O mercado de bonds ainda não está "gordo" #OURO # GOLD #EURUSD

 


O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, parece ter sido mordido pelo veneno do poder — veneno porque, na grande maioria das vezes, leva a reações emocionais. Embora tenha vivido a experiência mais sofisticada do mercado, a dos hedge funds, não parece estar aplicando o que aprendeu lá: quando uma autoridade não consegue seu objetivo por meio de ações, tenta por meio de ameaças.

Todo mundo já sabe que o Tesouro vai comprar papéis do governo para tentar acalmar os "bond vigilantes", nome dado aos traders de renda fixa que atuam no mercado de juros toda vez que acreditam que o governo não está indo pelo caminho certo. E ele não vem convencendo: os juros longos americanos sobem quase diariamente, com o 10 anos batendo 4,85% nesta semana, a maior marca desde novembro de 2023, e o 30 anos rondando 5,3%, o nível mais alto desde a crise financeira global.


"10-YEAR US TREASURY BOND YIELD & THE OLD NORMAL RANGE", do artigo "Bessent Tells Bond Vigilantes: 'I Am The House'" (Yardeni QuickTakes)]


Mas será que os vigilantes estão agindo assim por emoção? Não. Existem três motivos básicos: a economia está aquecida — o mais recente número do GDPNow, publicado pelo Fed de Atlanta, aponta para 4,4%; a inflação não está dentro do objetivo do Fed, de 2%, já faz bastante tempo; e a captação de recursos ganhou um competidor de peso, a IA, que está demandando capital quase na mesma proporção que o próprio governo. Como venho repetindo incansavelmente, o mundo de hoje é de juros maiores, não menores; sem ainda esquecer a pressão do preço do petróleo e seus derivados que guarda relação próxima com a inflação.


"Price at the Pump" do artigo "Bessent dares bond traders to burn down the house (Bloomberg: John Authers)


O mercado de trabalho ajuda a sustentar essa leitura. Os dados mais recentes de folha de pagamento privada seguem mostrando uma economia perto do pleno emprego, e as pesquisas com pequenas empresas apontam intenção de contratação acima da média histórica, com dificuldade real de achar mão de obra qualificada. Não é o quadro de uma economia que precise de juro baixo com urgência — é o quadro de uma economia que segue consumindo e contratando mesmo com energia mais cara.

Em que nível o 10 anos vai se estabilizar, não sabemos. Já está perto dos 5% ao ano, um patamar psicológico, e pode subir mais — com essa pressão toda, é bem possível. Há quem discorde de mim: existe leitura no mercado de que o 10 anos deve permanecer dentro da faixa "normal" de 4% a 5%, e de que Bessent estaria reagindo mais do que a situação exige, na expectativa de que sua "put" implícita reduza as chances de o piso dos 5% ser rompido. Pode ser. Mas mesmo que a inflação se acalme, ou que a própria IA acabe se revelando deflacionária lá na frente, por enquanto quem manda é o juro real.

Para piorar a vida de Bessent, o governo americano não tem nenhuma dó de gastar, e o faz sem se preocupar com o déficit que gera — a dívida pública total já ultrapassou os 40 trilhões de dólares pela primeira vez na história. Tanto é verdade que o presidente Trump, percebendo que provavelmente vai perder apoio no Congresso nas eleições de meio de mandato de novembro — o que limitaria suas ações —, resolveu prometer 5 mil dólares a cada cidadão adulto se os republicanos vencerem essas eleições. Uma proposta sem detalhes, com custo bem acima de 1 trilhão de dólares e chance praticamente nula de virar lei, mas que nós aqui do mercado poderíamos batizar de "performance fee". A promessa chegou horas antes de um leilão de 22 bilhões de dólares em papéis de 30 anos, e o mercado reagiu do jeito que costuma reagir a esse tipo de teatro: com ceticismo, mas sem convicção de que vá mesmo acontecer.

Bessent, por sua vez, resolveu partir para a intimidação verbal. Disse publicamente, pelo menos quatro vezes nas últimas semanas, que possui "informação assimétrica" — ou seja, que sabe algo sobre os planos do governo que o mercado não sabe. Na terça-feira, foi além: desafiou os traders a apostarem contra ele, afirmando "eu sou a casa agora". A frase valeu tanto para o iene, que ele ajudou a sustentar junto com o Japão, quanto para os bonds, cuja "febre" prometeu tratar com recompras maiores.


