Prova dos Dezoito #IBOVESPA


A prova dos nove é uma verificação aritmética antiga — uma forma rápida de checar se um cálculo está certo. Quando digo que o dólar passou na prova dos dezoito, não é modéstia: quero dizer que ele foi testado em dobro, sob as mais variadas pressões, e saiu intacto de todas elas. O relatório especial de junho de 2026 do JP Morgan — elaborado por Michael Cembalest para marcar os 250 anos da Declaração de Independência americana — oferece a mais completa radiografia que já vi sobre o assunto. E os dados do Yardeni Research, publicados nesta semana, completam o quadro com uma precisão que deixa pouco espaço para contestação.

Nos últimos anos, proliferaram as narrativas sobre o fim do dólar como moeda de reserva. O argumento tem apelo emocional e político: déficits fiscais imensos, uma dívida pública que saiu de 60% para 125% do PIB em vinte anos, sanções em cascata contra governos e empresas ao redor do mundo. Tudo isso, dizem os mais apocalípticos, estaria corroendo a confiança global na moeda americana e preparando o terreno para sua substituição. Sempre discordei. E os dados de Cembalest confirmam essa posição.

O JP Morgan acompanha seis indicadores do status do dólar como moeda de reserva: participação nos empréstimos transfronteiriços, nos títulos de dívida internacionais, no volume de transações cambiais, nas reservas oficiais dos bancos centrais, no faturamento de exportações e nos pagamentos via sistema internacional de transferências. Em todos eles, o dólar continua dominante. A participação nas reservas caiu 3 pontos percentuais desde 2020 — mas a contrapartida desse recuo foi inteiramente absorvida pela categoria "outras moedas", que inclui dólar de Cingapura, coroa sueca, coroa norueguesa e similares. Euro, iene, libra e renminbi chinês perderam participação no mesmo período. O dólar cedeu espaço para moedas menores, não para um rival à altura.



O argumento do ouro também merece desmistificação. A participação do metal nas reservas dos bancos centrais subiu de 11% em 2009 para 29% em março de 2026 — o que parece sugerir uma fuga do dólar. Não é o que os dados mostram. Quase toda essa alta é efeito-preço: o ouro valorizou muito, e sua fatia aumentou por apreciação, não por compras adicionais. Se as alocações físicas de 2009 fossem mantidas constantes e reavaliadas pelo preço atual, a participação seria de 26% — próxima dos 29% de hoje. Se o preço fosse congelado no nível de 2009, a participação cairia para 8%. O mercado confunde uma alta de preço com uma mudança de política monetária global.



Quanto à China como candidata a substituta, a análise é direta: a ideia é descabida no momento atual. A China construiu uma expansão monetária sem precedentes — os ativos bancários domésticos chegaram a 50% do PIB global. Para o renminbi funcionar como moeda de reserva, o país precisaria abrir a conta de capital. Mas se fizesse isso, a saída de recursos seria tão intensa que poderia destruir o renminbi e provocar colapso nos mercados imobiliário e acionário. Não por acaso, mantém rígidos controles sobre transferências — e ainda assim registrou saídas recordes entre 800 bilhões e 1 trilhão de dólares em 2025. Moeda de reserva e conta de capital fechada são incompatíveis por definição.

O detalhe revelado pelo WSJ esta semana completa o quadro: o yuan funciona na prática como moeda de evasão de sanções — não como moeda de reserva. O Irã recebeu bilhões em pagamentos de petróleo em renminbi, mas o dinheiro fica preso dentro do sistema financeiro chinês, sem liquidez global. A Hengli Petrochemical, refinaria sancionada pelos EUA, anunciou que passará a liquidar compras em yuan justamente para dificultar o rastreamento americano. O renminbi opera dentro de um circuito fechado, controlado por Pequim, acessível apenas a quem aceita as regras do jogo chinês. Não é uma alternativa ao dólar — é uma gambiarra para contorná-lo.

A narrativa do "venda a América" também já mostrou seu limite. Em março de 2025, uma sequência de ordens executivas do governo Trump desencadeou o primeiro episódio desse tipo desde 1982: queda simultânea nas bolsas, no dólar e nos títulos do Tesouro, com elevação dos juros longos. Soou como um rompimento estrutural. Não foi. Desde então, o dólar caiu apenas 1% no índice ponderado pelo comércio, os juros de dez anos nos EUA subiram 10 pontos-base — contra 70 pontos no restante do mundo desenvolvido — e as bolsas americanas superaram amplamente os mercados externos.

