O plano B é o plano A #IBOVESPA
A Copa do Mundo começa amanhã e, como de costume,
o Brasil para. O Goldman Sachs publicou seu modelo preditivo para o torneio —
sofisticado, com 50.000 simulações de Monte Carlo e o sistema Elo adaptado para
o futebol — e o resultado não é animador: o Brasil aparece como quarto
favorito, com apenas 8% de probabilidade de levantar a taça, atrás de Espanha
(26%), França (19%) e Argentina (14%). Futebol é futebol, e os modelos erram.
Mas os sinais frios raramente mentem por muito tempo — dentro ou fora de campo.
Por que essa introdução? Porque este ano também
temos eleições presidenciais, e o ambiente político mudou de forma relevante
nas últimas semanas. A pesquisa Genial/Quaest de junho mostra Lula com 10
pontos de vantagem no primeiro turno estimulado (39% a 29%) e 6 pontos no
segundo turno simulado contra Flávio Bolsonaro (44% a 38%). Três fatores
explicam a melhora do presidente: o efeito da isenção do imposto de renda ainda
repercute; o Desenrola reduziu o percentual de brasileiros muito endividados; e
o escândalo do Banco Master, com 58% dos entrevistados acreditando que Flávio
pode estar escondendo envolvimento ilegal, ampliou a rejeição do senador para
56%. Resumindo: Lula comprou votos com eficiência e o adversário ajudou
tropeçando.
O país viveu décadas de crescimento consistente
sob Joko Widodo, com política econômica responsável, superávit em conta
corrente e moeda estável. O índice MSCI da Indonésia acumulou uma valorização
impressionante contra o conjunto de emergentes entre 2001 e 2022 — um dos
melhores desempenhos do grupo. Com a chegada de Prabowo Subianto ao poder, em
outubro de 2024, o roteiro mudou: agenda populista, gasto expansionista e, em
setembro, a demissão da ministra da fazenda Sri Mulyani Indrawati — ex-diretora
do Banco Mundial e âncora de credibilidade do sistema. O mercado não perdoou.
A rupia entrou em colapso progressivo. Desde a
posse de Prabowo, a moeda perdeu mais de 20% em relação ao índice de moedas
emergentes do J.P. Morgan — exatamente o período em que seus pares se
recuperavam. A bolsa de Jacarta acumulava queda de 38% no ano, tornando-se o
pior índice dentre mais de 90 índices globais acompanhados pela Bloomberg. O
múltiplo preço/lucro do mercado acionário indonésio caiu ao menor nível desde a
crise financeira global de 2008.
Por que isso me interessa tanto? Porque o roteiro indonésio é sugestivamente parecido com o que vejo se desenhar no Brasil. A dívida pública cresce de forma acelerada, as NTN-Bs de longo prazo já negociam com juro real entre 8,2% e 8,7% ao ano — níveis que o mercado só aceita porque o câmbio ainda está relativamente comportado. E o câmbio só se comporta porque os investidores se sentem confortáveis carregando papéis com rendimento estratosférico. Uma armadilha dourada.
Evolução das NTN-Bs
(juro real oferecido, % a.a.)
Tenho a forte impressão de que um segundo mandato
de Lula será uma versão aprofundada do que já está em curso. Sem as amarras do
primeiro ciclo e com a reeleição confirmada, a tendência natural é intensificar
a agenda redistributiva e intervencionista, com cada vez menos preocupação com
o que a Faria Lima ou os estrangeiros pensam. O processo não acontece do dia
para a noite — mas as taxas longas já estão sinalizando que o mercado não
acredita na sustentabilidade do equilíbrio atual.
O mesmo Goldman Sachs que modela Copas com 50.000
simulações sabe que modelos têm limites. Mas os sinais estruturais raramente
mentem por muito tempo. O plano B — ruptura fiscal mais severa, fuga de
capitais e câmbio fora de controle — está deixando de ser cenário de cauda para
se tornar o cenário base. Melhor assumir isso agora do que ser surpreendido
quando os números deixarem de ser apenas sinais.
Análise Técnica
No post "raspando-o-tacho" fiz os
seguintes comentários sobre o Ibovespa:
"A grande implicação na formação de 5 ondas é que a correção da onda 4 verde será zigzag e não um triângulo, como é mais provável em ondas 4. Procurei destacar o possível caminho a ser seguido por essa onda A – B – C laranja. No curto prazo, o objetivo para completar a onda A laranja seria ao redor de 162 mil."
E se assim acontecer, vale minha observação mais
comentada sobre o Ibovespa: a de que sua estrutura de longo prazo não é
direcional e sim corretiva.
Hoje foi publicado o dado de inflação americana
pelo CPI: embora elevado — índice cheio em 4,2% ao ano —, o núcleo ficou mais
comportado, em 2,9%. Olha como nos acostumamos: achar 2,9% comportado e
esquecer que está quase 1 ponto percentual acima do objetivo do Fed. O leitor
sabe que não gosto nem acredito em semelhanças com o passado, mas tenho que
confessar que o gráfico abaixo, comparando a evolução da inflação atual com a
que ocorreu nos anos 1970, está ficando muito semelhante. Será que vou ter que
"morder a língua"?
O S&P 500
fechou a 7.266, com queda de 1,62%; o USDBRL a R$ 5,1900, sem variação; o
EURUSD a € 1,1537, sem variação; e o ouro U$ 4.072, com queda de 4,38%.
Fique ligado!
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