A grande deserção cripto #S&P 500 #bitcoin #MSTR
Durante anos, os defensores do bitcoin venderam a ideia de que ele seria
o “ouro moderno”. Uma reserva de valor imune à inflação, ao descontrole fiscal
e às fragilidades do sistema financeiro tradicional. Pois bem: o mundo entrou
novamente em modo defensivo, o dólar vem se desgastando, a geopolítica voltou
ao centro das decisões de investimento — e o dinheiro correu para o ouro.
Para as criptomoedas, sobrou o abandono.
Na minha rede social, essa mudança de humor já era visível. Quem antes
repetia, com a convicção de um catecismo, que o bitcoin substituiria o metal
precioso, agora mal toca no assunto. O Mosca nunca embarcou nessa tese. Sempre
enxerguei pouca utilidade econômica real e muita narrativa sustentando preço.
Ainda assim, eu fazia uma ressalva: se um dia o dólar perdesse, de fato, seu
status e o mundo precisasse de um “plano B” monetário, talvez surgisse algum
espaço para uma alternativa digital.
O momento atual é um teste respeitável. O dólar cai, a incerteza aumenta
e o investidor procura proteção. Era a hora do bitcoin “mostrar serviço”. E o
que ele entregou? Uma performance que lembra muito mais um ativo especulativo
do que uma reserva de valor.
Mesmo com inflação mais comportada e expectativa de juros mais baixos —
combinação que, em teoria, deveria favorecer ativos alternativos — o fluxo está
migrando para ações e, principalmente, para o ouro. O bitcoin patina, o volume
esfria e a convicção se dissolve. O retrato mais objetivo disso é o dinheiro
saindo dos veículos ligados ao bitcoin justamente quando o mercado procura
proteção em outro lugar.
O contraste é quase didático: o ouro marca máximas históricas, as bolsas
seguem resilientes e o suposto “ouro digital” tropeça. Quando a tese macro se
impõe, o investidor volta para o que conhece. E aí aparece um incômodo: talvez
o bitcoin nunca tenha sido, de verdade, um porto seguro; talvez tenha sido um
bom condutor de euforia.
Quando o noticiário aperta, o comportamento do bitcoin não lembra
proteção: lembra volatilidade. Ele cai forte, devolve parte em repique e
continua com dificuldade de retomar tendência. Em vez de âncora, vira bóia.
Mas o sinal mais revelador da grande deserção não está só no preço. Está
no comportamento do público que, por anos, alimentou esse ecossistema. Após um
tombo gigantesco no universo cripto, muitos traders migraram para mercados de
apostas sobre eventos: eleições, decisões de juros, esportes, clima. A promessa
de “revolução financeira” deu lugar a uma busca mais direta por emoção com data
marcada.
Enquanto o capital foge e o entusiasmo murcha, o bitcoin passa a
depender cada vez mais de compradores recorrentes — e aqui entra o personagem
que virou quase uma caricatura do ciclo: Michael Saylor, da MicroStrategy. Ele
segue comprando quantidades relevantes de bitcoin e, para financiar essas
compras, recorre à emissão de ações e instrumentos que, no fundo, diluem o
acionista.
Eu e meu colaborador fazemos a pergunta que deveria estar na boca de
todo investidor: quem compra essas ações? A empresa emite papel para comprar
bitcoin; o valor das ações passa a depender da alta do bitcoin; e o bitcoin,
por sua vez, passa a depender de um fluxo de compra financiado por dívida e
diluição. Quando a demanda orgânica some, o mercado fica com cara de engenharia
financeira tentando sustentar narrativa.
Se o bitcoin continuar andando de lado — ou escorregar — esse modelo
corporativo vira um castelo de cartas. Sem alta, o custo do financiamento pesa;
com diluição, o acionista paga; e a empresa perde margem de manobra. O que era
vendido como estratégia visionária pode virar um problema de sobrevivência.
Como se não bastasse, surgem riscos estruturais que atingem o coração da
tese: a segurança. Avanços em computação quântica podem, no futuro, pressionar
a criptografia que sustenta a rede. E moeda, antes de qualquer coisa, é
confiança: se a segurança vira dúvida, o ativo volta a ser aposta. Não por
acaso, alguns estrategistas têm trocado bitcoin por ouro físico e por ações de
mineradoras.
Há ainda um risco institucional: a supervisão. O mercado cripto cresceu
em tamanho, mas não em governança. Leis mal desenhadas, agências enfraquecidas
e responsabilidades confusas criam zonas cinzentas para abuso — inclusive no
universo das stablecoins, que já movimenta cifras enormes.
O mais irônico é que o setor pediu regulação por anos, buscando
legitimidade. Agora corre o risco de receber uma regulação fraca: suficiente
para dar sensação de segurança, insuficiente para impedir novas crises.
Quando coloco tudo isso na balança — fuga de capital, desempenho fraco
no momento em que deveria brilhar, dependência de compradores artificiais,
ameaça tecnológica, migração do público para apostas e um ambiente regulatório
instável — sobra pouco da velha narrativa. No fundo, restou apenas um
argumento: a escassez.
Mas escassez, sozinha, nunca foi fundamento de valor duradouro. O que
sustenta um ativo no tempo é utilidade econômica, confiança histórica e função
clara dentro do sistema. O ouro tem isso. Ações têm isso. Títulos têm isso. O
bitcoin, cada vez mais, parece depender de fé.
E fica a pergunta que ninguém no universo cripto gosta de responder com
honestidade: o que exatamente ainda precisa acontecer para admitir que a tese
da escassez, isolada, não transforma um ativo em reserva de valor? Se nem agora
o bitcoin cumpre o papel que prometeu, quando cumprirá?
Análise Técnica
No post “o outro lado da moeda”, fiz os seguintes comentários sobre o
S&P 500:
“A onda 1 azul,
ao invés de ter terminado como mostra o gráfico acima, pode ter se estendido em
um modelo diagonal, ilustrado abaixo. Nesse caso, a onda 2 azul estaria
em andamento, cujos objetivos se situariam entre 6.750 e 6.695 (cerca de −3%),
nada dramático.”
A possibilidade levantada acima ainda permanece válida. No entanto, com
o índice se aproximando novamente das máximas, posso voltar a trabalhar com a
alternativa mais antiga que vinha acompanhando.
Não se pode descartar completamente outra hipótese — uma correção ainda
mais profunda —, mas, neste momento, ela parece bem mais remota.
Em situações como essa, o mais prudente é aguardar os próximos
movimentos e, com um quadro mais claro, então se posicionar. Esses momentos
fazem parte da vida do investidor e são particularmente desconfortáveis, pois,
no final do dia, sempre parece óbvio o que deveria ter sido feito.
O S&P 500 fechou a 6.978, com alta de
0,41%; o USDBRL a R$ 5,1875, com queda de 1,77%; o EURUSD a € 1,2045, com alta
de 1,38%; e o ouro a U$ 5.180, com alta de 3,42%.
Fique ligado!
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