Surgiu uma esperança #Strategy #SP500
O que mudou foi o estilo. Warsh decidiu não submeter sua própria projeção no último dot plot — o gráfico em que cada dirigente do Fed marca onde acha que os juros vão estar nos próximos anos. Ele disse que esse exercício não ajuda na condução da política e anunciou cinco grupos de trabalho para revisar comunicação, balanço, dados, produtividade e o próprio arcabouço de inflação do banco central. Na superfície, parece humildade institucional. Na prática, ao se recusar a dar um número, ele esvazia o peso das projeções dos colegas, porque qualquer leitura sobre o caminho dos juros passa a carregar a ressalva de que o dirigente mais influente do comitêo não disse nada.
Dois colunistas da Bloomberg, que conheço e respeito há anos pela qualidade da análise, bateram nesse ponto em direções complementares. Bill Dudley, ex-presidente do Fed de Nova York, alertou que esse pivot para discricionariedade reunião a reunião tende a deixar os mercados mais voláteis e corroí a credibilidade do banco central justamente por obscurecer a função de reação que os investidores usam para se posicionar. Clive Crook foi por outro ângulo: lembrou que Warsh sempre torceu o nariz para regras formais, como a regra de Taylor, mas defendeu que algum tipo de regra — ele propõe uma baseada no PIB nominal — ajudaria a organizar e explicar as decisões ao público, em vez de deixar tudo a critério do humor do momento.
Em cinquenta anos acompanhando bancos centrais, aprendi que a pior coisa que um presidente de banco central pode fazer é trocar previsibilidade por mística pessoal. Regras claras têm um custo — engessam a resposta a choques imprevistos — mas têm um benefício que vale mais: tiram do mercado a tarefa impossível de adivinhar o estado de espírito de uma única pessoa a cada reunião. Warsh está jogando uma partida arriscada: usar a ambígua para ganhar tempo enquanto monta sua maioria dentro do comitê. Pode funcionar por alguns meses. Mas se a inflação não ceder e ele tiver que entregar as altas que o mercado já precifica, a esperança do presidente americano de ver juros mais baixos vai morrer na praia.
Mudando de assunto, mas ficando na mesma família de esperanças frustradas, chego a Michael Saylor e a Strategy. A notícia de que a empresa vai vender até US$ 1,25 bilhão em bitcoin para recompor liquidez me surpreendeu positivamente. Finalmente o bom senso — ou a iminente falta de liquidez, o que dá quase no mesmo — levou Saylor a um ato de lógica. Fico até brincando se ele andou lendo o Mosca. Agora, se isso vai salvar a empresa é outra história.
Já havia comentado por aqui que Saylor deveria ter vendido bitcoin quando o preço estava subindo, como faria qualquer bom operador que entende de gerenciamento de risco. Mas não: sua tese era que o bitcoin valeria um milhão de dólares, então por que vender a cem mil? Se a posição não estivesse alavancada, até daria para sustentar essa aposta. O problema é que ele financiou a compra emitindo ações preferenciais com dividendos obrigatórios, e isso fechou a porta de saída elegante. Agora a venda é feita sob pressão, com o bitcoin bem abaixo dos topos.
Os números mostram o tamanho do aperto. O Wall Street Journal relatou que o plano de virada da empresa inclui recomprar até US$ 1 bilhão em ações ordinárias e mais US$ 1 bilhão em preferenciais, além da venda de bitcoin já mencionada. A Bloomberg foi além: o mNAV da empresa — a relação entre o valor de mercado, incluindo dívida e preferenciais, e o valor do bitcoin em caixa — caiu abaixo de um, ou seja, o mercado passou a precificar a ação com deságio em relação ao próprio bitcoin que ela carrega. A ação segue cerca de 75% abaixo do pico do último ano, mesmo depois da alta recente. A empresa também criou uma política de manter reserva mínima equivalente a doze meses de pagamento de dividendos preferenciais e juros, hoje em US$ 2,55 bilhões, e subiu o dividendo da preferencial STRC para 12% ao ano — um custo de capital que, convenhamos, não é trivial para nenhuma empresa sustentar indefinidamente.
Existe ainda um efeito colateral que pouca gente discute: a decepção dos acionistas que compraram a ação exatamente porque Saylor jurava nunca vender bitcoin. Para quem está perdendo dinheiro, esse tipo de reversão é quase um pretexto honroso para liquidar a posição — tira a culpa de cima do próprio investidor. Se isso acontecer em massa, o deságio entre a ação e o bitcoin subjacente pode se aprofundar ainda mais, criando um círculo difícil de quebrar.
De toda forma, registro a medida como positiva no sentido de aliviar o estresse financeiro da empresa, ainda que provavelmente tardia. E talvez exista um fio que liga as duas histórias de hoje: tanto Warsh quanto Saylor flertam com a ideia de que carisma e convição pessoal substituem regra e disciplina. O mercado, mais cedo ou mais tarde, sempre cobra essa conta.
Análise Técnica
No post “eu-avisei” fiz os seguintes comentários sobre o S&P 500:
“A bolsa está abrindo em queda e tudo indica que o nível de 7.197 pode ser atingido nos próximos dias. Parece que a lógica prevaleceu. Nada garantido, mas a probabilidade se eleva agora. Vamos ficar de olho para uma eventual compra da bolsa.”
a) A correção terminou onde apontei com o símbolo em azul; se for o caso, indica muita força, pois atingiu o mínimo de 7.290.
b) Trata-se de uma correção complexa, que ainda deve cair abaixo de 7.238, parando ao redor de 7.000.
c) Uma última opção, bem menos provável, é a de que esteja se desenvolvendo um triângulo.
Como agir numa situação dessas? Primeiro, não fazendo nada; segundo, observando em janelas menores o que acontece. Ao ultrapassar 7.560/7.620, a chance da opção “a” aumenta consideravelmente, e abaixo de 7.238 cresce a chance da opção “b”. No intervalo entre elas, fica tudo em aberto por enquanto.
Fique ligado!
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