Os números do Yardeni Research não deixam dúvida sobre o que os estrangeiros estão fazendo na prática. As entradas líquidas de capital externo em ações americanas chegaram ao recorde de 883,9 bilhões de dólares nos doze meses até abril de 2026. Somando renda fixa — Treasuries e bônus corporativos —, o total alcançou 1,4 trilhão de dólares no mesmo período. Nunca se viu cifra parecida em nenhum ciclo anterior. Estrangeiros estão comprando ativos americanos em ritmo recorde, não vendendo — como os profetas do apocalipse insistiam em prever.



E por que compram? A resposta está no conceito que Yardeni chama de FEMO — Fantástico Impulso de Lucros, em contraposição ao FOMO da euforia especulativa. No mercado movido por FOMO, os múltiplos se expandem porque os investidores perseguem promessas, não fundamentos. No mercado movido por FEMO, o caminho é inverso: os lucros crescem mais rápido do que os preços das ações, comprimindo os múltiplos, e os analistas revisam suas estimativas para cima porque os resultados justificam. O mercado americano atual está claramente nesse segundo grupo. Os lucros projetados do S&P 500 cresceram 31% no acumulado de doze meses até junho — contra apenas 0,8% dos indicadores econômicos coincidentes no mesmo período. A inovação tecnológica está expandindo as margens corporativas em velocidade que a economia real ainda não conseguiu absorver por completo.

Há ainda um argumento frequentemente mal interpretado: o tamanho da China. É verdade que a economia chinesa já supera a americana em termos reais. Mas tamanho nunca foi condição suficiente para o status de moeda de reserva. Quando o dólar substituiu a libra esterlina, a economia americana era 3,5 a 5 vezes maior que a britânica — e ainda assim a transição levou décadas. O que define uma moeda de reserva vai além do PIB: profundidade de mercado, liquidez, clareza nos mecanismos de inadimplência, segurança jurídica dos contratos, proteção da propriedade. Nenhum desses atributos está plenamente disponível no sistema financeiro chinês.

Há ainda um fator que veio se somar a essa equação nas últimas semanas: a chegada de Kevin Warsh ao Fed. A postura hawkish do novo presidente — que declarou estabilidade de preços como prioridade absoluta e descartou qualquer afrouxamento prematuro — está ativamente esvaziando o "debasement trade", a aposta de que o dólar seria corroído por excesso fiscal e monetário americano. Ouro e criptoativos, que se beneficiavam dessa narrativa, recuaram. O mercado passou a precificar dois aumentos de juros até o primeiro trimestre de 2027. Não apenas o dólar resiste estruturalmente — o vento mudou: quem apostava contra ele está sendo forçado a desfazer a posição.

Os que apostavam no declínio do dólar terão de esperar mais — muito mais. Os dados do JP Morgan mostram a estabilidade dos seis indicadores estruturais da moeda de reserva. Os dados do Yardeni mostram que o capital estrangeiro continua fluindo para os EUA em volume recorde, atraído por lucros corporativos que não têm paralelo no restante do mundo. Não é fé cega nos Estados Unidos. É uma resposta racional a fundamentos que continuam superiores.

Não adiantou. O dólar apanhou de todo mundo, atravessou dezenas de crises e ainda saiu fortalecido.


Análise Técnica

No post "O investidor precisa de qual sorte" fiz os seguintes comentários sobre o IBOVESPA:

"Eu queria propor um negócio que não costumo fazer, comprar o Ibovespa" ... "A razão da compra seria função de três observações: a queda da onda A laranja atingiu níveis interessantes; consigo observar 5 ondas na janela de 1 hora e, principalmente, a entrada permitiu um ótimo risco-retorno"



Por enquanto quem resolveu embarcar na compra do Ibovespa nada aconteceu, nem subiu, nem caiu. Mas observando o que ocorreu nos últimos dias parece que está se formando um triângulo conforme destaquei com a parábola vermelha abaixo. Se for isso, novas baixas devem ocorrer antes de uma eventual correção. Somente acima de 175 mil essa opção fica descartada e uma onda B vermelha pode estar em curso. Nessa situação, prefiro não ter posição e ficar de observador, afinal, melhor guardar as forças para o futebol que vai precisar de muita torcida para não cair fora do mundial.



O S&P 500 fechou a 7.358, sem variação; o USDBRL a R$ 5,2154, com alta de 0,33%; o EURUSD a € 1,1353, com queda de 0,41%; e o ouro a U$ 3.989, com queda de 2,92%.

Fique ligado!

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