Negociando o inegociável #USDBRL
O mundo entrou numa fase em que aquilo que
antes era implícito passou a ser dito sem rodeios. A diplomacia perdeu verniz,
os eufemismos ficaram caros e a política internacional começou a operar em modo
transacional, quase contábil. Já não se trata de alianças baseadas em valores,
mas de interesses imediatos, muitas vezes expostos de forma crua. É nesse
ambiente — áspero, curto de paciência e longo de desconfiança — que a mais
recente obsessão americana com a Groenlândia reaparece como sintoma de algo maior.
Donald Trump nunca foi um negociador no
sentido clássico do termo. Ele testa limites, cria ruído, ameaça, recua
parcialmente e insiste até extrair alguma vantagem. Isso vale para adversários,
parceiros e até aliados históricos. O problema é que, quando esse método é
aplicado à política internacional, os efeitos colaterais se multiplicam: o
custo do risco sobe, a previsibilidade some e todo mundo passa a precificar o
pior cenário primeiro.
A Groenlândia, por si só, parece improvável
protagonista. É enorme em território, minúscula em população e vive há décadas
um dilema silencioso: aprofundar sua autonomia ou aceitar a dependência
econômica da Dinamarca como preço da estabilidade. Esse equilíbrio delicado
começou a mudar quando o degelo acelerado transformou o Ártico em fronteira
estratégica. Novas rotas marítimas, acesso potencial a minerais críticos e uma
posição geográfica que funciona como sentinela natural entre América do Norte,
Rússia e o eixo asiático elevaram o valor do tabuleiro.
Trump percebeu isso cedo. A ideia de “comprar” a Groenlândia, que muitos trataram como folclore, era na verdade uma forma brutalmente direta de explicitar um cálculo estratégico. De um lado, a contenção de Rússia e China em uma região cada vez mais militarizada; de outro, o acesso a terras raras e minerais essenciais. O ponto central não é retórico: a distribuição global dessas reservas é profundamente assimétrica, com concentração elevada na China e um potencial relevante — ainda pouco explorado — no Ártico, como mostra o gráfico a seguir.
Quando se entende isso, o resto fica menos
“exótico”. A questão não é a Groenlândia ser “gelada”; é ser estratégica. O
tema não é um capricho imobiliário; é a disputa por cadeias de suprimento de
minerais que viraram insumo de soberania. Em tempos de reindustrialização,
transição energética, rearmamento e corrida tecnológica, minerais críticos são
o novo gargalo. E gargalo, em geopolítica, costuma virar arma.
Só que existe um detalhe que Trump parece
desprezar com frequência: nem tudo está à venda. A Groenlândia não é uma
empresa endividada, nem um ativo isolado em balanço. Ela faz parte de uma
arquitetura política europeia que, apesar de fragmentada, reage quando
pressionada em público. A reação pode ser lenta, mas costuma ser jurídica,
coordenada e calibrada para doer onde importa: acesso a mercado, regras,
tarifas e regulação.
A Europa entendeu que o teatro americano,
quando vira ameaça explícita, precisa ser respondido com instrumentos reais. E
ela tem. A discussão sobre retaliações comerciais e o uso de mecanismos
anti-coerção deixa claro que o continente começa a relembrar que seu mercado é
um ativo estratégico. O argumento é simples: se o método de Washington é
“tarifa e pressão”, a resposta não pode ser apenas “nota de repúdio”.
Trump respondeu como sempre: tarifas. A ameaça
de sobretaxar importações de países europeus que apoiem a Dinamarca passou a
circular como chantagem normalizada, e não como exceção. O curioso é que, desta
vez, o impacto econômico direto parece limitado. Estudos divulgados nos últimos
dias sugerem que uma tarifa adicional de 10% teria efeito pequeno sobre o
crescimento europeu, com impacto marginal no produto do bloco e impactos um
pouco maiores em países mais expostos ao comércio com os EUA.
