ligado!

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