A bolha vai ficar sem sabão #USDBRL
Passei o fim de
semana refletindo sobre um conjunto de tendências que tenho acompanhado com
atenção crescente. A conclusão a que cheguei é inquietante: estamos entrando em
um período sui generis na história dos mercados financeiros, marcado por uma
demanda por capital de proporções inéditas — e o sistema de preços ainda não
acordou para esse fato.
Antes de
desenvolver essa tese, preciso abordar o argumento que mais tem circulado nos
últimos anos: o de que os mercados estão numa bolha. É uma afirmação intuitiva,
mas os dados sistematicamente a desafiam. Os lucros das empresas, de forma
geral, vêm crescendo de maneira acelerada. Quando os lucros sobem na mesma
proporção que os preços das ações, o P/L não se altera significativamente — e a
narrativa da bolha perde sustentação. Os céticos da bolha têm razão nesse ponto
específico.
Mas o problema
que estou identificando é outro, e mais sutil. Não se trata de questionar se os
fundamentos são sólidos — eles são. A questão é o ambiente que permitiu a esses
fundamentos serem tão generosamente precificados: um mundo de capital abundante
e barato. É nesse ponto que a analogia do sabão se impõe. A bolha não é falsa;
o sabão existe. O que está mudando é que o sabão está prestes a ficar escasso.
E bolha sem sabão não se sustenta, independentemente de quão bem formatada ela
esteja.
Escrevi
recentemente um post intitulado "procura-se-muito-dinheiro",
no qual apontei que as emissões de ações em abertura de capital de apenas três
empresas, somadas a uma operação da Google, já superam com folga os 200 bilhões
de dólares. Não é um número isolado. É o sinal de uma onda.
As chamadas
Hyperscalers — as gigantes de infraestrutura digital — estão emitindo dívida em
volumes extraordinários para financiar a construção de centros de dados. Na
última sexta-feira, a Meta anunciou que também pretende captar recursos via
emissão de ações. Some-se a isso o crescimento contínuo dos déficits
governamentais ao redor do mundo e a provável redução das recompras de ações
por parte das empresas listadas em bolsa, e temos o esboço de uma nova
realidade.
O horizonte
promete ampliar essa tendência. Quando as empresas fora do ecossistema de
inteligência artificial precisarem construir seus próprios centros de dados ou
adquirir equipamentos especializados, a demanda por capital deixará de ser um
fenômeno restrito a um setor e se tornará generalizada. Estaremos diante de uma
disputa por recursos em escala global.
A pandemia
encerrou essa fase. A inflação voltou com força, e os bancos centrais
responderam com o ciclo de alta de juros mais intenso em décadas. O mercado,
porém, tratou esse ajuste como um episódio de normalização — inflação
temporariamente acima da meta, seguida de convergência e cortes. E de fato, em
boa parte do mundo, a inflação recuou em direção às metas. Parecia que o
capítulo estava se fechando.
Não estava.
Estamos entrando numa segunda fase, esta sim estrutural. A demanda enorme por
capital que descrevi acima — data centers, déficits, emissões — cria uma
pressão que vai além do componente inflacionário. Os títulos não precisarão
apenas embutir uma inflação mais alta do que a vivida nas décadas anteriores;
terão que voltar a pagar juro real de verdade. Aqueles 2% ao ano acima da
inflação que um dia foram considerados o mínimo aceitável voltarão a ser
exigidos pelos credores. O dinheiro voltará a ter preço.
Há ainda uma
dimensão estratégica que merece atenção. Alphabet e Meta poderiam se financiar
via dívida a custo inferior — e sabem disso. Se optaram por emissão primária de
ações, a leitura mais fria é que não estão buscando capital: estão drenando
liquidez do mercado para dificultar o financiamento dos concorrentes em
inteligência artificial. É uma dança das cadeiras onde os maiores jogadores
decidiram desligar o som.
A consequência
mais provocadora dessa hipótese é a seguinte: pela primeira vez na história
recente, a bolsa poderia cair de forma consistente mesmo com a economia indo
bem. Não por recessão, não por crise bancária, não por pandemia — mas
simplesmente porque o custo do capital subiu e os ativos estavam precificados
para um mundo onde ele era abundante.
Não estou
prevendo uma catástrofe. Estou sinalizando uma transição. E transições,
especialmente quando envolvem a reprecificação simultânea de classes de ativos
inteiras, costumam atropelar quem está na frente sem avisar.
Análise Técnica
No post "oitenta-por-cento-de-erro-que-da-lucro" fiz os seguintes comentários sobre o
dólar:
"acima de
R$ 5,1230 pode iniciar movimento de alta objetivando R$ 5,30; caso resolva
recuar, a área onde deve suportar a queda está destacada no retângulo rosa R$
4,97 – R$ 4,93"
Vamos passo a
passo nesse trade fora de consenso. O stop loss fica no nível de entrada.
Vamos enfatizar
mais uma vez: não tomo posições em função de fundamento — primeiro o gráfico
tem que me convencer e, se o fundamento for no mesmo sentido, ótimo. Em todo
caso, mesmo que essa visão colocada hoje se caracterize como verdadeira, não
será do dia para a noite; vai acontecendo no tempo. E, por último: não fiquei
pessimista. Acredito que a economia está indo muito bem, as empresas ganhando
muito dinheiro e a tecnologia revolucionando e ameaçando várias empresas
estabelecidas — nada mudou nesses quesitos. O que trago de novo é que poderá
haver uma reprecificação dos ativos por conta da escassez de capital para os
volumes de investimentos demandados.
O S&P 500
fechou a 7.405, com alta de 0,30%; o USDBRL a R$ 5,1973, com alta de 0,36%; o
EURUSD a € 1,1531, sem variação; e o ouro a U$ 4.329, sem variação.
Fique ligado!
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