A opinião está no fluxo #USDBRL
Pouco importa a narrativa quando ela não se converte em alocação efetiva de capital. O câmbio, mais do que qualquer outro mercado, reage diretamente a fluxo. E o que se observa nos últimos meses é uma mudança objetiva de comportamento dos investidores globais em relação ao dólar.
O ponto central
destacado por Robin Brooks não é venda de ativos americanos, mas aumento
expressivo de proteção cambial. Os fluxos para ações e títulos dos Estados
Unidos seguem elevados, porém acompanhados por vendas de dólar no mercado
futuro. Ou seja, investidores mantêm exposição aos ativos, mas neutralizam o
risco da moeda.
Essa dinâmica é
fundamental porque o estoque de ativos americanos em mãos estrangeiras é
gigantesco quando comparado aos fluxos mensais de entrada. Pequenos ajustes de
hedge sobre esse estoque produzem movimentos relevantes no câmbio, sem
necessidade de saída física de capital.
O segundo vetor é a
mudança nos diferenciais de juros futuros. Desde o episódio de instabilidade
política recente, os contratos de taxas implícitas passaram a precificar juros
americanos relativamente mais baixos frente às economias desenvolvidas. Foi exatamente
o mesmo mecanismo observado na queda abrupta do dólar em abril de 2025, após o
choque tarifário.
Historicamente, o dólar
se fortalece quando o prêmio de juros dos Estados Unidos se amplia e enfraquece
quando esse diferencial se comprime. O movimento atual mostra uma reversão
clara dessa vantagem, refletindo a percepção de que o custo das decisões políticas
acabará recaindo sobre crescimento e política monetária.
O terceiro elemento
quantitativo é o posicionamento especulativo. Dados recentes indicavam posições
praticamente neutras em dólar, após meses de estabilidade da moeda. Em termos
de mercado, isso significa ausência de proteção e baixa convicção direcional.
Quando o choque de percepção ocorreu, o reposicionamento passou a alimentar a
tendência de enfraquecimento.
Movimentos iniciados a
partir de posicionamento neutro tendem a ser mais persistentes, porque ainda há
muito espaço para ajuste antes de qualquer excesso técnico.
O caso japonês ajuda a
entender por que o câmbio vem absorvendo parte crescente do ajuste
macroeconômico global. Mesmo com tentativas de intervenção, o iene permanece
pressionado. A razão é estrutural: juros de longo prazo artificialmente
comprimidos por décadas impediram que o risco fiscal se refletisse plenamente
no mercado de títulos, deslocando o prêmio de risco para a moeda.
O paralelo com os
Estados Unidos está longe de ser mecânico, mas ilustra um princípio importante:
quando políticas monetárias e fiscais distorcem preços por muito tempo, o
ajuste tende a emergir no câmbio.
No caso americano, a
combinação de déficits fiscais elevados, crescimento da dívida pública e ruído
institucional crescente começa a ser incorporada nos preços. O dólar não está
colapsando, mas passa por um processo de reprecificação de risco.
Apesar dessa
reprecificação, os dados globais mostram por que a pressão sobre o dólar não se
converte automaticamente em migração para outra moeda. O crescimento econômico
mundial passou a ser cada vez mais sustentado por déficits públicos elevados e
expansão acelerada da dívida. Nas economias desenvolvidas, os déficits médios
saltaram de cerca de 2,6% do PIB há uma década para aproximadamente 4,6%,
enquanto nos mercados emergentes avançaram de cerca de 4% para mais de 6%.
Ao mesmo tempo, a dívida
pública global caminha para ultrapassar 100% do PIB mundial até o fim da década
— o maior nível desde o pós-Segunda Guerra Mundial — refletindo uma mudança
estrutural na forma como os governos passaram a sustentar crescimento econômico.
Esse movimento é
generalizado. A China opera com déficits próximos de 9% do PIB, a Europa voltou
a ampliar gastos com defesa, infraestrutura e subsídios industriais, e o Japão
lançou novos pacotes fiscais mesmo com os juros de longo prazo já pressionando
o mercado de títulos públicos.
Na prática, todas as
grandes economias hoje crescem ancoradas em expansão fiscal. Não existe um
bloco relevante oferecendo disciplina orçamentária, mercado financeiro profundo
e liquidez comparável à dos Estados Unidos. As fragilidades fiscais tornaram-se
globais.
