Os Dragões da IA #OURO #GOLD #EURUSD


“A IA está levando poucos ativos a alturas tão elevadas que o resto do mercado fica sem ar.”

Essa frase resume com precisão quase desconfortável a tese central do relatório “Smothering Heights”, do JPMorgan, quando isolamos o tema da inteligência artificial. Não se trata de empolgação tecnológica nem de narrativa futurista. Trata-se de concentração econômica mensurável, visível nos retornos de mercado, nos lucros e, sobretudo, no investimento em capital. O relatório não sugere, nem de longe, que a tecnologia seja irrelevante ou que os ganhos de produtividade não existam. O ponto central é outro: os benefícios econômicos da IA não estão sendo distribuídos de forma homogênea ao longo do mercado.

 



A analogia com Game of Thrones não é decorativa. Na série, dragões são ativos raros, caríssimos, difíceis de replicar e decisivos no equilíbrio de poder. Quem controla dragões impõe termos, redefine fronteiras e altera o curso das batalhas. Na economia da IA, os dragões assumem uma forma bem menos fantasiosa, porém muito mais concreta: chips avançados, litografia extrema, capacidade fabril e energia em escala. Não é software. Não é aplicativo. É infraestrutura pesada, intensiva em capital, escassa por definição e altamente concentrada.

Desde o lançamento do ChatGPT, apenas 42 empresas foram responsáveis por algo entre 65% e 75% dos retornos totais do S&P 500. Esse número, por si só, já seria suficiente para questionar a narrativa de um bull market amplo e saudável. Mas o dado ganha ainda mais relevância quando se observa o contrafactual: sem esse grupo restrito de empresas, o desempenho do índice americano teria ficado atrás de Europa, Japão e China. Em outras palavras, o investidor que não estava exposto aos “dragões” participou pouco — ou quase nada — do rali.

 



O aspecto mais importante, porém, é a persistência desse fenômeno. Não se trata de um movimento pontual impulsionado por múltiplos inflados ou por um episódio especulativo isolado. As mesmas empresas que concentram os retornos lideram também o crescimento dos lucros, do capex e dos gastos em pesquisa e desenvolvimento. Isso cria um ciclo cumulativo clássico: quem já domina a infraestrutura da IA amplia continuamente sua vantagem competitiva, enquanto o restante do mercado passa a operar em posição defensiva.

No centro desse ecossistema estão três gargalos incontornáveis: NVIDIA, TSMC e ASML. Cada uma delas controla um elo crítico da cadeia. A NVIDIA domina o design e o ecossistema de GPUs; a TSMC concentra a fabricação dos chips mais avançados do planeta; a ASML detém, na prática, o monopólio da litografia extrema. Esses elos não competem entre si. Eles se complementam. Juntos, formam o verdadeiro gargalo da inteligência artificial moderna.

Esse ponto costuma ser mal compreendido. Os grandes hyperscalers aparecem no discurso público como protagonistas da revolução da IA, mas estruturalmente são compradores dependentes. Sem acesso a GPUs de última geração, sem capacidade fabril avançada e sem máquinas de litografia extrema, a escalabilidade simplesmente não acontece. A dependência não é conjuntural nem regulatória. Ela é física. E gargalos físicos, quando combinados com forte demanda, tendem a gerar concentração de retorno.

O relatório do JPMorgan chama atenção para outro aspecto crucial: o volume de capex direcionado à IA. Quando medido como proporção do PIB, esse investimento já se aproxima de grandes ciclos históricos de infraestrutura nos Estados Unidos, como ferrovias, eletrificação e telecomunicações. A diferença, porém, é fundamental. Nos ciclos anteriores, a infraestrutura era majoritariamente pública ou amplamente regulada. No ciclo atual, ela pertence a um grupo restrito de empresas privadas, que controla o ritmo, o preço e a expansão dessa capacidade.

 



Esse dado ajuda a desmontar uma narrativa recorrente de democratização automática da IA. A tecnologia, de fato, se difunde. Modelos se tornam mais acessíveis, ferramentas se popularizam e aplicações se espalham pela economia. Mas o controle econômico da base dessa tecnologia permanece concentrado. Os ganhos de produtividade existem, mas os retornos financeiros se acumulam nos mesmos pontos da cadeia, reforçando a assimetria estrutural.

O relatório também destaca riscos objetivos que funcionam como limitadores naturais desse processo: gargalos de energia para data centers, restrições físicas de localização e refrigeração, tensões geopolíticas envolvendo Taiwan e os esforços chineses para reduzir dependência tecnológica. Nenhum desses fatores, entretanto, altera a estrutura observada hoje. Pelo contrário. Eles reforçam o valor estratégico de quem já controla os gargalos e aumentam o custo de entrada para novos competidores.

A leitura final é direta e desconfortável. A inteligência artificial não está redistribuindo poder econômico. Ela está elevando poucos ativos a alturas tão grandes que o restante do mercado fica, literalmente, sem ar. Não se trata de negar a revolução tecnológica, mas de entender sua geometria econômica.

O risco central desse ciclo não é uma bolha clássica, mas a confusão entre concentração estrutural e diversificação de mercado. Valuations elevados podem ser sustentáveis quando refletem barreiras físicas reais, capex crescente e controle de gargalos críticos. O erro está em extrapolar esse movimento para o mercado como um todo, assumindo que exposição temática equivale a diversificação. Em IA, não basta estar exposto ao tema. É preciso saber quem realmente controla a infraestrutura. O retorno não se distribui. Ele se concentra.


Análise Técnica

No post “Um presidente precisa ser pragmático”, fiz os seguintes comentários sobre o ouro: “caso o ouro ignore completamente esses argumentos e continue subindo, o próximo alvo estaria em torno de US$ 5.150. No longo prazo, meu cenário-base segue sendo de alta. No entanto, como o gráfico abaixo indica, ao final dessa sequência o ouro deveria corrigir para algo próximo de US$ 3.200, na onda 4 laranja”.



O ouro não deu qualquer sinal de exaustão, subindo de forma constante, com retrações mínimas. O movimento assumiu características quase parabólicas, o que me leva a considerar a hipótese de estarmos diante de uma bolha. Como toda bolha, ninguém sabe exatamente onde ocorrerá a reversão. Minha experiência sugere que, quando isso acontecer, a correção tende a ser substancial. Para quem está comprado, a recomendação é clara: ir ajustando o stop loss a cada nova máxima. Por enquanto, o próximo ponto de referência segue sendo o nível de US$ 5.150.



Em relação ao euro, comentei:

“o euro vem escorregando, mantendo válida a hipótese do triângulo. O nível com maior probabilidade de reversão encontra-se próximo a € 1,1597. O Mosca é comprador nesse patamar ou nas proximidades? Não. Prefiro aguardar a formação clara de cinco ondas de alta antes de qualquer posicionamento”.



A moeda única parece seguir o cenário mencionado, respeitando a formação de triângulo. Houve retração nos níveis mais prováveis para a onda e laranja, e o preço deve caminhar em direção ao objetivo traçado no retângulo. Essa leitura, no entanto, só se confirma caso o euro supere o nível de € 1,1921. Em estruturas triangulares, múltiplos desfechos permanecem possíveis. Neste momento, ainda não me sinto confortável para indicar um trade de compra. Sigam o Mosca para qualquer sugestão.



O S&P 500 fechou a 6.913, com alta de 0,55%; o USDBRL a R$ 5,2896, com queda de 0,58%; o EURUSD a 1,1748, com alta de 0,54%; e o ouro a U$ 4.916, com alta de 1,76%.

Fique ligado!

Comentários

Postar um comentário