EUA: um país que funciona #Nasdaq100 #NVDA


Hoje os mercados ficam fechados nos Estados Unidos pela comemoração dos 250 anos da República americana, e eu aproveito a data para escrever sobre algo que me fascina há décadas: como aquele país se tornou a principal potência do mundo. Não concordo com tudo que acontece por lá, longe disso, mas sou fã confesso da engrenagem que produziu esse resultado. E garanto a vocês que não foi de graça, como se diz na gíria.

O Deutsche Bank publicou um estudo extenso sobre o assunto, chamado "US at 250", e ali estão números que valem mais que qualquer opinião. Desde a fundação do país, a população americana ultrapassou Alemanha, Reino Unido e França ainda no século 19, e o PIB seguiu na mesma toada. Mas o que mais me chama atenção não é o tamanho, é a consistência: os Estados Unidos nunca passaram por um episódio de hiperinflação em toda a sua história, o que não se pode dizer da Alemanha de Weimar nem da França de outras épocas. Moeda que mantém valor ao longo de séculos é sinal de instituição que funciona.



Se me pedissem para eleger uma única razão para esse sucesso, eu colocaria em primeiro lugar o incentivo ao empreendedorismo dentro de um sistema meritocrático: quem é melhor tem mais chance. Isso não é discurso, é arquitetura institucional. O capítulo 11 da lei de falências americana foi desenhado para preservar e reestruturar empresas viáveis, não para liquidá-las a qualquer custo — uma tolerância cultural ao fracasso que é rara e que se conecta a mercados de capitais mais profundos: entre 2013 e 2023, o financiamento via venture capital nos Estados Unidos representou 0,7% do PIB, contra apenas 0,2% na União Europeia. O resultado aparece na prática: um relatório da casa de Ed Yardeni mostra que o número de empresas individuais bateu recorde em 2023, com 31,1 milhões de registros, e que a abertura de novos negócios chegou a 6,0 milhões nos doze meses até maio, também recorde.

Outra característica que admiro, mesmo sem concordar plenamente com ela, é a existência de apenas dois partidos políticos relevantes. E aqui confesso que sou menos entusiasta do sistema de votação por Colégio Eleitoral, que pode eleger um presidente sem que ele tenha vencido o voto popular nacional — já aconteceu, mais de uma vez. Mas é assim, está nas regras do jogo desde a fundação do país, e ninguém fica choramingando pelo resultado depois que a apuração termina. Os americanos tratam a corrupção como algo inaceitável: se alguém é condenado por isso, vai para a cadeia, seja quem for. Regra clara, aplicada sem contemplação, é ativo raro em qualquer lugar do mundo, inclusive por aqui.

O estudo do Deutsche Bank também é honesto sobre os riscos que rondam essa hegemonia. A dívida pública americana está prestes a ultrapassar 100% do PIB, os déficits fiscais rodam entre 5% e 6% do PIB há quatro anos consecutivos — os maiores da história do país fora de recessão ou guerra — e os pagamentos de juros da dívida federal já superam os gastos com defesa, sendo hoje o item que mais cresce no orçamento americano. O fundo do Social Security, o sistema previdenciário público, deve se esgotar já em 2032, segundo as projeções mais recentes, o que forçaria corte automático de benefícios se o Congresso não agir antes.



Some a isso a ascensão chinesa: a China já superou os Estados Unidos em produção manufatureira, comércio e PIB medido em paridade de poder de compra, e vem estreitando a distância em tecnologia de ponta e semicondutores. A participação do dólar nas reservas globais caiu de 72% para 58% em poucas décadas, recuo gradual, mas persistente, agravado pelo congelamento das reservas russas em 2022, que deu a países não alinhados ao Ocidente um incentivo estratégico para buscar alternativas. Ainda assim, é bom pôr essa história em perspectiva: o investidor estrangeiro continua comprando ativos americanos como nunca. Nos doze meses até abril, comprou um recorde de US$ 763 bilhões em ações dos Estados Unidos e hoje detém US$ 9,4 trilhões em títulos do Tesouro americano, também recorde. Quando o dinheiro vota com os pés, ele ainda vota nos Estados Unidos.



