oitenta por cento de erro que dá lucro #USDBRL
O contraste com a abordagem fundamentalista não poderia ser mais revelador. A análise fundamentalista parte de parâmetros de avaliação fixos — múltiplos de lucro, valor patrimonial, fluxo de caixa descontado. O problema é que esses parâmetros podem ficar obsoletos. A revolução digital dos últimos trinta anos deixou muitos modelos para trás: empresas sem ativos físicos relevantes, sem lucros nos primeiros anos, sem dividendos — todas incompatíveis com o arsenal clássico. Já o momentum não tem esse problema. Ele se baseia em preços, e preços estão sempre atualizados. Não há revisão de modelo que o torne anacrônico.
Outro diferencial decisivo é o controle de risco. A abordagem de momentum costuma embutir mecanismos de stop loss, limitando perdas a parâmetros previamente estabelecidos pelos modelos de preservação de patrimônio. O fundamentalista que se convence do "valor intrínseco" de um ativo tende a segurar posições perdedoras com a esperança de uma reversão. Quem segue o preço sai quando o preço manda.
Tenho 50 anos de mercado e uso análise técnica há mais de 25, especificamente os princípios de Elliott Wave, que de certa forma é uma metodologia de momentum. No começo, com formação acadêmica voltada para a lógica, foi difícil aceitar que minha opinião sobre determinado mercado não seria o fator de decisão — ainda que eu fosse estudioso do assunto. Com o tempo aprendi a delegar ao mercado essa função. Não sem resistência, não sem perdas desnecessárias pagas como mensalidade do aprendizado.
O caso mais emblemático do desgaste fundamentalista é o próprio Warren Buffett. Por décadas, a Berkshire Hathaway superou o S&P 500 com consistência notável — desde 1965, o retorno anual composto beirou 19,7%, contra 10,5% do índice. Mas o desempenho recente conta outra história. Entre 2015 e 2025, o S&P 500 acumulou retorno de 304%, contra 234% da Berkshire. Em 2026, a defasagem se aprofundou: a ação acumula queda de cerca de 4% enquanto o índice sobe 9%.
O sintoma mais visível é o caixa. A Berkshire encerrou o primeiro trimestre de 2026 com US$ 397 bilhões em caixa e equivalentes — o maior acúmulo corporativo da história americana. O número equivale a aproximadamente 59% dos ativos investíveis do conglomerado. Buffett, que deixou o comando ao final de 2025 passando o bastão a Greg Abel, justificou publicamente a posição conservadora pela dificuldade de encontrar empresas boas a preços razoáveis no mercado atual. Em suas próprias palavras, já em 2023, o tamanho e a composição da Berkshire tornam a superação dramática do índice cada vez mais difícil.
É um diagnóstico honesto. Mas é também o retrato de uma metodologia que chegou ao seu limite operacional. Os grandes vencedores do ciclo atual — a inteligência artificial, os semicondutores, as empresas sem ativos tangíveis mensuráveis — ficaram fora do "círculo de competência" declarado do investidor mais famoso do mundo. O preço, ao contrário, não discrimina setores.
Do outro lado do espectro está Paul Mulvaney. CEO da Mulvaney Capital Management desde março de 1999, ele compõe ao lado dos poucos gestores no mundo com histórico de composição de retornos de aproximadamente 20% ao ano por mais de 26 anos — o que transformaria US$ 100 mil investidos no início em algo próximo de US$ 1 milhão, já líquido de taxas. Os números recentes são ainda mais notáveis: +89% em 2022, +51% em 2023, +83% em 2024, e já +65% no acumulado até março de 2026.
A estratégia é pura e simples: seguimento de tendência. O programa opera 45 mercados futuros abrangendo ações, juros, moedas, energia, metais e commodities agrícolas. O mecanismo central é um rompimento de canal — as máximas e mínimas de N dias determinam entradas compradas ou vendidas. Não há alvos de preço; as posições são encerradas apenas quando o stop é atingido. A pirâmide de posições cresce à medida que a tendência se confirma.
O detalhe que mais chama atenção no estudo de engenharia reversa da Concretum Research é simples: 80% das operações de Mulvaney são perdedoras. Oitenta por cento. O resultado extraordinário vem do 20% restante — posições que segurem a tendência com amplitude suficiente para mais do que compensar todas as perdas anteriores. O famoso trade do cacau em 2023–2024, onde Mulvaney construiu e manteve uma posição comprada concentrada através de um dos movimentos de commodity mais extremos das últimas décadas, ilustra exatamente esse ponto.
O estudo acadêmico traz uma camada adicional de sofisticação. No artigo "The Intramonth Momentum Cycle", publicado em maio de 2026, Daniel Nathan (Hong Kong Polytechnic University), Matti Suominen e Joni Tasa (Aalto University) documentaram que o prêmio de momentum das ações americanas se concentra em apenas seis dias por mês — a janela imediatamente anterior ao fim do mês, que denominaram PreTOM. Um dólar investido na estratégia vencedores-menos-perdedores apenas nesses seis dias entre 1980 e 2025 se transformou em US$ 18,78. O mesmo dólar nos demais quinze dias do mês resultou em US$ 2,37.
O mecanismo é preciso: fundos institucionais precisam converter posições em caixa para honrar obrigações de final de mês. Quando vendem, vendem primeiro os perdedores — ativos sem dividendos, com perdas recentes acumuladas, fáceis de liquidar. Isso cria pressão vendedora artificial sobre exatamente os papéis que já foram os piores do período. A reforma de liquidação americana de T+2 para T+1, implementada em maio de 2024, confirmou o mecanismo: a janela de venda se deslocou um dia, e o padrão de retornos acompanhou fielmente.
A conclusão prática de tudo isso é simples, embora difícil de executar: sistemas que seguem o preço, que cortam perdas rapidamente e deixam os lucros crescerem, funcionaram por décadas em mercados distintos, com ativos distintos, com gestores distintos. A abordagem fundamentalista não está morta — mas exige revisão permanente de premissas. Quando o mundo muda, o modelo pode não acompanhar.
Minha sugestão a quem quiser adotar a análise técnica como método, e tiver as mesmas amarras que eu tinha no começo: lembre-se de que é melhor ter compromisso com o bolso do que com a opinião.
Análise Técnica
No post “O PIX vai matar o stablecoin” fiz os seguintes comentários sobre o dólar:
“O mercado passou a semana passada contido numa faixa estreita ao redor do nível psicológico de R$ 5,00. Numa janela menor é visível a formação de um triângulo que, nesse caso, tenderia a romper para cima. Entretanto, como os leitores bem sabem, triângulos podem se formar e desfazer — por enquanto, nada a fazer”
O S&P 500 fechou a 7.599, com alta de 0,26%; o USDBRL a R$ 5,0387, com queda de -,31%; o EURUSD a € 1,1632, com queda de 0,23%; e o ouro a U$ 4.482, com queda de 1,28%.
Fique ligado!
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