Não deixe ações para seus netos #OURO #GOLD #EURUSD



Meu ex-sócio Emir Capez costumava dizer, nos corredores da Linear, que a IBM era uma ação para comprar e deixar para os netos. Era outro tempo — um tempo em que ciclos de negócios duravam décadas e a obsolescência tecnológica era um risco remoto. Hoje, diante de tudo que se move no mercado de tecnologia, sou obrigado a revisar essa sabedoria: melhor deixar para os netos um ETF de ações que rebalanceia a carteira conforme a música muda.

Há pouco tempo introduzi o conceito que chamei de 'Carteirinha' — a ideia de que empresas precisam se preparar continuamente para enfrentar a concorrência da inteligência artificial, tanto de novas entrantes quanto de rivais dentro do próprio segmento. Citei a Nvidia como exemplo-mor: a mais bem posicionada no mercado de chips para IA, mas inevitavelmente sujeita a ver sua hegemonia contestada. E foi exatamente o que aconteceu: a performance das ações da Nvidia ficou aquém do esperado nos últimos meses — não que ela tenha sofrido algum grande baque, continua gerando lucros enormes, mas surgiram outras protagonistas. Dois nomes ganharam destaque no mercado de memória — componente que se tornou o novo gargalo da revolução da IA.

Esses dois nomes são Micron e SK Hynix.


Micron: o gigante americano que ninguém via

A Micron Technology é a maior fabricante americana de chips de memória — DRAM e NAND flash —, segmento que passou décadas operando na sombra dos processadores mais glamourosos. A empresa existe desde 1978 e, por muito tempo, foi tratada como commodity: margens comprimidas, ciclos brutais de preço, poucos holofotes.

A IA mudou tudo isso. O treinamento e a inferência de modelos de linguagem exigem um tipo específico de memória de altíssima largura de banda: o HBM (High Bandwidth Memory). A Micron é uma das poucas empresas no mundo capaz de fabricar esse componente em escala, e toda a sua capacidade de HBM para 2026 já estava vendida meses antes do início do ano.

Os resultados publicados ontem confirmaram o que o mercado suspeitava: a receita quadruplicou em relação ao mesmo período do ano anterior, superando amplamente as projeções de Wall Street — e a empresa projetou crescimento ainda maior para o próximo trimestre. O que mais impressiona, porém, não é só o crescimento: é a margem. Numa indústria que historicamente operava com margens de um dígito nos ciclos ruins, a Micron reportou margens brutas acima de 60%, quase o dobro do registrado há um ano. A escassez de HBM criou um poder de precificação que esse setor nunca havia experimentado.

As ações acumularam valorização superior a 1.800% nos doze meses anteriores ao resultado. A capitalização de mercado da Micron cruzou a marca de US$ 1 trilhão — tornando-se um teracórnio —, ao lado da rival sul-coreana SK Hynix, que atingiu o mesmo patamar na mesma semana.

E não é um otimismo passageiro: a Micron reportou contratos estratégicos com clientes com prazo médio de três anos, o que sinaliza que a empresa está ativamente tentando suavizar os ciclos históricos de boom e bust (ascensão e decadência) que sempre marcaram o setor de memória. O mercado reagiu com entusiasmo, e os futuros do Nasdaq subiram após o anúncio.



SK Hynix: a sul-coreana que quer jogar no mesmo campo

Do outro lado do Pacífico, a SK Hynix ocupa a posição de segunda maior fabricante de chips de memória do mundo — e líder absoluta no segmento de HBM, com aproximadamente 57% do mercado global desse componente. É a empresa que fornece a maior parte da memória que vai dentro dos aceleradores de IA da Nvidia. Apesar dessa posição estratégica privilegiada, a SK Hynix negociava com desconto estrutural em relação à Micron, em parte por operar apenas na Bolsa de Seul (KRX), fora do alcance natural dos grandes fundos globais.

Isso está prestes a mudar. Em 24 de junho de 2026, o Wall Street Journal noticiou que a SK Hynix planeja captar mais de US$ 29 bilhões através de um registro de oferta nos Estados Unidos, emitindo American Depositary Receipts (ADRs) no Nasdaq — o que representaria uma das maiores ofertas de ações da história. O objetivo é acessar uma oferta de capital que hoje permanece fechada para a empresa: os grandes investidores americanos e europeus que preferem operar em bolsas domésticas.

A tese é simples. Gestores e analistas apontam potencial de valorização de até 30% nas ações listadas em Seul no prazo de um ano, caso o múltiplo preço/lucro da SK Hynix se aproxime do praticado pela Micron. A empresa é uma beneficiária direta do boom de IA — sua capacidade inteira de HBM para 2026 já está vendida —, mas negocia com desconto estrutural por questões de acesso, não de fundamento. O registro americano removeria essa fricção: mesma empresa, mesma tecnologia, mesmo mercado-alvo — mas com acesso a um universo de investidores incomparavelmente maior.





