Navegando em novos mares #IBOVESPA



Tenho notado que cada vez mais os brasileiros estão buscando alternativas no exterior. Esse movimento é muito saudável, pois já diz que não se deve colocar todos os ovos na mesma cesta — se bem que ultimamente a diversificação tem sido desafiadora. O histórico dos investimentos na bolsa brasileira tem sido frustrante, com retornos erráticos nas últimas décadas, e considerando que o objetivo não é entrar e sair com rapidez, é natural que esses investidores se sintam receosos na investida internacional.

Se o leitor, depois de me seguir por mais de 15 anos, tiver adquirido alguma confiança na análise técnica, basta olhar o gráfico da bolsa americana e da brasileira para perceber que a primeira tem tendência de alta enquanto a última é cíclica.

Lembro que tomei essa decisão em 1999, quando no Deutsche Bank me deparei com a concentração da bolsa brasileira em poucas ações e refleti: por que eu deveria me limitar, se no exterior existem milhares de opções? Iniciei o processo de conhecimento a partir daí, e passados 25 anos, mantenho a convicção de que a diversificação internacional é parte essencial de qualquer patrimônio bem construído.

Mas como fazer esse processo? Observando e analisando o passado — além de ler o Mosca, é claro. Hoje trago um estudo de longo prazo elaborado por gestores da Tamarisk Capital Management e da Quoin Capital Analytics, que joga uma luz importante sobre um risco que a maioria dos que migram para o exterior prefere não olhar de frente.

O estudo usa 155 anos de dados de Robert Shiller, o economista de Yale que ganhou o Nobel justamente por essa base. E a conclusão é desconfortável: desde 1871, cerca de 35% da história da bolsa americana foi consumida por “décadas perdidas” — períodos de 13 a 25 anos em que o investidor que comprou e ficou parado não obteve retorno real nenhum. Foram três: 1929 a 1954 (25 anos, com queda máxima de 77% em termos reais), 1966 a 1982 (16 anos, com o choque inflacionário da época) e 2000 a 2013 (13 anos, atravessando a bolha da internet e a crise de 2008).



Isso desafia a máxima “no longo prazo a bolsa sempre paga” — que é a base de todo o discurso “stocks for the long run” ensinado nos livros de finanças pessoais. A média histórica de 7,1% ao ano em termos reais é real, mas ela esconde um detalhe crucial: 16% dos períodos de 20 anos, olhando para toda a série histórica, entregaram menos de 3% ao ano. Uma chance de um em seis de que duas décadas inteiras da fase de acumulação de um investidor rendam essencialmente nada.

E o motivo pelo qual trago isso agora, junto com o convite à diversificação internacional, é o indicador que o estudo usa para contextualizar o risco atual: o CAPE, o índice preço-lucro ajustado ciclicamente que Shiller desenvolveu. A média histórica desde 1881 é de 17,7. Hoje, o CAPE americano está em 39,9 — no percentil 99 de toda a série, superado apenas pelo pico de março de 2000, que antecedeu justamente a última década perdida. Não estou dizendo que a bolsa americana vai repetir 2000. Mas o estudo é claro: valuation não serve para prever o timing da queda, serve para dizer o quanto o terreno está fértil para ela, se e quando vier.



O paralelo internacional reforça o ponto. O Nikkei japonês bateu seu pico em dezembro de 1989, perto de 39 mil pontos, e só voltou a esse nível — de forma sustentável — em 2024. Trinta e cinco anos. O Euro Stoxx 50 fez topo em março de 2000 e só recuperou aquele nível no final de 2025: 25 anos de estagnação nominal para quem comprou e ficou. Dos quatro grandes blocos de mercado desenvolvido, três passaram por décadas perdidas geracionais a partir do mesmo ponto de partida no final dos anos 1990. Só os Estados Unidos escaparam dessa sorte — até agora.

Há ainda um argumento técnico do estudo que vale registrar, porque desmonta um mito recorrente entre os defensores do “fique sempre investido, custe o que custar”: a história dos “melhores dias”. A lógica de mercado diz que perder os dez melhores dias da bolsa em décadas reduziria os retornos totais à metade — e por isso ninguém deveria nunca reduzir exposição. Mas os dados mostram outra coisa: 90% dos vinte melhores dias do S&P 500 desde 1988 aconteceram com o índice abaixo da média móvel de 200 dias — ou seja, dentro de mercados em queda, não em euforia. Os melhores e os piores dias nascem juntos, na mesma janela de estresse. Você não separa um do outro. Uma estratégia defensiva que evita os piores dias também evita, por definição, os melhores — e a matemática mostra que essa troca, ao longo de ciclos completos, tende a favorecer quem administra risco de forma disciplinada.



