A regressão que não fecha #SP500

 


Toda nova tecnologia altera o comportamento dos ativos. O que funcionou por décadas pode simplesmente deixar de funcionar, e, quando a mudança é tão abrangente que atravessa a economia inteira, o mundo fica bem mais difícil de ler.

Noto a perplexidade de analistas acostumados a rodar uma regressão ou uma análise de correlação e que agora se deparam com distorções sem explicação aparente. Cito a que estamos vivendo: como pode a taxa de juros subir quase diariamente e a bolsa rondar as máximas? O rendimento do título de 10 anos do Tesouro americano rompeu a máxima de 2007, ano em que uma liquidação de títulos ajudou a detonar a crise financeira global, e está no nível mais alto desde 2002. No mesmo dia, o Nasdaq-100 superou os 31.000 pontos pela primeira vez.


["Another Landmark", do artigo "A top-heavy stocks rally is daring bond yields to break it" (John Authers, Bloomberg)]


O empurrão mais recente veio do índice ISM de serviços: a parcela de gerentes de compras reclamando de preços em alta é a maior desde o surto pós-pandemia. Pelos manuais, juro subindo dessa forma deveria derrubar as ações. Os modelos de avaliação apontam preços mais baixos, e não é por acaso que temos observado os P/L projetados em queda — os lucros esperados sobem mais rápido que as cotações.

Com a inteligência artificial se espalhando pela economia como um vírus — e todos sabemos bem o que isso significa pelo lado ruim —, é possível esperar mudanças impensáveis pouco tempo atrás. O artigo de John Authers na Bloomberg não usa essas palavras, mas nas entrelinhas se percebe a perplexidade. Desde a mínima do ano, em 30 de março, quando se temia que a guerra com o Irã saísse do controle, o S&P 500 subiu 22,7%. Ainda assim, 199 ações, quase 40% do índice, caíram no período.

Como isso é possível com a bolsa nas máximas? Porque poucos gigantes puxam tudo. Desde aquela mínima, a Nvidia contribuiu com 189 pontos para o índice, a Apple com 146 e a Microsoft com 140. Do outro lado, Netflix, Walmart, McDonald's e Intuit tiraram pontos. Desde o lançamento do ChatGPT, em novembro de 2022, o Nasdaq-100 entregou o dobro do retorno de sua versão com pesos iguais, que por sua vez dobrou o do S&P 500 com pesos iguais.


[I "An Unbalanced Rally", do artigo "A top-heavy stocks rally is daring bond yields to break it" (John Authers, Bloomberg)]


Authers encontra lógica na aparente loucura: receitas e lucros desses colossos dispararam no último ano e as projeções subiram ainda mais. O risco que ele aponta é de distribuição — a regulação branda permite que as maiores empresas de IA aspirem lucros dos outros, e as pesquisas antes das eleições de meio de mandato mostram eleitores irritados com isso. Para ele, a maior ameaça à alta simultânea das ações de tecnologia e dos juros longos pode ser política.

Em maio de 2024, há mais de dois anos, criei o conceito da Carteirinha no post só-entra-com-carteirinha. Naquele momento parecia uma ideia maluca e de pouca credibilidade. Quem diria que a IA poderia ameaçar empresas como a Microsoft, que é do próprio ramo, ou a Salesforce? Eu não tinha como enumerar quem se sairia bem e quem se sairia mal, até porque dependia da reação de cada empresa. Passado esse prazo, a ideia está em curso, e veremos mais casos pela frente.

O acompanhamento que a Goldman Sachs atualiza periodicamente mostra que a adoção é lenta, passo a passo, conforme o setor. Em setembro, 23,8% dos estabelecimentos americanos usavam IA, alta de 1,4 ponto percentual, com expectativa de 27,6% em seis meses. Nos setores de informação, serviços profissionais e finanças, a adoção se aproxima de 50%; em hospedagem e alimentação, mal passa de 10%. Entre empresas com mais de 250 funcionários, chega a 44%.



