Procura-se muito dinheiro #SP500



Não me lembro, em 50 anos de mercado, de ter presenciado um momento em que a procura por recursos estivesse tão intensa. No passado, era uma empresa ou um país pedindo arrego ao FMI — e até houve casos em que bancos centrais enfrentaram especuladores na defesa de suas moedas, como o célebre episódio de Soros contra a libra esterlina em 1992. Mas nem esses episódios chegam perto das cifras que circulam hoje, onde a base de discussão são bilhões, trilhões e até se fala em quatrilhão — e a demanda vem por várias vertentes ao mesmo tempo.

Estamos diante de três aberturas de capital iminentes — SpaceX, Anthropic e Open IA — que prometem ofuscar até a guerra com o Irã, que já virou nota de segunda categoria. Essa é uma péssima notícia para Teerã, que dependia do frisson geopolítico para forçar um acordo com os Estados Unidos. Até a Google, que nada em rios de dinheiro, resolveu entrar na dança e pediu um troco de US$ 80 bilhões para emitir ações — o que, na escala dos outros, parece quase modesto.

A SpaceX de Elon Musk abre capital no dia 12 de junho, em oferta que se tornará a maior da história, captando entre US$ 75 e 80 bilhões a uma avaliação de até US$ 1,8 trilhão. Nem o próprio Musk sabe com precisão quanto sua empresa vale — já vi números que chegam a US$ 2,5 trilhões. A Anthropic, mais comedida, arredondou para US$ 1 trilhão e protocolou na segunda-feira passada seu pedido de abertura de capital de forma confidencial, com previsão de estreia na bolsa ainda neste outono do hemisfério norte. A Open IA vem logo atrás, mirando uma avaliação de US$ 1,75 trilhão. Somando tudo numa conta de padaria, chegamos a algo entre US$ 4,5 e 5 trilhões. Todas as três serão, instantaneamente, teracórnios — e todas vão colocar no mercado apenas uma fração ínfima de suas ações. A SpaceX floatará cerca de 4,3% do capital; as outras duas também devem oferecer fatias igualmente acanhadas.



Vai faltar dinheiro? Ed Yardeni não está preocupado. O argumento é sólido: o mercado de capitais absorveu US$ 232 bilhões em novas emissões nos últimos doze meses encerrados em abril, e em 2021 chegou a US$ 450 bilhões numa única safra de aberturas. Com 62% dos americanos adultos investidos em bolsa e ativos em contas de aposentadoria provavelmente superando US$ 20 trilhões, a demanda potencial existe. Além disso, famílias norte-americanas tinham, ao fim do ano passado, recordes de 36,8% do patrimônio líquido e 47,1% dos ativos financeiros alocados em ações.



Há, contudo, o ponto que ninguém na Wall Street gosta de mencionar abertamente: o problema não é o lançamento em si, é o que vem depois. Pesquisa da Goldman Sachs mostra que empresas com baixíssimo float no momento da abertura — abaixo de 7% — chegam a 54% do capital em circulação dois anos depois. Para o universo geral de aberturas, um float inicial de 24% virou 69% no mesmo prazo. Se SpaceX, Anthropic e Open IA seguirem esse padrão, o peso da oferta que chegará ao mercado em 2027 ou 2028 pode se tornar indigesto. John Authers, da Bloomberg, já compara o ciclo ao pico de emissões de 1999 — e todos sabemos o que veio no ano seguinte, quando o prazo dos bloqueios venceu e os fundadores correram para transformar papel em caixa.

Tem mais um detalhe que merece atenção: os próprios provedores de índices estão reescrevendo suas regras para acomodar os novos gigantes. A S&P Dow Jones estuda reduzir de doze para seis meses o período de carência para mega-capitalizações e cogita dispensar o requisito de quatro trimestres consecutivos de lucro pelo critério contábil tradicional — exigência em vigor desde 2002. A Nasdaq já cortou sua janela de inclusão de 90 para 15 pregões, a partir de maio. A Bloomberg Intelligence estima que os fundos que replicam o S&P 500 precisarão absorver 19% do float da SpaceX em seis meses, com os que seguem Russell 1000 e Nasdaq-100 engolindo outros 24%. É compra forçada colidindo com oferta limitada. Onde está a SEC?



O novo presidente do Fed, Kevin Warsh, que assumiu oficialmente o cargo ontem, pretende diminuir a carteira de títulos detida pelo banco central — e os números lá também não são pequenos. Acontece que ele foi atropelado por essas emissões antes mesmo de se sentar confortavelmente na cadeira. Observando todos esses movimentos, mais a pressão inflacionária que aparece em cada indicador divulgado, não vejo como a autoridade monetária pode cogitar cortar juros. Pelo contrário: tudo indica que o juro real precisa subir, pois quem passar por Wall Street nas próximas semanas vai ver a plaquinha "Procura-se muito dinheiro" em todos os edifícios por lá. Hahaha.


Análise Técnica

No post "Quando o lucro lidera" fiz os seguintes comentários sobre o S&P 500:

"Fiz uma nova alteração nas ondas de prazo mais curto (laranja) e, nessa condição, observo uma area de congruencia entre 7.590 (+1,6%) / 7.632 (+1,9%) — nada que justifique uma sugestão de trade."



A bolsa se encontra na região que demarquei como objetivo. Ela vem subindo nos últimos dias de forma mais suave, o que é compatível com ondas 5. Mas não abra o champanhe — pode, de repente, empinar para cima.

Como comentei com os leitores, estou usando uma ferramenta de inteligência artificial como contraponto das minhas avaliações gráficas. Lógico que ela é uma replicadora da teoria e ainda comete vários erros, mas vale como mais uma opinião. Na avaliação de ontem, classificou essa contagem com 65% de probabilidade e na de hoje 70% — e eu também acredito que não deva mudar.



Tenho acompanhado outras ações que, em sua maioria, pertencem ao segmento de semicondutores — a bola da vez. Por lá fica a impressão de que o ambiente é de onda 3, 3, 3: a mais potente. Essas ações ainda representam parcela pequena do índice, gerando impacto reduzido. Vamos acompanhar.

Para quem está vendido, o mercado virou uma tortura chinesa: anda que nem tartaruga — devagar, sem pressa — mas não muda de direção. Aparece uma ameaça, ele recolhe um instante dentro do casco e volta a caminhar para frente.

Meu pensamento desta manhã: será que estamos entrando numa bolha?

O S&P 500 fechou a 7.609, com alta de 0,13%; o USDBRL a R$ 5,0244, com queda de 0,30%; o EURUSD a € 1,1632, sem variação; e o ouro a U$ 4.486, sem variação.

Fique ligado!

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