Dois Brasis #USDBRL
A Allianz Research publicou em junho um estudo que vai incomodar quem ainda organiza o mundo em “mercados desenvolvidos” e “mercados emergentes”. O argumento central é simples e provocador: essa classificação já não diz o que costumava dizer. E o choque do Irã foi o teste que provou.
O estudo propõe substituir o binômio EM-DM por quatro dimensões estruturais — os chamados “4Rs”: Posição de Recursos (dependência energética), Força de Reservas (disciplina fiscal e externa), Credibilidade Monetária (independência do banco central) e Estrutura de Refinanciamento (parcela da dívida em moeda local). Nesse critério, o mapa do risco ficou de cabeça para baixo.
Países como Romênia, Egito, Grécia e Reino Unido — dois deles no bloco “desenvolvido” — sofreram mais com o choque do que a maioria dos emergentes, simplesmente por dependerem de hidrocarbonetos importados do Golfo. Enquanto isso, exportadores de commodities, muitos na América Latina, saíram ganhando. A linha divisória correu através da exposição energética, não através do passaporte do país no índice.
O Brasil aparece com destaque no relatório. O real valorizou 10,4% no acumulado de 2026, melhor desempenho entre todas as moedas monitoradas. Os bancos centrais emergentes, incluindo o brasileiro, subiram juros antes do Fed durante o ciclo pós-pandemia — uma inversão completa do padrão histórico, quando os emergentes reagiam de forma defensiva e tardia aos movimentos de Washington. A parcela da dívida pública em moeda estrangeira caiu de forma estrutural nas últimas duas décadas. Em termos macro e monetários, o Brasil de 2026 é irreconhecível em relação ao de 1999 ou de 2002.
Há um quinto R que nenhum modelo quantitativo captura bem: compliance. Não no sentido financeiro estreito, mas no sentido mais amplo — previsibilidade jurídica, segurança contratual, estabilidade regulatória, custo de operar dentro das regras. E é exatamente nesse quesito que o Brasil continua sendo um país emergente de manual.
O investidor estrangeiro que entra no Brasil via dívida local — exatamente o que a Allianz recomenda — não enfrenta mais o risco de default soberano da maneira que enfrentava antes. Mas enfrenta outro, muito mais difícil de precificar: a imprevisibilidade do ambiente de negócios. A reforma tributária foi aprovada, mas sua implementação é uma incógnita de anos. O arcabouço fiscal existe no papel. A judicialização de contratos é endemia. As regras mudam conforme o interesse político do momento, e o custo de estar em conformidade com a legislação é um fardo que poucos sistemas no mundo conseguem igualar.
O que esse trabalho não detalha é a dinâmica explosiva da dívida interna brasileira. É verdade que a dívida externa declinou significativamente no tempo — e o relatório tem razão nisso. Mas isso é ao mesmo tempo uma vantagem e uma desvantagem. Vantagem porque torna o país menos vulnerável a um ataque especulativo via câmbio. Desvantagem porque, em caso de crise, uma eventual reestruturação de dívida — mecanismo clássico de ajuste — não teria nenhum efeito importante sobre o problema real. O nó é a dívida interna, e duvido que qualquer governo teria coragem política de reestruturá-la.
Não estou dizendo que vai acontecer amanhã, nem que é inevitável. Mas se continuar assim, vai acontecer.
O Brasil merece o crédito pelos avanços que fez. E merece também a honestidade sobre o que ainda não resolveu. Emergente não é xingamento — é um diagnóstico. E enquanto o compliance e a dinâmica da dívida interna continuarem sendo os calcanhares de Aquiles, o diagnóstico segue parcialmente válido.
Análise Técnica
No post “vale-acordo-de-boca” fiz os seguintes comentários sobre o dólar:
“Quando o dólar atingiu 100% entre a onda a e a onda (b) laranja... isso me indicou que era uma correção, e não um movimento direcional... Posso abandonar a alta? Ainda não, pois, como enfatizo, essa onda 5 vermelha está na forma diagonal, um vai e vem. Somente abaixo de R$ 4,8844 teria que refazer a contagem.”
Uma outra visão são os investidores brasileiros que ainda detêm uma alocação muito concentrada localmente e estão trocando seus reais por dólares no patamar atual. Por sinal, esse fluxo pode ser mortal para o governo se ganhar dinâmica. Existem hoje um total de R$ 10 a 11 trilhões investidos em fundos de investimento. Estamos falando de US$ 2,0 trilhões — e se apenas 10% resolver sair do país, garanto que um pânico se instala no câmbio.
— Hahaha... virou fundamentalista? Sabia que um dia iria acontecer.
Tem razão, vamos aos gráficos. Não existe de perto nenhum pânico no dólar, pelo contrário, pode até cair como menciono acima. No curto prazo vamos observar se ultrapassa R$ 5,2373, o que completaria 5 ondas. Se ocorrer, depois decidimos o que fazer.
Fique ligado!
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