Musk puxa suas ações literalmente pro espaço #nasdaq100 #NVDA
Elon Musk é uma figura que me gera sentimentos mistos.
De um lado, a arrogância, a polêmica, o caos que ele parece gostar de criar. De outro, um empreendedorismo que é difícil ignorar — e ainda mais difícil de replicar.
E quando o assunto é SpaceX, qualquer crítica silencia.
O que essa empresa construiu é simplesmente absurdo. Foguetes reutilizáveis, lançamentos que viraram rotina, uma infraestrutura espacial que nenhum governo conseguiu fazer tão rápido — e tudo isso saindo de uma empresa privada.
E o mercado percebe. Cada avanço da SpaceX reverbera nas outras apostas do Elon. É como se o foguete não carregasse só satélites — carregasse também a confiança dos investidores nas empresas do ecossistema dele.
Genialidade ou sorte? Provavelmente as duas coisas — e o mercado não está aí para discutir filosofia.
Hoje não tem outro assunto. A SpaceX estreou na Nasdaq sob o ticker SPCX, com o maior IPO da história: 75 bilhões de dólares captados, numa avaliação de 1,77 trilhão de dólares. Para quem gosta de comparações, isso coloca a empresa entre as sete mais valiosas dos Estados Unidos, na frente da própria Tesla. E o detalhe que mais me chama atenção: a oferta foi mais de quatro vezes sobrescrita. Ou seja, a demanda superou em muito a oferta disponível — e mercados paralelos já precificavam, antes da abertura, um salto de pelo menos 35% sobre o preço de lançamento de 135 dólares.
Quando vejo um número desses, a primeira pergunta que me vem é sempre a mesma: o que está sendo precificado aqui? Porque a SpaceX que vai a mercado não é uma empresa de foguetes. É três empresas dentro de uma. A Starlink, que já é lucrativa e cresce a taxas que nenhuma operadora de telecomunicações tradicional sonha em alcançar. O negócio espacial propriamente dito, que ainda consome caixa pesadamente para construir a infraestrutura do futuro. E uma terceira aposta — centros de dados orbitais e inteligência artificial — que é pura especulação sobre o que pode vir a ser.
Quem compra a ação hoje está comprando as três coisas ao mesmo tempo, com um múltiplo de quase 94 vezes as vendas. Para colocar isso em perspectiva: a Tesla, que sempre foi acusada de ser cara, fecha 2025 com um múltiplo de 16,6 vezes vendas. A Meta, perto de 9 vezes. A SpaceX está em outra categoria — e isso não é exagero, é fato.
Eu sei como esses números se comportam quando entram em jogo os fluxos passivos. A SpaceX já entra direto no Nasdaq-100 — e isso significa que todo fundo indexado, todo ETF que replica o índice, é obrigado a comprar a ação, independentemente do preço, independentemente da convicção do gestor. A Oppenheimer já fala em compra passiva de fundos do Nasdaq-100 dentro de poucas semanas como um catalisador de curto prazo. Ou seja: além da demanda genuína de quem acredita na tese, existe uma demanda cativa, mecânica, que vai empurrar o preço para cima simplesmente porque as regras dos índices funcionam assim. Isso não é novidade — vimos o mesmo padrão com a Strategy de Michael Saylor, que entrou em índices como Nasdaq e MSCI e passou a contar com um fluxo de capital passivo que nem queria estar lá, mas era obrigado a estar. A diferença é que, quando o vento muda, esse mesmo mecanismo funciona ao contrário: fundos que abandonam um índice são forçados a vender, na marra, o que pode acelerar qualquer correção.
E há ainda outro fio que conecta a SpaceX ao restante do tabuleiro de Musk. Não é segredo que parte do mercado já trabalha com a hipótese de uma fusão futura entre SpaceX e Tesla — a tal “Elon Inc.”, que reuniria em uma única ação os robôs, os carros autônomos, a inteligência artificial e os data centers em órbita. Nada foi formalizado, mas investidores pressionaram por essa combinação já em janeiro, antes mesmo do acordo com a xAI se tornar público. Se isso acontecer, o que está sendo precificado hoje na estreia da SpaceX deixa de ser “apenas” uma empresa aeroespacial e passa a ser a base de avaliação de um conglomerado e tanto.
Tem também um detalhe curioso, quase anedótico, mas que diz muito sobre o momento: a SpaceX carrega cerca de 18.700 bitcoins no balanço, adquiridos por 661 milhões de dólares e hoje avaliados perto de 1,2 bilhão. Não é o centro do negócio, mas mostra como mesmo uma empresa “séria” como essa não resistiu a colocar um pé na especulação cripto — o mesmo terreno onde Saylor construiu, e agora vê ruir, seu império.
