A estratégia do conta gotas #USDBRL

 


Desde que Donald Trump voltou à Casa Branca, a China retornou ao centro do debate econômico global. Não por retórica, mas por método. O episódio do chamado “Liberation Day”, em abril, marcou o auge do barulho: uma escalada de tarifas respondida com novas tarifas, em uma sequência quase infantil que levou as alíquotas recíprocas a níveis próximos de 135%. Um número economicamente inviável, mas politicamente ruidoso. Serviu ao espetáculo, não à economia.

Passada a fase do choque, o roteiro mudou. As negociações voltaram a acontecer de forma discreta, técnica, quase invisível. O mercado fez o que sempre faz quando o excesso fica evidente: ajustou expectativas e voltou a precificar os dados. Esse contraste revela a diferença central entre os dois lados. Os Estados Unidos operam no impacto imediato. A China opera no tempo.

Trump gosta do gesto grande, da manchete, da reação instantânea dos preços. Pequim prefere o movimento incremental, contínuo, difícil de datar. Não busca o choque, mas o desgaste. É o que chamo de estratégia do conta-gotas.

Há mais de uma década se especula sobre o uso dos títulos do Tesouro americano como arma geopolítica. A China, em tese, teria capacidade de causar forte disrupção nos mercados de juros e câmbio se decidisse liquidar suas posições de forma agressiva. Mas essa nunca foi sua lógica. Uma venda abrupta destruiria valor, inclusive para o próprio vendedor, e colocaria o país no epicentro de uma crise financeira global. Não é assim que os chineses operam.

O que se observa é um processo muito mais sofisticado. A exposição direta da China aos Treasuries vem caindo de forma persistente desde o pico de 2013. Não é um evento, é uma tendência. Uma redução lenta, distribuída ao longo dos anos, quase irrelevante no curto prazo, mas clara quando analisada em perspectiva histórica.

Ao mesmo tempo, cresce a evidência de que parte dessa exposição migrou para estruturas de custódia fora do radar tradicional. A Bélgica é o exemplo mais emblemático. Suas posições em Treasuries aumentaram de forma expressiva desde 2017, em um movimento difícil de explicar apenas por fundamentos domésticos. O mais plausível é o papel de contas custodiais ligadas a investidores asiáticos, principalmente chineses. Não se trata de fuga, mas de reorganização.




É nesse contexto que a recente orientação das autoridades chinesas para que bancos locais reduzam compras de títulos americanos ganhou destaque. Do ponto de vista técnico, a medida é trivial: gestão de risco, redução de concentração e controle de volatilidade. Bancos comerciais chineses têm participação relativamente pequena no estoque total e, em geral, concentram-se em papéis de curto prazo, usados para liquidez.

A questão relevante não é o conteúdo, mas a forma. Por que tornar pública uma diretriz que poderia ser tratada internamente? A resposta está na sinalização. Ao vocalizar a recomendação, Pequim introduz ruído. Não questiona diretamente a solvência americana, mas planta dúvida sobre o conforto em manter exposição elevada a ativos dos Estados Unidos em um ambiente político cada vez mais imprevisível.

O curioso é que os dados caminham na direção oposta do discurso alarmista. O estoque total de Treasuries em mãos estrangeiras atingiu níveis recordes nos últimos doze meses. Longe de uma debandada, o que se vê é aumento da demanda global por títulos americanos, impulsionada por juros elevados, profundidade de mercado e ausência de alternativas equivalentes.




Isso desmonta a narrativa de perda estrutural de confiança. O dólar segue sendo a principal moeda de reserva. O mercado de Treasuries continua sendo o mais líquido e funcional do mundo. Não existe, hoje, substituto real. O que existe é desconforto marginal, amplificado por ruído político.

Mesmo assim, bastou a notícia vinda da China para provocar reação imediata. Os juros subiram, o dólar perdeu força frente a algumas moedas e ativos defensivos ganharam tração. Não por deterioração de fundamentos, mas por narrativa. O mercado continua extremamente sensível a qualquer sinal envolvendo o maior credor estrangeiro dos Estados Unidos, mesmo quando o impacto econômico é limitado.




Esse é o poder do conta-gotas. A China não precisa vender agressivamente seus títulos para influenciar expectativas. Basta lembrar, periodicamente, que tem opções. Um ajuste hoje, outro amanhã, sempre abaixo do limiar que caracterizaria confronto aberto. O efeito não é imediato, mas cumulativo.

Do lado americano, permanece o paradoxo. Os Estados Unidos oferecem o ativo mais seguro e líquido do sistema financeiro global, mas insistem em testar a paciência dos investidores com ruído político, ameaças comerciais e mensagens ambíguas sobre o próprio dólar. O custo não aparece de uma vez. Ele se acumula lentamente, na forma de prêmio de risco.

Por enquanto, os números ainda favorecem os Estados Unidos. A demanda existe, os leilões seguem fortes e os dados confirmam. Mas a estratégia chinesa não é binária. Não se trata de vender ou não vender. Trata-se de tempo, sinalização e expectativa.

O conta-gotas segue pingando. E, em mercados, pequenas gotas acumuladas ao longo do tempo costumam ser muito mais eficazes do que uma enxurrada isolada.


Análise Técnica

No final de semana fiz uma postagem sobre a estratégia usada por Michael Saylor, da MicroStrategy, que utilizou a empresa para acumular estoque de bitcoins, além dos meus comentários sobre como enxergo o seu futuro. “michael-saylor-o-especulador”.

No post “warsh-sera-um-yes-man”, fiz os seguintes comentários sobre o dólar: “Estou assumindo que a onda 4 laranja terminou — trata-se de uma suposição arriscada, pois está baseada em uma janela de tempo curta. Nesse cenário, a correção em andamento deveria, no máximo, atingir a região entre R$ 5,22 e R$ 5,20”.




O dólar encontra-se atualmente na região inferior do intervalo mencionado acima. Ao longo da semana, nenhuma recuperação mais consistente da moeda americana se materializou. Da mesma forma, não se observou a formação completa das cinco ondas de queda; no gráfico de duas horas, nota-se a presença de apenas três ondas.

A conclusão é direta: o quadro permanece indefinido. Não me arrisco a comprar a moeda americana apenas porque o alvo técnico foi atingido, ainda que o stop loss seja relativamente curto. Prefiro aguardar os próximos dias, pois, como já enfatizei, não é possível assumir com segurança que a onda 4 laranja tenha, de fato, terminado.




O S&P 500 fechou a 6.964, com alta de 0,47%; o USDBRL a R$ 5,1932, com queda de 0,46%; o EURUSD a € 1,1914, com alta de 0,83%; e o ouro a U$ 5.079, com alta de 2,27%.

Fique ligado!

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