IA: As pedras no caminho #SP500
A democracia funciona no Mosca. Meu associado Alberto Dwek, que vocês já conhecem, tem uma visão mais cética em relação à IA — e neste post de hoje coloca seus pontos de questionamento. Não que ele desacredite da ferramenta; pelo contrário, usa-a de forma constante e abrangente. O que ele questiona são os números projetados pelas novas debutantes: OpenAI, Anthropic e SpaceX.
Alguns avisos antes de entrar no assunto: 1) sou usuário de IA em várias formas — GPT, Grok, Gemini, Claude — e não tenho a menor intenção de parar, até porque estou pagando pouco; 2) este artigo tem o objetivo preciso de apontar riscos, criticar posições e analisar as várias inconsistências, incongruências e armadilhas colocadas por essa magnífica ferramenta; 3) só usei IA para minhas pesquisas — o texto, juro, é meu mesmo.
Já abordei em outros artigos uma visão mais ampla sobre o advento dos LLMs e a contínua evolução da IA, sem nenhum problema em colocar na mesma frase que estamos vivendo uma revolução digital, mas talvez pagando um preço excessivo por ela. Aqui vou ser mais específico: trata-se de mostrar que a conta — econômica ou financeira — não fecha; que os bilionários arautos da IA têm demasiado a perder para merecerem credibilidade; e que as deficiências dos modelos, hoje somadas a uma utilização equivocada, geram uma enorme dissonância cognitiva para grande parte dos usuários. Pode parecer muito — e nem comecei a falar em bolhas —, mas já temos dados, estudos e fatos que indicam o risco de uma crise inevitável.
É claro que há empresas e atividades que têm a ganhar mesmo pagando caro pela IA. A questão é se existem em volume suficiente para justificar os números quase impossíveis hoje publicados como se fossem reais ou previsíveis em futuro próximo. Da forma como a ciranda financeira se formou, qualquer decréscimo nos resultados previstos pode gerar uma reação em cadeia — da qual talvez só a Nvidia escape, por ter optado pelo sábio exemplo dos vendedores de pás e picaretas desta nova corrida do ouro. Qualquer percalço no moto-contínuo monetário em funcionamento vai abalar alguns impérios bilionários.
Não bastasse o financiamento problemático, o discurso econômico por trás dos supostos ganhos gerais da IA esbarra em limitações físicas. Não há dinheiro que resolva a questão do licenciamento urbano e ambiental, da indisponibilidade de áreas, do tempo para se instalar uma rede de transmissão — sem falar na própria evolução tecnológica, que força a obsolescência periódica dos chips em estoque.
Por isso é bom desconfiar de comparações apressadas com outras revoluções tecnológicas, nas quais o investimento em infraestrutura — sejam trilhos ou cabos de internet — tinha alto custo inicial mas diluição progressiva no tempo. Data centers têm custo crescente de construção e manutenção. Para piorar, dependem de energia cada vez mais cara e escassa.
Outra característica incômoda é a falta de confiabilidade no produto. A IA requer crescimento contínuo da base de dados, mas o estoque de dados humanos de alta qualidade na internet está se esgotando. A indústria tenta resolver isso alimentando a IA com dados sintéticos — gerados por outras IAs —, com óbvia degradação do modelo. Além disso, a IA gera volume excessivo de dados mas, como é propensa a erros, exige revisão humana de cada linha. Em vez de liberar tempo, cria um gargalo asfixiante de auditoria: o tempo economizado na criação é desperdiçado na checagem.
Para completar o quadro, as recentes alterações no cálculo de preços para uso de IA tornam caríssimo qualquer trabalho menos eficiente. Uma coisa é passar horas com o Claude a pleno vapor e pagar apenas a assinatura mensal. Outra, como o Uber e outros descobriram de forma dolorosa, é torrar milhões de dólares sem justificativa clara.
La garantia soy yo
Sam Altman, da OpenAI, já mudou mais de narrativa do que vendedor de bitcoin. Dario Amodei produz manchetes diárias e tem replicado constantemente a estratégia de anúncios bombásticos para justificar uma avaliação trilionária. Elon Musk acaba de entrar em conluio com a Nasdaq para praticamente obrigar fundos indexados a comprar ações da SpaceX.
Os três multibilionários querem dinheiro — muito dinheiro. Os IPOs planejados pretendem levantar a bagatela de 260 bilhões de dólares, baseados em avaliações não menos excessivas. Nem vale a pena analisar os números em detalhes: os resultados da OpenAI e da Anthropic até agora indicam crescimento nas receitas e perdas constantes. No modelo atual, a margem é negativa — ou seja, se nada mudar, os prejuízos vão se acumular. Mas os líderes garantem que tudo vai melhorar.