Isso me leva à pergunta que fica no ar depois de todo esse levantamento: como ficar no longo prazo sem cair na armadilha de décadas inteiras sem retorno? É exatamente aí que entra a análise técnica — não como bola de cristal, mas como disciplina de leitura de risco.

Quem me acompanha há mais tempo já deve ter notado que existem momentos em que fico mais “relaxado”, mantendo posições com stops mais largos, e outros em que trabalho com stops mais curtos. A razão está na onda de Elliott em curso: ondas 3, as mais potentes e extensas de um movimento, permitem folga maior porque a tendência tende a se impor com força; já ondas 5, que são terminais por natureza, exigem cautela redobrada, porque o movimento perde fôlego e a reversão pode vir rápido. Em correções, então, sou ainda mais conservador — raramente sugiro operações, porque é justamente nesses trechos que o mercado mais engana.

Mas para gestão de carteira de longo prazo, o que importa não é o timing de cada onda, e sim o movimento estrutural: quando há uma mudança real de direção, é hora de reduzir exposição. Combino análise técnica com os fundamentos — nessa ordem, e não o contrário —, o que me permite ajustar o portfólio de ações dentro de um intervalo de risco definido. Sei que isso soa teórico dito assim; só a vivência e a disciplina constroem, na prática, um portfólio equilibrado dentro do seu próprio perfil de risco.

Para quem não se identifica com esse tipo de abordagem, deixo uma regra simples: defina um nível de stop loss, algo entre 10% e 20% de queda da carteira. Se for atingido, liquide entre 25% e 75% da posição — nunca zere completamente. Adianto que a parte difícil não é sair: é saber quando voltar a entrar. E é exatamente aí que a análise técnica cumpre seu papel.

Nada disso é motivo para recuar da internacionalização — pelo contrário, sigo defendendo essa rota há 25 anos e continuo defendendo. Mas diversificar para fora não significa comprar índice e esquecer. Significa entender que mesmo a tendência de alta mais consistente da história financeira tem, embutida nela, o risco estrutural de longos períodos de estagnação — e que reconhecer isso a tempo é o que separa quem preserva capital de quem apenas acumula sorte.

Ao leitor que está começando esse processo agora: o estudo tem linguagem técnica em alguns trechos. Não hesite em usar seu aplicativo de inteligência artificial para traduzir os conceitos — CAPE, drawdown, breadth — para o português simples. Faz parte do aprendizado dessa nova empreitada.


Análise Técnica

No post “prova-dos-dezoito” fiz os seguintes comentários sobre o IBOVESPA:

“Parece que está se formando um triângulo, conforme destaquei com a parábola vermelha abaixo. Se for isso, novas baixas devem ocorrer antes de uma eventual correção. Somente acima de 175 mil essa opção fica descartada, e uma onda B vermelha pode estar em curso.”



Não consigo ter uma posição mais definitiva. O que posso dizer é que a bolsa está numa correção, contida dentro da elipse vermelha. Em situações como essa, procuro mais pistas olhando gráficos em janelas menores, que é o caso abaixo. Quais são as possibilidades:

1) A onda B vermelha está em curso e levaria a bolsa ao patamar de 187,5 mil (↑ 10%) ou 192,9 mil (↑ 12%); ou

2) A onda A vermelha ainda não terminou, e novas quedas podem ocorrer abaixo de 168 mil.



Considero a opção 1 mais provável pelas seguintes razões: pode-se notar claramente cinco ondas de queda que se iniciaram a partir de abril, com magnitude de 20%. Por esse motivo, vou aguardar o rompimento do nível apontado com o símbolo vermelho, em 174,2 mil. Fiquem atentos.

O S&P 500 fechou a 7.483, com queda de 0,22%; o USDBRL a R$ 5,2241, com alta de 0,90%; o EURUSD a € 1,1378, com queda de 0,38%; e o ouro a U$ 4.035, com alta de 0,70%.

Fique ligado!

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