Agora a carteirinha Vale PIB
Hoje é feriado no
Brasil, mas os mercados americanos operam normalmente — e com notícias
importantes. Reservei a sexta-feira para falar de inteligência artificial, e o
dia de hoje oferece material farto em dois assuntos que merecem atenção.
O primeiro é o
mais relevante: os números do Produto Interno Bruto americano do primeiro
trimestre de 2026, divulgados ontem pelo Departamento de Comércio, mostram
crescimento anualizado de 2%. Parece um número modesto até que se olhe para
dentro: três quartos desse crescimento têm origem direta na inteligência
artificial. O investimento empresarial em equipamentos e propriedade
intelectual — categorias intimamente ligadas à infraestrutura de dados e ao
desenvolvimento de modelos — avançou 10,4% no período, o ritmo mais forte em
quase três anos.
Em maio de 2024,
no post "só-entra-com-carteirinha", lancei a ideia de que o
mercado caminhava para separar radicalmente as empresas que adotassem a
inteligência artificial daquelas que ficassem para trás — e que, sem a
carteirinha, não haveria entrada no salão. À época, era uma leitura do
comportamento do mercado de ações; hoje, é o dado oficial do PIB americano. O
mundo se divide, de forma cada vez mais nítida, entre os que embarcaram nessa
tecnologia e os que ficaram observando da plataforma.
Há um risco
embutido nessa concentração, e é preciso dizê-lo com clareza. Economias que
dependem de um único motor de crescimento ficam expostas de forma
desproporcional quando esse motor tropeça — seja por restrições de
financiamento, saturação de mercado ou qualquer outro choque. Por ora, os
grandes nomes do setor — Amazon, Google, Meta e Microsoft — planejam investir
coletivamente até 725 bilhões de dólares em infraestrutura este ano. Esse fluxo
sustenta o crescimento, mas também concentra o risco em proporção equivalente.
Sobre o segundo
assunto do dia: um experimento fascinante e, admito, instigante. Uma equipe de
pesquisadores — Nick Levine, Alec Radford e David Duvenaud — criou um modelo de
linguagem chamado Talkie, treinado exclusivamente com textos anteriores a 1931.
Sem o ruído de décadas de internet, sem os debates sobre consciência
artificial, sem os manuais de alinhamento. A proposta é simples e elegante: se
o modelo conhece apenas o mundo até aquele ponto, ele consegue prever o que
aconteceu depois?
Acho a ideia boa.
Genuinamente boa. Separar o modelo de treinamento contemporâneo e usar apenas
fontes históricas cria um laboratório controlado para testar a capacidade
preditiva da inteligência artificial em condições bastante específicas. O que
emerge quando se remove o viés do presente? Quais padrões sobrevivem?
Tenho minhas
dúvidas sobre a efetividade prática, no entanto. O problema não é a metodologia
— é a matéria-prima. Há muito menos texto digitalizado de épocas anteriores a
1931 do que das décadas recentes. A escassez de dados históricos de qualidade
pode limitar a capacidade do modelo de captar padrões relevantes. O próprio
time reconhece que o projeto ainda está incompleto.
Mas vale como
tentativa e como ideia interessante — e isso, no campo da pesquisa em
inteligência artificial, já é bastante. O Talkie, ao ser questionado sobre quem
era, respondeu que era um médico. Ao ser perguntado sobre ações para comprar e
segurar por décadas, recomendou ferrovias das quais ninguém jamais ouviu falar.
Engraçado, sim. Mas também revelador: sem a bagagem do presente, o modelo
projeta o futuro a partir de outra lógica — e essa lógica, por mais anacrônica
que pareça, pode conter lições que ignoramos.
A inteligência artificial não é só o motor do PIB americano de 2026. É também um espelho em que testamos nossa própria compreensão do passado e do futuro. E por enquanto, o espelho ainda está sendo polido.
Análise Técnica
No post "unicórnio-virou-banal", fiz os seguintes comentários sobre o Nasdaq 100:
"No post
acima, me fixei em uma janela de longo prazo. Chegou a hora de voltar para a
terra. Como o gráfico abaixo mostra, a bolsa estaria no caminho de formar as
cinco primeiras ondas, o que levaria ao primeiro objetivo em 28 mil ou, mais
acima, a 29,2 mil."
"Observando
em uma janela de prazo menor, ainda são questionáveis as subdivisões das ondas
de menor grau. Sendo assim, prefiro aguardar mais evidências para projetar
objetivos mais concretos de curto prazo. Além disso, ela ainda não havia feito
sua lição de casa para ultrapassar a máxima de US$ 211."
Por razões geopolíticas, não vejo nada que
pudesse representar uma ameaça concreta no curto prazo. O risco real estaria
numa condução equivocada da política monetária — aí sim o cenário seria mais
preocupante. Por enquanto, segue o jogo.
Fique ligado!
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