Há quem diga que todo esse carnaval está sendo preparado para dar uma saída a investidores cada vez mais nervosos com o capital já comprometido com a esperada — mas ainda não atingida — utopia da IA. Outros apontam que Musk precisa recuperar as dezenas de bilhões enterrados no projeto X, hoje xAI. O fato é que muito dinheiro foi investido sem retorno até agora, e a recuperação desse capital via distribuição geral do risco faz muito sentido capitalista.
O que esperar
Tenho o costume antigo de encerrar minhas análises de risco com uma pergunta: o que deveria acontecer para que eu mude minhas conclusões?
Um evento claro seria o sucesso dos IPOs — e por sucesso entendo um interesse honesto e bem distribuído no investimento, com plena transparência e exercício do contraditório. Isso já seria um ótimo sinal.
Outro ponto seria uma resposta concreta aos vários questionamentos quanto ao próprio modelo tecnológico baseado em modelos de linguagem — claramente deficientes em relação a modelos com visão de mundo. Até agora, e por mais que eu respeite todos os produtos da IA, eles são essencialmente excelentes coletores e apresentadores de dados, mas ontologicamente distantes de qualquer definição mínima de inteligência, consciência ou raciocínio lógico. Aguardo melhoras.
Finalmente, espero que todas as empresas envolvidas na sarabanda de investimentos cruzados e financiamentos das próprias vendas consigam todos os seus objetivos declarados: rápida construção dos parques de data centers, contínua ampliação na eficiência dos modelos e controle preciso das alavancagens e resultados financeiros reais. Qualquer falha nesses pontos vai derrubar o castelo inteiro.
Em seu site Behavioral Investment, Joe Wiggins resume algumas das pedras no caminho:
– Quais níveis de
retorno elas esperam entregar no futuro com a expansão da IA?
– Quanto as
empresas estão dispostas a pagar por tokens quando os subsídios forem
reduzidos?
– Qual é a
barreira competitiva de um LLM? Como sustentarão margens altas se a única
vantagem é o tempo de chegada ao mercado?
– Se a IA deve
ser genuinamente transformadora, por que os usuários corporativos foram
deixados para trás na alta do mercado?
Pode ser que todas essas perguntas sejam respondidas e justifiquem a explosão na euforia dos mercados. Mas a História tem mostrado com frequência que preços baseados na perfeita realização de um sonho acabam sempre despencando diante da imperfeição da realidade.
Análise Técnica
No post "Procura-se muito dinheiro" fiz os seguintes comentários sobre o S&P 500:
"A bolsa se
encontra na região que demarquei como objetivo. Ela vem subindo nos últimos
dias de forma mais suave, o que é compatível com ondas 5."
"Estou usando uma ferramenta de inteligência artificial como contraponto das minhas avaliações gráficas" ... "classificou essa contagem com 65% de probabilidade e, na de hoje, 70%."
A onda (a) vermelha está prestes a completar suas 5 ondas — para tanto, precisa negociar abaixo de 7.369.
Fique ligado!
Excelente Alberto Dwek. A conta dessa corrida insana de investimentos não fecha. Algumas curiosidades sobre o momento que passamos: 1º) Vale ressaltar que os 260 bilhões de dólares que serão captados nos mega IPOs serão suficientes para míseros 4 meses de investimentos; 2º) Elon Musk processou a OpenAI apenas para postergar o IPO e ser o primeiro a ter acesso ao dinheiro dos investidores; 3º) O Elon Musk empacotou o antigo Twitter como IA com objetivo duplo de desovar o investimento antigo mal sucedido e ainda transformou a SpaceX em empresa de IA, camuflando a receita de um negocio sólido com um mico; 4º) Berkshire Wathaway vai injetar R$ 10 bilhões numa empresa com quase R$ 5 trilhões em valor de mercado, indo contra a filosofia de Buffet e Munger; 5º)Michael Burry apontou que além do investimento circular, há literalmente fraude na estrutura financeira circular, com uso de diversas SPACs para esconder a manobra financeira; 6º) A estrutura financeira montada pelo Musk e a Nasdaq100 parece ter mais uma estrutura de desova financeira das ações para o publico em geral do que para captação de recursos para investimentos na economia real; 7º) Os aumentos de capital de empresas como Meta e Google mostram que elas não tem confiança que os investimentos em IA sejam capazes de retornar o custo da divida.
ResponderExcluirObrigado por sua avaliação e por detalhar esses pontos. A questão do retorno é mesmo fundamental. Tudo indica que teremos más "surpresas" pela frente, só espero que seu efeito na economia real seja limitado.
ExcluirHoje eu vi uma nova curiosidade: A demanda grossa do IPO da SpaceX vem dos fundos soberanos do oriente médio que já possuem posição na SpaceX, ou seja, estão ajudando a inflar suas próprias posições.
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