De todo modo, e é aqui que os dois estudos me convenceram, tanto o Deutsche Bank quanto o Yardeni apostam que os Estados Unidos devem seguir na liderança por muito tempo, porque as vantagens americanas se reforçam mutuamente. O país concentra hoje quase metade da capitalização de mercado acionário do mundo, com o valor total das ações somando US$ 106,9 trilhões, e o patrimônio das famílias bateu recorde de US$ 174,0 trilhões no primeiro trimestre. O investimento privado em inteligência artificial chegou a US$ 285 bilhões em 2025, mais de vinte vezes o valor investido na China, e a renda per capita americana já é a maior entre os países do G7. Ao contrário da China e da Europa, que enfrentam contração da população em idade ativa nas próximas décadas, os Estados Unidos devem manter crescimento demográfico moderado graças à capacidade histórica de absorver imigração.



Eu resolvi publicar o post de hoje sobre esse assunto porque ele carrega uma lição que vale para qualquer nação, inclusive a nossa: não se governa um país sem regras claras e visão de longo prazo. Nunca vou esquecer as palavras do presidente Kennedy em seu discurso de posse, em 1961: "Não perguntem o que o seu país pode fazer por vocês — perguntem o que vocês podem fazer pelo seu país." Uma frase de 65 anos, dita por um presidente que morreria assassinado menos de três anos depois, e que ainda hoje resume o contrato social que sustenta a maior economia do planeta.

Isso me leva a uma reflexão que carrego há algum tempo. O conceito de cidadania é fundamental, existe algo insubstituível em sentir orgulho do próprio país. Quando eu era criança, e depois já adulto, esse sentimento estava enraizado em mim. Confesso que hoje ele esmoreceu — até no futebol perdemos o protagonismo. Acredito que décadas de crescimento mínimo de um país emergente como o nosso acabaram criando um sistema de vantagens para quem manda no Legislativo e no Judiciário. Seria necessário um presidente disposto a enfrentar essa situação de frente, mas não vejo isso acontecer no curto nem no médio prazo. E é verdade que a maior parte da população não está interessada nesse debate: se contenta e aceita a situação, desde que tenha condições mínimas de sobrevivência. Assim, o país vai caminhando devagar rumo ao sul. Existem espasmos de otimismo aqui e ali, mas é só isso, espasmos.

Lá nos Estados Unidos, aliás, ninguém precisa fingir orgulho: ele está na dívida pública sim, mas também está nos 250 anos de instituições que resistiram à Guerra Civil, à Grande Depressão e a duas crises do dólar sem deixar de funcionar. Aqui no Brasil, alguém pensa assim?


Análise Técnica

No post "o-perigo-de-morrer-na-praia" fiz os seguintes comentários sobre a Nasdaq100:

"Por enquanto vou seguir com a ideia em andamento, cuja probabilidade é de 2/3. Sendo assim, o objetivo da queda é entre 28.037/27.287."



Como comentei, minha análise se refere ao fechamento de ontem. Durante a semana, a bolsa tentou mais uma vez subir, ficando mais ou menos no mesmo nível da semana passada. Fiz um ajuste no gráfico em relação ao anterior e o objetivo passa a 27.800/27.287.



Em relação à Nvidia, comentei:

"A correção deveria reverter entre US$ 189 / US$ 177, sendo esse último nível razoavelmente crítico, e como cito no gráfico abaixo, se ultrapassar é porque 'todos os gatos estão no telhado'."



Com a mínima atingida de US$ 189,90 durante a semana, poderíamos assumir que a correção terminou, mas, observando o gráfico posterior numa janela menor, não vejo a formação de 5 ondas, o que me leva a supor que a correção ainda não terminou. Não posso sugerir nada por enquanto.



Eu coloquei em dúvida se deveria substituir a Nvidia pela Micron nas minhas análises, mas decidi, por enquanto, ficar como está.



Que tal o gráfico acima? Existe razão para que as ações de semicondutores estejam nas nuvens? O que mais impressiona é que a ficha para o mercado caiu recentemente, mesmo a IA estando em seu terceiro ano — sem dúvida ela bagunçou o coreto no quesito preços de chips. Será que a energia não vai passar por algo semelhante?



O USDBRL fechou a R$ 5,1865, com queda de 0,69%; o EURUSD a € 1,1435, sem variação; e o ouro a U$ 4.175, com alta de 1,24%.

Fique ligado!

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