Vale acordo de boca? #USDBRL



Depois da bateria de jogos deste final de semana, vai aqui o meu resumo, ainda preliminar: o Brasil dificilmente sairá campeão, os Estados Unidos mostraram uma seleção mais consistente do que se esperava e o Japão pode surpreender pela disciplina elevada na marcação. É cedo para qualquer conclusão definitiva, até porque várias seleções entrarão em campo pela primeira vez ainda esta semana.

Mas o que move os mercados nesta segunda-feira não é bola, é geopolítica. Pela enésima vez o presidente Trump anunciou em sua rede social que Estados Unidos e Irã chegaram a um acordo para cessar as hostilidades. A diferença, desta vez, é que o lado iraniano também se pronunciou no mesmo sentido. Como nenhum dos dois lados goza de grande credibilidade nesse tipo de anúncio, o mais sensato é esperar o papel assinado — e mesmo assim restarão dúvidas sobre a durabilidade do acordo. Outro ponto relevante é a reabertura do canal de Hormuz, onde as empresas de petróleo vinham alertando para um risco grave de desabastecimento. Vamos ver.

Os mercados, de qualquer forma, já reagiram positivamente à notícia. As bolsas devem abrir em alta nesta segunda — inclusive a SpaceX, que já havia subido 20% na sexta-feira —, e o movimento se completa com queda do dólar e alta do ouro. É o pacote inteiro do “risk on”: ações sobem, moeda americana cede, e o ouro reage na direção que normalmente se associa a um ativo de risco que volta a subir junto com o apetite do mercado.

E aqui chegamos ao ponto que mais me interessa hoje, que é uma pergunta que venho fazendo a mim mesmo há semanas: o dólar pode perder validade como moeda de reserva e ser efetivamente ameaçado pelo ouro? Essa é a tese do “debasement trade”, que dominou boa parte da conversa nos mercados em 2025 — a ideia de que a política fiscal fora de controle nos países do G10 acabaria empurrando os investidores para fora das moedas fiduciárias e para dentro de ativos reais como ouro, prata e, em menor medida, bitcoin.

Recebi nos últimos dias uma série de relatórios do analista americano Robin Brooks que tratam exatamente desse tema, e vale registrar que o que vem a seguir é a leitura dele, não necessariamente a minha — embora eu concorde com boa parte do raciocínio. Segundo Brooks, essa tese, pelo menos por ora, não está se confirmando como se pensava há poucos meses.



O argumento central de Brooks é simples e, ao mesmo tempo, contraintuitivo: na visão dele, não é o dólar que está perdendo o status de porto seguro, é o ouro. A participação do ouro nas reservas dos bancos centrais de mercados emergentes de fato subiu muito no último ano, e isso alimentou a narrativa de que os bancos centrais estariam migrando em massa para o metal. Ele mostra, porém, que essa alta na participação é, na quase totalidade, um efeito de valorização — o preço do ouro subiu tanto que o peso dele nas reservas aumentou mecanicamente, sem que houvesse uma onda de compras correspondente. Os dados do FMI sobre compras efetivas de ouro pelos bancos centrais mostram, segundo ele, um ritmo de aquisição inferior ao observado antes da pandemia. Frenesi nenhum.

O que de fato mudou — e ele considera este o ponto mais relevante — é o comportamento do ouro desde que a guerra com o Irã começou. Em vez de subir quando a aversão a risco aumenta, como seria de esperar de um ativo porto seguro, o ouro vinha caindo nesses momentos de tensão e subindo quando apareciam rumores de acordo de paz. Na leitura dele, isso significa que o ouro passou a se comportar como um ativo de risco, com beta alto, e não como proteção — enquanto o dólar vinha se saindo melhor nesse papel de porto seguro nos últimos meses.



A explicação dele para essa mudança de comportamento está na própria popularidade da operação. A disparada do ouro em 2025 atraiu, segundo ele, um contingente enorme de investidores de varejo, mais nervosos e mais propensos a vender no primeiro sinal de queda do que a base tradicional de compradores — bancos centrais, fundos soberanos, instituições. Esse novo perfil de comprador teria transformado o ouro num ativo mais cíclico, mais correlacionado com o humor geral do mercado de ações. E, na visão dele, pode não ser uma distorção passageira — pode ser o novo normal.

Vale lembrar de onde veio essa história toda. O “debasement trade” ganhou tração depois do discurso do então presidente do Federal Reserve em Jackson Hole, em agosto do ano passado, quando ele sinalizou o início de um ciclo de cortes de juros sob pressão da Casa Branca. Esse discurso foi lido pelo mercado como uma capitulação do Fed à política, e a partir daí ouro, prata e moedas de países com fiscal mais sólido — Suécia, Suíça, Noruega — começaram a subir de forma consistente.

Hoje, porém, o cenário é outro. O mercado passou a precificar não cortes, mas altas de juros pelo Fed, em parte por conta da guerra e da disparada do petróleo, em parte por uma leitura que Brooks considera equivocada da inflação americana, que continua bem comportada quando se filtra o ruído sazonal pós-pandemia. Enquanto essa precificação de juros mais altos persistir, o debasement trade fica em banho-maria — mas é justamente essa precificação que está prestes a ser testada.



