Michael Saylor: O Especulador #BITCOIN #MicroStrategy
Se Michael Saylor
tivesse me consultado antes de transformar a MicroStrategy numa empresa
essencialmente dedicada a especular em Bitcoin, eu teria sido direto: não faça
isso. Não porque o Bitcoin não possa subir — ele pode — mas porque essa decisão
não tem nada de estratégia e muito de aposta. Estratégia trabalha com
probabilidades e adaptação; especulação trabalha com convicção e narrativa. Foi
por esse caminho que Saylor decidiu seguir.
Enquanto o Bitcoin
subia, o discurso funcionava. Saylor ocupava as redes sociais afirmando que o
Bitcoin valeria US$ 1 milhão ou mais, reforçando uma narrativa de
inevitabilidade. O problema é que o mercado não para no tempo. No último ano,
três mudanças relevantes ocorreram e alteraram profundamente a relação
risco-retorno dessa tese, mas foram ignoradas.
A primeira foi a
aprovação dos ETFs de Bitcoin à vista. Antes disso, a MicroStrategy funcionava
como um veículo imperfeito, porém escasso, de acesso ao Bitcoin no mercado
tradicional. Com o ETF, essa escassez desapareceu. O investidor passou a ter
acesso direto ao Bitcoin por meio de um instrumento mais simples, mais barato e
mais eficiente.
A segunda mudança foi
a consolidação das stablecoins como melhor substituto de caixa. Para empresas,
caixa precisa ter previsibilidade, liquidez e utilidade operacional. O Bitcoin
não cumpre esse papel. Stablecoins cumprem. A ideia de tratar Bitcoin como
caixa corporativo perdeu ainda mais sentido econômico.
A terceira foi o
retorno do ágio das ações da MicroStrategy para níveis mais próximos da
realidade. Durante a euforia, o mercado aceitou pagar muito mais pelas ações do
que pelo valor do Bitcoin que elas representavam. Esse ágio não era sustentável
e voltou para onde nunca deveria ter saído.
A partir desse ponto,
a comparação correta deixa de ser narrativa contra narrativa e passa a ser
veículo contra veículo. O ETF de Bitcoin foi criado para fazer uma única coisa:
espelhar o preço do Bitcoin com o máximo de precisão possível. Ele não interpreta
o ativo, não depende de decisões corporativas, não carrega risco de estrutura
de capital. Ele replica.
A ação da
MicroStrategy não replica o Bitcoin. Ela adiciona camadas de ruído. Seu preço
passa a refletir não apenas a variação do Bitcoin, mas também humor do mercado,
confiança no discurso do Saylor, expectativa de novas emissões, percepção de
risco corporativo e, sobretudo, oscilações de ágio e deságio em relação ao
valor do Bitcoin em carteira.
Quando há euforia, o
ágio parece virtude. Quando a confiança diminui, o mesmo mecanismo vira
armadilha. O investidor deixa de estar exposto ao Bitcoin e passa a estar
exposto à fé na narrativa. Isso não é investimento passivo. É aposta
comportamental.
O problema central
surge quando o ágio desaparece e dá lugar ao deságio. Nesse cenário, a
MicroStrategy passa a valer menos do que o Bitcoin que carrega. Isso abre
espaço para arbitragem: investidores compram ações da empresa e vendem Bitcoin
à vista ou via ETF, explorando essa diferença. Esse movimento pressiona ainda
mais as ações, aprofundando o deságio e criando uma dinâmica potencialmente
autodestrutiva.
Quanto maior o
deságio, maior o incentivo à arbitragem. Quanto maior a arbitragem, maior a
pressão negativa sobre o bitcoin. É um risco estrutural que o ETF não tem, pois
foi desenhado justamente para minimizar desvios em relação ao valor do ativo
que replica.
No limite, se o
mercado perde a confiança e o deságio se aprofunda, a empresa passa a depender
cada vez mais da boa vontade dos acionistas para sustentar sua estrutura
financeira. Nesse ponto, a MicroStrategy deixa de ser uma empresa de software e
se consolida como aquilo que de fato se tornou: um ETF alavancado e ineficiente
de Bitcoin.
Se o Bitcoin subir
forte, Saylor ganha tempo. Se não, o mercado fará o que sempre faz quando
surgem alternativas melhores: migrará para o veículo mais eficiente.
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