O fim da ilusão japonesa #IBOVESPA

O Japão voltou ao centro do debate global não por uma inovação tecnológica ou por uma surpresa positiva de crescimento, mas porque o modelo que sustentou sua economia por décadas começou a cobrar a conta. Não é algo novo para quem acompanha o Mosca. Já escrevi inúmeras vezes que o arranjo japonês era uma construção artificial: juros em zero por tempo indefinido, controle direto da curva longa pelo banco central e uma moeda permanentemente enfraquecida como válvula de escape. Funcionou por muito tempo. Talvez até tempo demais.

Durante anos, o país conviveu com deflação, crescimento anêmico e uma demografia adversa. Para evitar uma crise interna, optou-se por um expediente de emergência que virou política permanente. O Banco do Japão assumiu o papel de comprador quase exclusivo da dívida pública, mantendo os juros longos artificialmente baixos. A consequência direta foi a desvalorização contínua do iene e a expansão da dívida pública para níveis extremos, hoje próximos de 240% do PIB. Em qualquer outro país desenvolvido, esse número seria simplesmente impensável.

O que manteve o sistema de pé foi o fato de cerca de 90% dessa dívida estar nas mãos de investidores locais. Enquanto isso foi verdade, a engrenagem girou. Mas como toda construção baseada em repressão financeira, havia um limite invisível. Esse limite começou a aparecer após a pandemia, quando a inflação finalmente deu as caras no Japão. A partir daí, o Banco do Japão ficou encurralado: subir juros e admitir o fim do modelo, ou manter a repressão e deixar o iene se desmanchar.

 

 

Esse dilema marcou os últimos anos. Os juros longos foram subindo lentamente, quase em câmera lenta, até que o Banco do Japão desistiu de vez de controlar a ponta longa da curva. Foi o sinal de que algo estrutural havia mudado. O mercado entendeu rapidamente. A normalização, que parecia gradual, passou a ganhar velocidade.

 

 

A situação se agravou com a entrada em cena da nova primeira-ministra. Em um momento delicado, surgiram propostas fiscais expansionistas e mal calibradas, como o plano de cortes de impostos sobre alimentos. Independentemente do mérito social, o timing foi desastroso. O mercado não discutiu o impacto distributivo, mas sim quem pagaria a conta. O resultado foi uma disparada dos juros longos, especialmente nos vencimentos de 30 e 40 anos, algo que não se via em décadas.

Aqui vale uma distinção importante. Parte desse movimento é saudável. Juros mais altos refletem inflação positiva e crescimento nominal, algo que o Japão buscou por muito tempo. Mas o mercado não olha apenas para o nível dos juros. Ele faz contas. E quando se faz a conta de financiar uma dívida de 240% do PIB, cada ponto percentual adicional pesa como uma âncora.

O risco não é o juro estar “alto”. O risco é o custo da realidade se tornar impagável. Em situações assim, o mercado tende a exagerar. Movimentos parabólicos não são incomuns. Foi exatamente isso que vimos no Reino Unido no episódio que derrubou Liz Truss. O Japão flerta com esse tipo de dinâmica. Se o processo sair do controle, o ajuste deixa de ser técnico e passa a ser político.

 


Outro ponto que chama atenção é o comportamento do iene. Em teoria, juros mais altos deveriam fortalecer a moeda. Não é o que está acontecendo. O iene continua fraco, sinalizando que o mercado não vê esse movimento como um simples ciclo de normalização, mas como um sintoma de desconfiança fiscal. É um sinal clássico de crise latente: juros sobem, moeda não reage.

 

 

Esse movimento tem implicações globais. Durante décadas, o Japão foi um pilar silencioso do mercado financeiro internacional. O capital japonês financiou déficits mundo afora, comprou títulos americanos e sustentou operações de carregamento que mantiveram os juros globais artificialmente baixos. Se esse capital começa a ser repatriado, o impacto não fica restrito a Tóquio. Ele reverbera em Treasuries, bolsas e moedas.

O Mosca sempre insistiu que grandes rupturas financeiras costumam começar onde menos se espera, mas raramente surgem do nada. O Japão é um exemplo clássico. A panela de pressão ficou no fogo por tempo demais. Agora a tampa começou a tremer. O desafio das autoridades será administrar esse processo sem provocar um estouro desordenado.

Existe saída? Sim, mas ela é politicamente custosa. O Japão possui ativos financeiros relevantes que poderiam ser usados para reduzir a dívida líquida. O problema é que admitir isso significa reconhecer que o modelo anterior chegou ao fim. E essa é sempre a parte mais difícil.

No fim, o que estamos vendo não é o colapso imediato do Japão, mas o início de um ajuste inevitável. O custo da realidade chegou. E, como sempre, o mercado fará questão de cobrar com juros.

 

Análise Técnica

 No post “Nunca duvide da China”, fiz os seguintes comentários sobre o IBOVESPA:

“assumo que a onda 5 verde não terminou. Muito bem, minha dúvida agora é sobre a onda 4 verde, e surgem duas possibilidades:”

Terminou (menos provável) — nesse caso, o IBOVESPA ruma para o objetivo de 182 mil, completando a onda 5 verde e a onda 3 azul.

Não terminou — nesse caso, após reverter a alta atual, deveria seguir para uma nova queda ao redor de 156/155 mil e só então voltaria a subir.


As opções acima perderam validade com a nova contagem exposta a seguir. Na verdade, o “Terminou”, da forma como foi colocado, não era o mais provável. Contudo, considerando que a onda 3 verde foi deslocada para contemplar um triângulo destacado na elipse, esse cenário passa a ser o mais provável — e foi o que ocorreu. A bolsa caminha agora para dois objetivos: 178,4 mil (mais provável) ou 192,1 mil.


Antes que algum leitor critique as mudanças constantes que tenho feito na contagem do IBOVESPA, posso afirmar que o sistema do MetaStock, que fui obrigado a utilizar, é rudimentar. Não quero me eximir da responsabilidade, mas é como estar acostumado a dirigir um carro moderno e, de repente, ter de trabalhar com um veículo antigo e desatualizado.

Por insistência de alguns leitores, resolvi continuar a publicação da análise técnica da bolsa brasileira. Dadas essas limitações, minha análise fica, sim, comprometida. Qualquer sugestão só será feita em situações de maior segurança, como a observada ontem, quando o índice superou a máxima de 165 mil, gerando uma entrada na bolsa nesse nível. O stop loss fica em 163,5 mil.

O S&P 500 fechou a 6.675, com alta de 1,16%; o USDBRL a R$ 5,3192, com queda de 1,03%; o EURUSD a € 1,1686, com queda de 0,33%; e o ouro a U$ 4.822, com alta de 1,24%.

Fique ligado!

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