Postagens

A bola de cristal sempre falhou #IBOVESP

Imagem
A vontade de saber o futuro não é coisa nova — a profissão de cartomante existe há séculos, prova de que a curiosidade sobre o que está por vir é praticamente estrutural na natureza humana. Há algum tempo fiz, a convite de um amigo que medita todos os dias, um curso de meditação. Sobraram dali alguns áudios que uso em dias mais agitados, embora confesse que às vezes durmo no meio da sessão — o que, sei bem, não é exatamente o objetivo. Mas o que ficou de mais valioso da técnica foi a constatação de como carregamos um sentimento duplo em relação ao tempo: olhamos para trás com saudade do que foi bom e não volta, ou com angústia do que foi ruim e ainda dói; olhamos para frente com a ansiedade de não saber o que vem. A meditação insiste que, nesse estado, deixamos de viver o presente — o único tempo que realmente temos. Isso vale, e vale muito, para os mercados. Quanto não pagaríamos por uma informação confiável sobre qualquer ativo daqui a um ano? Se pudesse escolher, eu quereria saber ...

5%: O nível da febre #10TB #S&P500

Imagem
Aprendemos ainda crianças que a partir de 37º o corpo está com febre, e que quanto mais o termômetro sobe, maior o cuidado que se deve tomar. Na renda fixa existe uma régua parecida: até 5% de juro nos títulos longos é tolerável, até saudável. Acima disso, o organismo financeiro entra em alerta, e quanto maior o nível, maior a preocupação. Por que justamente 5%? Talvez a conta seja simples: 2% de inflação, 2% de juro real, 1% de prêmio de risco. Somados, dão a tal febre. Se o termômetro passa disso, alguma dessas variáveis saiu do lugar — normalmente a inflação, a mais visível e a que mais incomoda quem administra política monetária. Com um banco central ativo, é hora de agir subindo a taxa básica. O juro real não deveria ficar muito acima de 3% mesmo com a economia bombando, que é o caso agora, e o prêmio de risco acima de 1% denuncia que o mercado enxerga algo mais no horizonte. Foi exatamente isso que aconteceu na segunda-feira: o 10 anos americano tocou 5% intraday e recuou no me...

Pé no breque da IA #USDBRL

Imagem
  Quando a esmagadora maioria dos concorrentes decide se sentar à mesma mesa, alguma coisa importante está em jogo. Foi o que vimos neste fim de semana: os principais laboratórios de inteligência artificial — Anthropic, OpenAI, xAI e Google DeepMind — pediram, em uma rara demonstração de unidade num setor movido a rivalidade, uma desaceleração no ritmo de evolução dos modelos mais avançados. O estopim foi a saída de um pesquisador da Anthropic, que deixou a empresa alertando publicamente que a tecnologia que ajudava a construir podia representar risco existencial para a humanidade. Sua declaração viralizou e foi reforçada por colegas ainda na ativa, um deles estimando em mais de 10% a chance de a IA matar toda a humanidade na próxima década. No sábado, o presidente-executivo da Anthropic publicou um longo ensaio defendendo que o setor precisa moderar o ritmo de melhoria das capacidades, para dar tempo à prevenção de riscos. Sam Altman, da OpenAI, aderiu de imediato e propôs dar a ...

o preço que você não vê #NASDAQ100 # NVDA

Imagem
  Durante minha apresentação na FEA-USP esta semana, percebi uma falta de compreensão generalizada sobre como funcionam os modelos abertos e fechados de IA. Confesso que eu mesmo não tinha pesquisado o assunto a fundo — fugia do tema principal daquela palestra. Foi essa lacuna que me motivou a escrever o post de hoje, complementando algo que talvez não esteja bem compreendido entre meus leitores. Toda vez que alguém me pergunta se deve migrar para uma ferramenta de IA "de graça" ou mais barata, eu devolvo a pergunta: barata para quem? Essa dúvida ganhou um capítulo concreto nesta semana. Na quinta-feira, a Anthropic publicou um relatório de ameaças afirmando que empresas chinesas de IA — entre elas a Moonshot AI, dona do popular Kimi, e a DeepSeek — usaram uma rede de plataformas intermediárias para canalizar milhões de perguntas de seus próprios usuários até o Claude, meu modelo de referência para boa parte do trabalho técnico que faço aqui no blog. O objetivo era "de...

O mercado de bonds ainda não está "gordo" #OURO # GOLD #EURUSD

Imagem
  O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, parece ter sido mordido pelo veneno do poder — veneno porque, na grande maioria das vezes, leva a reações emocionais. Embora tenha vivido a experiência mais sofisticada do mercado, a dos hedge funds, não parece estar aplicando o que aprendeu lá: quando uma autoridade não consegue seu objetivo por meio de ações, tenta por meio de ameaças. Todo mundo já sabe que o Tesouro vai comprar papéis do governo para tentar acalmar os "bond vigilantes", nome dado aos traders de renda fixa que atuam no mercado de juros toda vez que acreditam que o governo não está indo pelo caminho certo. E ele não vem convencendo: os juros longos americanos sobem quase diariamente, com o 10 anos batendo 4,85% nesta semana, a maior marca desde novembro de 2023, e o 30 anos rondando 5,3%, o nível mais alto desde a crise financeira global. "10-YEAR US TREASURY BOND YIELD & THE OLD NORMAL RANGE", do artigo "Bessent Tells Bond Vigilantes:...

Preço não leva desaforo #IBOVESPA

Imagem
  Reservei o post de hoje para um exercício que gosto de fazer de tempos em tempos: mostrar, com um caso concreto, como um fundamento perfeitamente lógico pode não se traduzir em resultado. O assunto é o yen, e o motivo pelo qual ele não está se comportando como um economista que acompanho e respeito, Robin Brooks, vem insistindo que deveria. Sigo o trabalho de Brooks há um bom tempo. Gosto de suas colocações, da forma como ele constrói argumento em cima de dados, mas isso não significa que eu concorde com tudo que escreve, muito menos que siga à risca suas conclusões. Nas últimas semanas ele embarcou, junto com boa parte do mercado, na frenesi dos juros e, como consequência, no debasement trade, aquele em que o ouro seria o grande beneficiário de uma desconfiança generalizada com moeda fiduciária. A moeda japonesa vem se desvalorizando há vários anos, e essa fraqueza é consequência direta de uma política monetária frouxa, na qual os juros reais ficaram negativos por longos perío...

Quatro mil quadrilhões de tokens: otimismo ou delírio? #SP500

Imagem
  Hoje apresentei na FEA-USP, no curso de Mercado de Capitais da pós-graduação, a convite do professor Savoia, que conheço de longa data. O tema que escolhi este ano foi o que considero a discussão mais importante que o mercado está tendo agora: os trilhões de dólares que estão sendo investidos em infraestrutura de inteligência artificial vão se pagar? Não entreguei uma resposta de sim ou não — meu objetivo foi oferecer método, não convicção. Os slides completos da apresentação vão anexados para quem quiser conferir cada dado na fonte original.  FEA - Apresentação 2026 - A IA vai se pagar? Comecei a preparar a aula com um número que circulou nas redes esta semana e que resume bem o tamanho do que está em jogo. Um relatório da Evercore ISI, no cenário-base, projeta que o consumo anual de tokens de IA chegue a 4.000 quadrilhões até 2030 — mais de vinte vezes o que o mundo inteiro vai consumir neste ano. E essa conta nem inclui a chamada IA física, robótica, carros autônomos. Qu...