Raspando o Tacho #Bitcoin #MSTR #IBOVESPA
Na semana passada a Strategy — nome que a MicroStrategy adotou recentemente — divulgou que havia vendido 32 bitcoins. Quando li a notícia, parei para calcular o valor: aproximadamente US$ 2,5 milhões. Imediatamente pensei que faltavam alguns zeros. Não faltavam. Era isso mesmo — um troco para uma empresa que vale US$ 56 bilhões em bolsa e carrega algo entre US$ 57 bilhões e US$ 65 bilhões em bitcoin no balaço.
O CEO Michael Saylor já havia sinalizado que poderia vender a criptomoeda em algum momento. Mesmo assim, imaginei que guardaria esse gesto para algo mais grandioso, não para um valor tão diminuto. A justificativa dada pela empresa foi direta: a venda destinava-se a pagar dividendos de suas ações preferenciais. A reação do mercado foi imediata — o bitcoin recuou 3% no dia seguinte à divulgação. Detalhe revelador: essa queda representou US$ 1,8 bilhão em valor do próprio estoque da Strategy. A empresa vendeu US$ 2,5 milhões e o mercado respondeu destruindo US$ 1,8 bilhão do ativo que a sustenta. Pode imaginar o que acontece se tiver de vender volumes mais substanciais.
Fui pesquisar no Mosca os posts que já escrevi sobre essa empresa. São muitos. Tenho que ser honesto: existe um viés da minha parte. A figura de Saylor não me inspira confiança. Sua arrogância, somada ao fato de seu principal ativo ser o bitcoin — do qual nunca fui partidário —, criou em mim uma desconfiança estrutural. Dito isso, os fatos vêm corroborando minha tese de que a criptomoeda não tem utilidade prática no momento. Repito o que já disse aqui várias vezes: somente num cataclisma do dólar o bitcoin poderá ser útil como reserva de valor.
O marketing que esteve a favor dessa narrativa foi poderoso. Certa vez, numa consulta médica, surgiu aquela conversa que o mercado financeiro inevitavelmente provoca: “o que você acha do meu portfólio?” Em cinco minutos de avaliação rudimentar, descobri que o médico tinha bitcoins — e se via como investidor moderado em risco. Esse exemplo ilustra o quanto o processo de “limpeza” desses portfólios é demorado. Quem jamais deveria ter criptomoedas é maioria, e demorarão a chegar a essa conclusão — a menos que sejam obrigados pela realidade antes disso.
O problema não é exclusivo da Strategy. Uma análise recente levanta que dezenas de empresas copiaram o modelo — a tesouraria em bitcoin financiada por preferenciais e dívida —, criando um risco quase sistêmico. Cerca de 40% das 100 maiores empresas com tesouraria em bitcoin já negociavam abaixo do valor das moedas que detinham no final de maio. A Strategy, com seus 843.706 bitcoins e acesso a múltiplos instrumentos de financiamento, é a mais robusta do grupo. Isso significa que os imitadores de balanço mais frágil chegam ao fundo do poço primeiro.
O mecanismo que sustenta o modelo é relativamente simples de entender, e também de ver quebrar. A empresa emite ações com prêmio sobre o valor do bitcoin que detém, usa os recursos para comprar mais bitcoin, o que eleva a métrica de “bitcoin por ação”, que justifica novo prêmio, que financia nova emissão. O ciclo funciona enquanto o mercado acredita nele. Abaixo de um certo limiar de avaliação, emitir ações deixa de ser vantajoso, e a empresa precisa descer a escada: preferenciais mais caras, reserva de caixa, gestão de passivos e, por último, vender bitcoin. É exatamente o que aconteceu na semana de 26 de maio.
Há outro elemento que merece atenção: a preferencial de taxa variável STRC, lançada em julho de 2025 a 9% ao ano, já chegou a 11,5%. A empresa ajusta a taxa mensalmente para manter o papel próximo de US$ 100. O problema é que, quanto mais fraco o mercado, maior a taxa necessária para sustentar o preço — e maior o custo para uma empresa cujo ativo principal não produz um centávo de caixa. É uma armadilha financeira elegante: a defesa da paridade encarece exatamente quando menos se pode pagar.
A reserva de caixa da Strategy recuou de US$ 2,25 bilhões para US$ 900 milhões, enquanto o custo anual de juros e dividendos preferenciais já atingia US$ 1,488 bilhão. A reserva cobre poucos meses de obrigações. Parte da queda foi deliberada — a empresa recomprou US$ 1,5 bilhão em notas conversíveis com deságio de 8%, o que é uma boa gestão de passivos. Mas o resultado líquido é uma margem de segurança bem mais estreita.
No front das ações, a MSTR chegou a US$ 543 em setembro de 2025 e agora negocia perto de US$ 135 — queda de 75%. De forma técnica grosseira, o movimento poderia se estender até US$ 70 ou mesmo US$ 43. Se estancar por aí, existe possibilidade de recuperação no futuro. Será que Saylor vai substituir os bitcoins por ações de tecnologia? Ou o bitcoin ganhará vida novamente? Mas se o papel continuar caindo abaixo desse nível, a Strategy pode se tornar mais um sonho de verão que se desfaz.
A ironia central do caso é precisa: o bitcoin foi criado justamente para eliminar emissores, obrigações, dividendos, comitês de índices e bancos centrais. A Strategy reconstruiu tudo isso — conselho, pilha de preferenciais com hierarquia de pagamentos, reserva que se esgota, escada de vencimentos — sobre o ativo que foi projetado para não ter nada disso. Trinta e dois bitcoins não moveram o mercado. Mas mudaram a descrição: a empresa que nunca vendia, vendeu. E o documento protocolado na SEC disse por quê.
Análise Técnica
O bitcoin está beirando as mínimas e merece uma atualização. No post “Nunca diga nunca” fiz os seguintes comentários:
“estou assumindo que a onda 4 azul vai terminar mais à frente. Inicialmente, o Bitcoin deveria atingir US$ 101 mil — pode ser menos — para depois iniciar um movimento de queda que o levaria a US$ 33 mil — pode ser menos, caso não atinja os US$ 101 mil”
“o Ibovespa se encontra em situação perigosa. Como podem observar no gráfico a seguir, as ondas identificadas em laranja estão prestes a completar 5 ondas. Caso complete, deveria terminar ao redor de 160 mil ou mais abaixo, aproximadamente em 152 mil”
“Significa que a correção será demorada — vários meses — e profunda”
A grande implicação na formação de 5 ondas é que a correção da onda 4 verde será zigzag e não um triângulo, como é mais provável em ondas 4. Procurei destacar o possível caminho a ser seguido por essa onda A – B – C laranja.
No curto prazo, o objetivo para completar a onda A laranja seria ao redor de 162 mil.
O S&P 500 estava as 14h30 a 7.564, com queda de 0,60%; o USDBRL a R$ 5,092, com alta de 1,35%; o EURUSD a € 1,1597, com queda de 0,29%; e o ouro a U$ 4.448, com queda de 0,88%.
Fique ligado!
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