China: A Marmota infinita #SP500


Os leitores assíduos do Mosca já me conhecem bem o suficiente para saber que minha visão sobre a China não muda. E não muda porque os fatos também não mudam. Isso me fez lembrar de um filme americano de 1993 chamado "Feitiço do Tempo": um meteorologista arrogante fica preso num misterioso loop temporal — acorda todo dia no mesmo lugar, no mesmo horário, e revive exatamente o mesmo dia. Ninguém ao seu redor percebe o que está acontecendo; só ele carrega o peso da repetição. A cada ciclo, ele tenta reagir de forma diferente, mas o dia recomeça invariavelmente do zero, implacável e indiferente às suas escolhas. Pois bem: a economia chinesa é a marmota desse filme.

Poderíamos criar uma cartilha praticamente fixa sobre ela: queda nos preços dos imóveis, consumo interno pífio e compensação pela via das exportações. Entra mês, sai mês, e os dados se repetem sem que o governo consiga motivar sua população a gastar mais — mesmo com juros próximos de zero, num mundo que estava elevando as taxas. A China se transformou numa ilha deflacionária.

Os dados mais recentes confirmam isso com precisão cirúrgica. As vendas no varejo caíram 0,6% em maio na comparação anual — o pior resultado fora dos anos de pandemia. O índice de confiança do consumidor, que chegou a 125 pontos antes da pandemia, hoje patina em torno de 89, muito abaixo da média histórica de 105. E o crescimento do crédito bancário recuou para 5,5% ao ano em maio, o nível mais baixo desde 2001. Tudo isso enquanto a produção industrial avança 4,5% — não graças ao consumo doméstico, mas empurrada pela demanda externa.



Quem visita a China volta impressionado: prédios monumentais, tecnologia por todos os cantos, mobilidade urbana de primeira. Qualquer pessoa treinada no capitalismo ocidental ficaria com vontade de comprar ações desse país. Mas aí vem o choque: o índice acionário chinês MSCI está praticamente estagnado desde o fim da crise financeira global de 2008. No mesmo período, o MSCI americano multiplicou sete vezes. No segmento de tecnologia, a distorção é ainda mais gritante: o equivalente chinês ao Nasdaq sequer saiu do lugar, enquanto o índice americano multiplicou dezessete vezes.



Por que essa divergência tão brutal? A resposta é estrutural. Nos Estados Unidos, quem comanda a economia são os empresários, com liberdade para inovar, assumir riscos e acumular riqueza. Na China, quem comanda é o governo — e o governo não busca lucro. Busca controle e emprego. Sob Xi Jinping, as políticas econômicas tornaram-se cada vez mais autoritárias e arbitrárias, cerceando exatamente os motores que haviam impulsionado o crescimento chinês nas décadas anteriores, quando o capitalismo era tolerado com mais generosidade.

O racional do governo é simples e pode ser resumido assim: evitar o desemprego a qualquer custo. Para isso, é preciso crescer sem parar — não importa se com lucro ou prejuízo. O setor automotivo é o exemplo mais nítido: as montadoras chinesas estão entre as maiores do mundo em volume de vendas, exportam para qualquer mercado que ainda as aceite e, mesmo assim, operam no vermelho. O objetivo não é margem; é ocupação.



O excesso de capacidade industrial gerado por essa lógica encontra sua válvula de escape nas exportações. A Europa tornou-se o principal destino — as exportações chinesas para o continente somam quase US$ 827 bilhões em doze meses, contra US$ 415 bilhões para os Estados Unidos, reduzidos pelas tarifas de Trump. Parte do fluxo americano é contornada via Vietnã e outros países intermediários, mas essa janela também está se estreitando.



O problema central permanece intocado: o mercado interno não decola. Uma população historicamente poupadora, traumatizada pela bolha imobiliária que estourou no início desta década e ainda ressentida pelas restrições da pandemia, simplesmente não responde aos estímulos de demanda. O governo baixou os juros, lançou pacotes de incentivo, subsidiou eletrodomésticos e automóveis — nada foi suficiente para mover o ponteiro da confiança.



Numa projeção apresentada num evento da Goldman Sachs que comentei aqui no blog na última sexta-feira, o crescimento chinês deverá ficar abaixo da meta oficial do governo — que já é, por si só, modesta. Não é surpresa. É a marmota.

E é por isso que, daqui a dois, três ou cinco anos, voltarei a escrever exatamente este post. Com números ligeiramente diferentes, mas com o mesmo diagnóstico: consumo fraco, deflação imobiliária, exportações como única válvula e um governo que confunde sobrevivência com prosperidade. O loop não tem data para terminar — pelo menos não enquanto o modelo permanecer o mesmo.


Análise Técnica

Fiz os seguintes comentários do S&P 500 no post "IA: "ia-as-pedras-no-caminho":

"A onda (a) vermelha está prestes a completar suas 5 ondas — para tanto, precisa negociar abaixo de 7.369. Onde pode dar errado? Marquei o nível de 7.515, que não deveria ser atingido antes de completar a queda mencionada acima"




Os leitores devem ter notado que busco sempre colocar o que pode dar de errado, essa atitude contrasta com os fundamentalistas que a princípio não têm nada para dar de errado, afinal estão convencidos de sua tese. Para resumir: os técnicos só embarcam se os russos estão de acordo (me refiro aqui à colocação do Garrincha para o técnico Feola se a jogada planejada foi combinada com os russos).

No caso específico, deu errado — a bolsa passou batida no nível de 7.515. Antes que meu amigo me pergunte, não vou comprar ainda, e minhas razões são:

— Eu teria que colocar a onda (2) vermelha onde se encontra a onda A azul e assumir que a correção terminou. O que levaria a uma situação em que essa onda seria muito "rápida" — como podem ver, o símbolo verde ficou muito aquém.

— Em termos de retração, posso dizer que foi ok, entre 7.290 – 7.196.

Tem algum parâmetro que elimina essa contagem? Nenhum! Mas se o mercado começar a subir daqui em diante terei que assumir ou essa contagem que está aí, ou outra muitoooo mais altista que prefiro nem colocar agora.



Como o leitor pode notar, ainda não refiz o gráfico sob essa hipótese porque vou esperar duas ultrapassagens: inicialmente o nível de 7.620 e 7.113, onde indiquei que jogo a toalha. Ainda me parece o mais provável que a
onda (2) vermelha não terminou. Vamos ver.

O S&P 500 fechou a 7.511, com queda de 0,57%; o USDBRL a R$ 5,1027, com alta de 0,46%; o EURUSD a € 1,1608, com alta de 0,17%; e o ouro a U$ 4.333, com alta de 0,56%.

Fique ligado!

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