E é aqui que entra o tal acordo de paz anunciado hoje. Se a guerra de fato terminar — e repito, ainda é “se” —, dois movimentos devem se acelerar, na leitura de Brooks. Primeiro, os fluxos de porto seguro que vinham sustentando o dólar tendem a se reverter, pressionando a moeda americana para baixo. Segundo, a queda do petróleo deve lembrar o mercado de que a inflação subjacente nos Estados Unidos está sob controle, abrindo espaço para o Fed voltar a falar em cortes em vez de altas. A combinação dessas duas forças é estimada por ele em algo como cinco pontos percentuais de queda para o dólar, numa base ampla.

Sobre o petróleo, especificamente, a visão dele é de que o Brent já caiu de forma expressiva desde as máximas de abril e maio, mas ainda mantém um prêmio de risco de cerca de 20% acima do nível de fevereiro, antes dos ataques ao Irã começarem. Comparando com o que aconteceu em 2022, após a invasão da Ucrânia pela Rússia — quando o petróleo russo, responsável por cerca de sete milhões de barris diários, ficou ameaçado —, a alta atual já recuou para um nível proporcionalmente menor do que aquele episódio, o que sugere, segundo ele, que o prêmio de risco está, se algo, no piso do que deveria ser. A faixa esperada para o Brent nas próximas semanas é algo entre 80 e 90 dólares, com risco residual de sabotagem por parte de facções mais radicais do lado iraniano — drones, ataques a petroleiros no Estreito de Hormuz — que podem impedir uma normalização completa.



Eu não me iludo com análises fundamentalistas — não que não tenham valor, mas porque, para funcionarem, é preciso que o mercado acredite nessas hipóteses, e o mercado nem sempre acredita no que deveria. Por isso, faço hoje uma observação de ordem técnica que considero relevante, embora ainda muito preliminar: numa janela de apenas duas horas pela manhã, consigo identificar cinco ondas completas no ouro e apenas duas no euro. O euro não representa integralmente a perspectiva para o dólar, mas pesa 57% no índice DXY, e essa contagem de cinco ondas no ouro pode ser um indício — ainda cedo para afirmar com confiança — de que o movimento de queda do metal já estaria perto de se esgotar.

E é justamente aqui que minha leitura técnica encontra o raciocínio fundamentalista de Brooks, ainda que por caminhos diferentes. Se ele está certo de que o ouro vinha caindo de forma exagerada por ter virado um ativo de alto beta nas mãos de um varejo nervoso, e se a contagem de cinco ondas que vejo hoje no metal estiver mesmo se completando, as duas pontas apontam para o mesmo desfecho prático: espaço para o ouro subir nos próximos dias. Resumindo: a notícia de hoje, se confirmada, é claramente positiva para ativos de risco e negativa para o dólar. E, enquanto o ouro continuar operando como o trade de alto beta que Brooks descreve, ele tende a se mover na mesma direção dos ativos de risco — ou seja, pode subir junto com as bolsas no mesmo movimento de alívio que está pressionando o dólar para baixo, e não por algum retorno repentino ao seu papel tradicional de porto seguro. Entre o anúncio em rede social e o acordo assinado existe sempre uma distância, e entre o ouro como reserva de valor e o ouro como ativo especulativo de alto beta essa distância também cresceu bastante nos últimos meses. Quem opera com o roteiro simplista de “fim do dólar, ouro só sobe” — ou seu espelho, “ouro caiu, dólar só sobe” — precisa, no mínimo, atualizá-lo.


Análise Técnica

Meus comentários no post "a-bolha-vai-ficar-sem-sabão sobre o dólar foram:

“Resolvi sugerir um trade de compra do dólar; os motivos foram expostos largamente aqui. É um trade arriscado até que se formem 5 ondas de alta; por enquanto, como destaco abaixo, estaríamos na onda III azul. Esse trade será gerido com rédea curta, pois não existe a segurança necessária.”



A onda II azul que estava esperando não aconteceu. Quando o dólar atingiu 100% entre a onda a e a onda (b) laranja, destacado no gráfico abaixo, comecei a ficar desconfiado da minha hipótese e resolvi liquidar a posição quando ela violou a onda a — tudo isso me indicou que era uma correção, e não um movimento direcional.

Posso abandonar a alta? Ainda não, pois, como enfatizo, essa onda 5 vermelha está na forma diagonal, um vai e vem. Somente abaixo de R$ 4,8844 teria que refazer a contagem.



— Hahaha... isso que dá apostar contra a tendência.

Você tem razão, como mencionei acima, era um trade arriscado. Mas não abra a champagne, pois o movimento de queda é bastante tortuoso e de difícil operacionalização. Nesse trade específico, achei que podia ser o momento, mas não foi — ou será de forma não direcional nesse trecho, onde não pretendo sugerir trades.

Para que o leitor possa visualizar o que estou relatando: na onda (v) azul abaixo, esse primeiro movimento corresponde à onda (a) vermelha. Observando o gráfico acima, a onda A azul teria terminado, e no momento estaria se formando a onda B azul — desde que não viole R$ 4,8844.



O S&P 500 fechou a 7.554, com alta de 1,66%; o USDBRL a R$ 5,0762, sem variação; o EURUSD a € 1,1587, com alta de 0,15%; e o ouro a U$ 4.307, com alta de 2,30%.

Fique ligado!

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