As Magníficas Sete: a 'segunda primeira linha' chegou de foguete

Há doze meses, a Micron era uma posição de segunda linha no Nasdaq 100 — com participação abaixo de 2% no índice. Hoje, após uma valorização superior a 1.800%, ela figura entre as três maiores posições do QQQ, com peso próximo a 5%, ultrapassando gigantes como Amazon, AMD e Alphabet. Saiu da obscuridade para o topo do índice num intervalo em que a maioria dos investidores ainda estava discutindo se a Nvidia tinha espaço para subir mais. Isso é o que chamo de 'segunda primeira linha': empresas que passam com um foguete pelo pelotão das líderes tradicionais, sem aviso, sem transição gradual.

Enquanto isso, o grupo que por anos dominou a narrativa — as Magníficas Sete — vai perdendo coesão como bloco. Quase não se fala mais nelas como unidade. Algumas ainda estão no topo. Outras cederam espaço para os novos protagonistas da cadeia de IA. A dinâmica é a mesma de sempre: uma onda passa, e quem estava surfando bem demais não percebe que a próxima já se formou atrás.

Há uma lição estrutural aqui que vale repetir. O mercado de tecnologia pune o apego. IBM, Cisco, Intel: todas foram 'ações para os netos' em algum momento. Hoje são estudos de caso sobre como a liderança tecnológica é mais frágil do que parece. A velocidade com que o jogo muda não dá tempo para amor por ativos.

O que será a próxima 'segunda primeira linha' daqui a 12 ou 18 meses? Honestamente, não tenho a menor ideia — e desconfio de quem diz ter. O que posso dizer, com razoável convicção, é que essa empresa provavelmente estará amplamente envolvida com a inteligência artificial. Se será de semicondutores, infraestrutura de dados, energia, biologia computacional ou algo que ainda não tem nome no vocabulário corrente, isso está além da capacidade de previsão de qualquer analista honesto.

É exatamente por isso que o investidor pragmático não se apega. Compra bem hoje, vende quando o fundamento muda. E se quiser garantir exposição ao mercado de ações ao longo de gerações sem ter que monitorar cada ciclo tecnológico, a resposta não é escolher a empresa certa — é escolher um veículo que faça essa escolha por você: um ETF que rebalanceia automaticamente conforme a liderança se altera.

O Mosca não recomenda ações específicas. Mas recomenda, com convicção, essa mudança de mentalidade.


Análise Técnica

No post "Warsh tinha que achar alguma coisa" fiz os seguintes comentários sobre o ouro:

"no ouro deixa aberto diversas interpretações e requer que as projeções e níveis sejam levadas como tentativas sem muita convicção. Refiz o primeiro objetivo para essa queda para US$ 4.032 / US$ 3.943 — mesmo esse pode ser inferior, ou seja, não sou comprador se chegar aí"



O ouro atingiu a mínima de US$ 3.960, ficando dentro dos objetivos assinalados acima. Uma leve recuperação se iniciou hoje, mas nada que pudesse indicar uma reversão. Caso a queda continue, o próximo objetivo seria em US$ 3.637 / US$ 3.580 (↓ 10%).

Hoje vários noticiários (inclusive o Mosca) dão destaque à performance do dólar contra vários ativos, inclusive o ouro. A diferença é que nós nunca perdemos a confiança na moeda americana como reserva de valor — ao contrário da tese do debasement (rebaixamento). Para quem achava que o céu é o limite, talvez devesse se atentar às ações de tecnologia!



Em relação ao euro, comentei:

"o mercado interpretou que o novo presidente do Fed não vai baixar os juros e, através do comentário do comitê, pode até aumentá-los, levando a moeda única próximo ao nível de € 1,14... O mercado ainda está posicionado vislumbrando uma queda do dólar, como mencionado no texto pela opinião do 'carequinha' Robin Brooks, que é um dólar 'bearish' total"



Depois de ter tentado subir de todas as formas, a moeda única rompeu o nível de € 1,14, o que me levou a analisar o euro numa janela mais longa. É um gráfico bem confuso, com inúmeras correções se sucedendo, o que me leva sempre a buscar alternativas oportunistas de curto prazo quando aparecem.

Os leitores assíduos sabem que eu trabalho com queda para o euro abaixo da paridade. No curto prazo esperava ainda uma altinha, mas pode ser que essa oportunidade se foi ao atingir € 1,2080 — indiquei com o "Bye Bye". Ainda não podemos dar um call de venda: existe a possibilidade de mais uma alta, mas estamos de prontidão.

Notem que o gráfico a seguir é em escala mensal — só serve para ver o "Big Picture". A linha de tempo destacada com o símbolo verde indica 2031!



O S&P 500 fechou a 7.358, sem variação; o USDBRL a R$ 5,1960, com queda de 0,31%; o EURUSD a € 1,1373, com alta de 0,14%; e o ouro a U$ 4.028, com alta de 0,75%.

Fique ligado! 

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