"Exhibit 9: Adoption Approaching 50% in the Information, Professional, and Finance Sectors", do artigo "AI Adoption Tracker – September 2026: Adoption Rises to 23.8%" (Goldman Sachs)]


O investimento, esse sim, corre a galope: o gasto com equipamentos ligados à IA nas contas nacionais americanas está US$ 555 bilhões acima do nível de 2022, o equivalente a 1,7% do PIB. Estudos acadêmicos indicam ganho médio de produtividade de 23% onde a tecnologia é aplicada, e relatos de empresas falam em 32%. Mas os efeitos sobre a economia como um todo ainda são modestos, e o próprio banco não encontra relação entre a exposição de uma empresa à IA e a expansão de suas margens.

Torsten Slok, economista-chefe da Apollo, vai ao ponto que mais me interessa. Ele recorre à produtividade total dos fatores, que mede quanto a economia produz com uma dada quantidade de trabalho e capital — é o que sobra do crescimento depois de descontadas as horas trabalhadas e as máquinas instaladas. Já a produção por hora pode subir simplesmente porque cada funcionário ganhou mais equipamento. Dar um segundo monitor a todos aumenta a produção por hora sem tornar a empresa mais inteligente.

A série do Fed de São Francisco, ajustada pela utilização, está ligeiramente abaixo de zero, sem qualquer sinal de aceleração desde o início do ciclo de investimentos em IA. A produção por hora, perto de 2,5%, é justamente o número citado como prova de que a IA já funciona. Para Slok, produção por hora forte com produtividade total parada é a assinatura do aprofundamento de capital, não de um choque tecnológico. Em favor da paciência, ele lembra que a eletricidade e a informática levaram uma década ou mais para aparecer nos números agregados.


[: "No AI productivity boost in the data yet", do artigo "No Signs of AI in the Productivity Data" (Torsten Slok, Apollo)]


Aí mora a preocupação que escolhi como tema para 2026 e que levei à apresentação na FEA: a IA vai se pagar? Ninguém tem a resposta. As hypersclaers estão convencidas que sim, do contrário não fariam investimentos dessa magnitude. Meu companheiro Alberto Dwek acha que não, e esse passou a ser o nosso embate frequente.

Por ora, o investimento aparece nos dados e no preço das ações, mas o retorno continua sendo uma previsão, não uma constatação. Enquanto isso não se resolver, as velhas regressões seguirão produzindo respostas sem sentido — e o mercado seguirá pagando caro por uma promessa.


Análise Técnica

No post "o-assunto-de-hoje-sao-os-titulos-", fiz os seguintes comentários sobre o S&P 500:

"…eu tinha algumas evidências que sugeriam o início de uma onda 3, da qual ninguém quer ficar de fora. Mas o desenrolar da semana sugeriu uma hipótese diferente: a de que a onda 2 azul pode não ter terminado, somada aos argumentos da última sexta-feira citados acima. Fiquei na dúvida, e na dúvida não fico com posição. Resumindo: quis me antecipar, em vez de esperar o rompimento do nível de 7.816."



O leitor pode notar que estou receoso — não sou eu, são as cotações que oscilam de forma errática, mas limitada. Fico influenciado pelos motivos expostos no post de hoje? Bem possível; afinal, o processamento das informações feito pelo nosso cérebro não é booleano, além de não ser segregado das emoções. Podemos estar no ponto de suplantar a máxima? Sim. E de uma nova pernada de correção? Também.

Se eu fosse tirar férias por dois anos — sem monitor, é claro —, compraria a bolsa; mas esse não é o nosso caso, pois estamos no campo de batalha. Vamos esperar a ultrapassagem dos 7.816 ou observar caso haja uma correção. Let The Market Speak!



O S&P 500 fechou a 7.721, com alta de 0,61% - a bolsa ultrapassou o nível de 7.816 e passamos a monitorar a entrada; o USDBRL a R$ 4,0750, com queda de 0,38%; o EURUSD a € 1,1260, com alta de 0,33%; e o ouro a U$ 4.168, com alta de 0,68%.

Fique ligado!

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