Existe ainda uma contradição que eu não consigo deixar passar batido. Para sustentar essa ambição espacial — lançamentos em escala industrial, centros de dados em órbita, a promessa de mineração futura de asteroides — a SpaceX vai precisar, no mundo real, de minerais críticos, polissilício solar, gálio. E quem domina boa parte dessa cadeia? A China. Ou seja: a empresa que promete livrar os Estados Unidos das amarras geopolíticas terrestres pode acabar dependendo justamente do rival geopolítico para construir essa independência.
Tem ainda a questão da governança, que pouca gente está discutindo no calor do momento. A estrutura da SpaceX dá a Musk controle quase total da empresa — mesmo como companhia aberta. Investidores estão, na prática, comprando uma fatia de uma visão de mundo, não apenas de um negócio. E a presidente da empresa, Gwynne Shotwell, já avisou: a SpaceX vai continuar pensando em horizontes de longo prazo, com pouca preocupação com resultados trimestrais. Para quem é acionista minoritário, isso é um aviso que vale a pena ler com atenção.
Por fim, o pano de fundo: essa não é só a estreia de uma empresa. É o termômetro de uma onda inteira. O desempenho da SpaceX hoje vai influenciar diretamente o apetite do mercado para os próximos IPOs gigantes que estão na fila — Anthropic e OpenAI, ambas com avaliações também na casa do trilhão. Se a SpaceX decolar e se sustentar, o mercado vai interpretar como sinal verde para financiar a próxima geração de “teracórnios” de inteligência artificial. Se vacilar, vira um alerta de que talvez o apetite por esse tipo de aposta esteja chegando ao limite.
E assim chegamos ao final da manhã com o pregão ainda nem aberto — a abertura das ações da SpaceX só deve ocorrer mais tarde, depois da tal “janela de cotação”, quando o livro de ofertas eletrônicas mostrar o ponto de equilíbrio entre quem quer comprar e quem quer vender. Ou seja: o verdadeiro show ainda está por vir.
Mas já dá pra adiantar o enredo. Se o mercado paralelo está certo e o “pop” inicial for de fato algo na casa dos 35%, o foguete do Elon vai literalmente puxar as ações para o espaço — e dessa vez não estou falando de Falcon, Starship ou qualquer coisa que precise de combustível. Genialidade, sorte, fé do mercado, fluxo passivo obrigatório dos índices — seja qual for a mistura exata, o resultado prático deve ser o mesmo: gráfico subindo quase na vertical, como se tivesse motor próprio.
Resta saber se, depois do lançamento, a SpaceX vai conseguir manter a órbita — ou se, como tantos foguetes da própria empresa em seus primeiros testes, vai dar uma bela explosão no caminho. A diferença é que, nesse caso, quem assiste ao replay não são só os fãs do Elon. São os acionistas.
Análise Técnica
No post “casuísmo” fiz os seguintes comentários sobre a Nasdaq 100:
“Tracei abaixo as duas hipóteses de correção que ainda prevalecem. O primeiro intervalo corresponde a uma correção menor e de pequena duração; o segundo intervalo, em verde, será mais extenso em preço e duração.”
“A Nvidia buscou uma recuperação durante a semana, porém voltou aos níveis da semana passada, o que mantém o quadro indefinido.”
Não faça isso não, pode dar muito errado. Essa observação é mais por conta da liderança que a Nvidia tem no setor de tecnologia, e ela andar junto com a Nasdaq 100 é razoável supor. Mas isso pode fazer sentido por um tempo e depois não fazer mais. Use apenas como uma indicação, sem nenhuma sugestão de trade como você imaginou.
Participei de um call propiciado pelo Goldman Sachs sobre “Update on US-China Relations”, que visava discutir a visita recente de Trump à China. Os convidados foram especialistas em segurança nacional e ex-chefes de estação da CIA para China e outros países. Durante o call, foi apresentada uma tabela com a perspectiva de crescimento para a China; vejam vocês mesmos os números.
Na conversa, Mark Pascale — ex-chefe de estação da CIA — disse que o desemprego entre os mais jovens atinge a marca de 40%. A entrevistadora ficou abismada e perguntou como ele tinha essa informação, se o número divulgado é da ordem de 25%. Sua resposta: “minhas fontes, ponto”. Se ele não fosse uma pessoa confiável e entendida, poderíamos ser levados à conclusão de que estava chutando, mas não é o caso. Esse número é bem preocupante, principalmente para Xi Jinping, que o que menos precisa nesse momento é de uma convulsão — e, se ainda a IA está tirando esses empregos, melhor ele ficar bem preocupado.
Fique ligado!
Que o Elon Musk é um empresário genial não tenho dúvidas, mas esse IPO foi desenhado para ser uma fraude completa.
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