Ao mesmo tempo, os
mercados acionários globais mostram sinais típicos de ciclo econômico aquecido:
rotação para valor, recuperação fora dos Estados Unidos e melhora nas
expectativas de lucros. Isso indica que a pressão sobre o dólar não decorre de
recessão, mas de realocação de risco monetário.
A própria alta dos
metais industriais reforça esse diagnóstico. O cobre acumula valorização
próxima de 50% em poucos meses, impulsionado por restrições de oferta após anos
de subinvestimento e por demanda estrutural ligada à eletrificação e à expansão
de infraestrutura de dados.
Portanto, o ambiente
atual combina crescimento econômico com pressões fiscais e cambiais — um
cenário clássico de inflação de ativos reais e enfraquecimento relativo da
moeda.
O Mosca não vê nesse
movimento a substituição do dólar como moeda de referência global, justamente
porque os dados mostram que o resto do mundo enfrenta desequilíbrios fiscais
tão ou mais graves. O que ocorre é uma redistribuição de risco dentro de um sistema
financeiro internacional cada vez mais dependente de dívida pública.
Quando investidores
passam a proteger sistematicamente sua exposição cambial, o fluxo se torna
estrutural. E quando o diferencial de juros deixa de favorecer os Estados
Unidos, o suporte tradicional do dólar enfraquece.
Enquanto esses vetores
permanecerem apontando na mesma direção, a pressão sobre o dólar tende a
continuar, independentemente de manchetes pontuais.
Análise Técnica
No post “negociando-o-inegociavel” fiz os seguintes comentários sobre o dólar:
“O dólar permaneceu em
um intervalo restrito na semana passada e é provável que o nível de R$ 5,33
seja alcançado. Vamos ficar atentos para um eventual trade de compra”.
Um leitor comentou: “Não
deu nem tempo de comprar o dólar a 5,33, essa foi rápida, magoou”. Acredito que
ele se referisse a uma pequena recuperação antes de nova queda. Ao reler meus
comentários, fiquei na dúvida se teria deixado a impressão de que compraria
nesse nível. Esclareço: não.
Hoje trato de
posicionamento de longo prazo. Para isso utilizo dois gráficos com janela
mensal, de pouca utilidade no curto prazo, mas extremamente relevantes em
horizontes mais longos e na avaliação de risco.
Plano Atual — Inicialmente apresento a opção que considero mais provável. Nesse
cenário, o dólar estaria na onda terminal (5) vermelha da onda V
verde. Trata-se de uma estrutura diagonal que, à primeira vista, parece
“tranquila”, mas que em prazos curtos é bastante difícil de navegar. Nessa
hipótese, o dólar atingiria aproximadamente R$ 7,00 e, posteriormente,
ocorreria um movimento de queda expressivo. A correção em andamento não pode
ultrapassar o nível de R$ 4,69835.
Plano B — Nesta alternativa, o dólar já teria atingido a máxima em dezembro de 2024, no nível de R$ 6,35, e desde então a queda estaria em curso.
Tenho enfatizado que o dólar ainda apresenta espaço para uma queda relevante. Observem que, entre essas duas opções, o desfecho final é o mesmo; o que muda é apenas o comportamento no curto prazo.
É fundamental destacar
que, nesses cenários, as confirmações são decisivas. Não é possível vender o
dólar — como meu amigo gostaria — e simplesmente esquecer a posição. É
preciso seguir acompanhando o Mosca de forma contínua.
O S&P 500 fechou a 6.950,
com alta de 0,50%; o USDBRL a R$ 5,2844, com queda de 0,12%; o EURUSD a € 1,1883,
com alta de 0,46%; e o ouro a U$ 5.053, com alta de 1,30%.
Fique ligado!
Mosca, deixe-me ver se entendi, a análise gráfica te dá 2 cenários prováveis, mas todos terminam no piso de R$ 4,59, é isso?
ResponderExcluirEm um opção o dólar bate em 7 e depois bate no piso.
Na outra, segue em queda até o alvo.
Entendi corretamente?
no cenário de queda em curso o primeiro objetivo seria esse de R$ 4,59 e na principal ainda teríamos uma alta até R$ 7,00. Mas quero enfatizar que a primeira opção ainda teria que ser refinada esse objetivo será melhor definido caso eu abandone a opção dos "R$ 7,00"
ExcluirNa atual fraqueza do dólar e na quebra da resistência do EWZ, parece mais que iremos pelo Plano B...
ResponderExcluircomo digo: Let The Market Speak
ResponderExcluir