"JAPAN: YEN/US$", do artigo "Bessent Tells Bond Vigilantes: 'I Am The House'" (Yardeni QuickTakes)]


No caso do iene, a intimidação funcionou: a moeda japonesa já subiu mais de 6% desde a mínima de 40 anos registrada no fim de julho, depois de o Japão gastar um recorde de 98,6 bilhões de dólares para defendê-la. Mas, no mercado de bonds, a mesma receita não colou. Na quarta-feira, o Tesouro anunciou uma recompra de 6 bilhões de dólares em papéis de prazo mais longo — decepcionando quem esperava um número maior — e o 10 anos, em vez de recuar, subiu ainda mais. Analistas ouvidos pela imprensa americana já contam três tentativas de Bessent de empurrar a ponta longa da curva para onde ele quer, e três fracassos.

Me arrisco a dar um palpite a Bessent: não adianta querer "operar" o mercado só com palavras, só ações dão efeito — e não dá para dizer que ele não tem bala, tem, e muita. Ele pode aumentar ainda mais as recompras, pode reduzir a emissão de dívida longa. Mas essa munição só tem eficácia quando as posições contrárias estiverem "gordas" — o que na gíria de mercado significa posições extremadas, nas quais praticamente ninguém mais sobrou para apostar do outro lado. Foi o que comentei ontem sobre o caso do iene. E, no mercado de bonds, não me parece que esse momento tenha chegado.

Como se já não bastasse a pressão fiscal, o petróleo voltou a superar os 100 dólares o barril pela primeira vez desde julho, com a reescalada do conflito no Irã, e o diesel bateu recorde histórico nos Estados Unidos. É combustível a mais para a tese dos vigilantes: enquanto o déficit segue engordando e a guerra segue sem previsão de fim, a "casa" de Bessent ainda não provou, na prática, que tem a carta mais forte na manga.


Análise Técnica

No post "Xi Jinping tem um plano B" fiz os seguintes comentários sobre o ouro:

"— Existem claramente 5 ondas de alta, o que nos permite dizer que, depois de uma correção, o movimento de alta ganha tração, sem, contudo, garantir que a máxima histórica será ultrapassada — mas vai subir.

— Na área destacada em rosa, a queda até US$ 4.283 também permite notar 5 ondas; assim, no curto prazo, depois de uma correção entre os extremos, uma nova onda de queda deve acontecer — destacada no gráfico como A – B – C em vermelho.

— Só depois de concluído o exposto no primeiro item, ocorre o segundo."



Ao ler o post acima, percebi que fui muito professoral e pouco pragmático — até merecia uma cobrança do meu amigo: "é para comprar ou para vender?". Vou buscar ser mais efetivo hoje.

Não vejo, no curto prazo, nenhuma ação a ser tomada. A onda B vermelha ainda não parece completa, e tentar ganhar um troco comprando para vender entre US$ 4.550 (+4,5%) e US$ 4.600 (+5,5%) não me parece atrativo — mas para quem quiser se aventurar vale uma aposta com stop loss em US$ 4.283 (-2%). Não vou fazer! Além do mais, apostar em onda B não faz bem para o coração. Hahaha.

Vou esperar pacientemente a correção inteira do A – B – C vermelho.



Em relação ao euro, comentei:

"O movimento do euro está muito semelhante ao do ouro, que acabou não atingindo o nível calculado como mais provável, de € 1,1744. Aqui também espero uma correção, de acordo com o exposto, com A – B – C laranja, para depois o movimento de alta ganhar tração. Estamos de olho aqui também."



Eu tinha publicado, por engano, o gráfico do ouro no lugar do euro — já corrigi. A reação do euro está sendo bem mais modesta que a do ouro, o que até se compreende, pois, no argumento do "debasement trade", a moeda única não parece ser uma boa candidata para substituir o dólar. Vale a mesma observação feita para o ouro: só depois de completada a correção A – B – C em laranja poderei sugerir um trade de compra.




O S&P 500 fechou a 7.591 com queda de 0,59%; o USDBRL a R$ 5,0996, com queda de 0,16%; o EURUSD a € 1,1609, com queda de 0,20%; e o ouro a U$ 4.322, com queda de 1,79%.

Fique ligado!


Comentários

Postar um comentário