Não significa ausência de custo. Significa que
o custo maior é político e institucional. Se a tarifa vira linguagem corrente
entre aliados, a confiança deixa de ser premissa e passa a ser variável. A
consequência é direta: empresas reavaliam investimentos, cadeias de
fornecimento se reorganizam e governos começam a planejar “redundância” — que é
uma forma elegante de dizer “vou pagar mais caro para depender menos”. Isso é
inflacionário no longo prazo e corrosivo para o crescimento potencial.
O ambiente ajuda a explicar o clima capturado
em Davos. A narrativa dominante não é mais a da integração; é a da
autopreservação. A desconfiança tomou o lugar da ação coletiva, e a pesquisa de
confiança que circulou antes do fórum resume o estado de espírito: erosão de
credibilidade em governos, mídia e líderes; crescimento do “eu” sobre o “nós”;
e medo explícito de perda de renda, de desinformação e, mais recentemente, de
substituição de empregos pela inteligência artificial.
Esse detalhe importa porque desconfiança não é
apenas clima social: ela vira comportamento econômico. Quando a sociedade
desconfia, o apetite a risco diminui, a tolerância a reformas cai e o prêmio
exigido para investir sobe. E isso acontece justamente num momento em que o
mundo já está ficando mais caro para operar: energia mais volátil, juros
estruturalmente mais altos e fragmentação comercial.
É aqui que a Groenlândia volta como símbolo. O
que está em jogo não é apenas uma ilha, mas o precedente. Se um aliado
histórico pode ser pressionado publicamente com tarifas, ameaças e coerção, o
conceito de aliança perde valor prático. E quando aliança vira contrato de
curto prazo, todo país começa a se comportar como se estivesse sozinho —
inclusive os europeus.
Essa percepção empurra um tema que a Europa
vinha adiando: autonomia estratégica. Não é discurso; é planilha. Se a proteção
americana se torna condicional, a conta da defesa volta para o continente. E
isso implica mais gasto militar, reorientação industrial e, inevitavelmente,
disputa política interna sobre prioridades orçamentárias.
Do lado americano, Trump parece confortável no
papel de agente do caos controlado. Para sua base política, o confronto é prova
de força. Para os mercados, é fonte permanente de volatilidade. Para o sistema
internacional, é sinal de que a era das regras previsíveis ficou para trás. E
para o investidor, a mensagem é direta: risco geopolítico deixou de ser “evento
raro” e virou item do cenário-base.
Esse encadeamento entre geopolítica e economia
real aparece com clareza em um relatório recente do Deutsche Bank, que chama
atenção para a colisão entre tensões geopolíticas persistentes e o custo básico
de vida. O ponto central é simples e mensurável: choques geopolíticos não ficam
restritos a mercados financeiros ou discursos diplomáticos; eles acabam se
refletindo em preços de alimentos, energia e bens essenciais. Sempre que
cadeias de suprimento são fragmentadas ou rotas comerciais se tornam politicamente
sensíveis, o ajuste ocorre via preços — e isso ajuda a explicar por que a
inflação de alimentos voltou a ser tema estrutural, mesmo após o pico
inflacionário.
Negociar o inegociável tem limite. Quando esse
limite é ultrapassado, o que resta não é acordo, mas reação. A Groenlândia pode
até não mudar de mãos, mas já cumpriu sua função: expôs, de forma cristalina,
que poder voltou a falar mais alto do que discurso — inclusive entre aliados. E
quando isso acontece, o preço não aparece só nas manchetes: aparece no câmbio,
no custo do dinheiro, nos investimentos que deixam de ser feitos e, sobretudo,
na confiança que não volta com facilidade.
Análise Técnica
No post “O enterro apressado da América”, fiz
os seguintes comentários sobre o dólar: “Tenho que usar o livro-texto e
sugerir um trade de compra. Qual a razão? Destaquei no retângulo abaixo as
cinco ondas formadas para cima e o nível de R$ 5,33 como a extensão ‘máxima’
para a retração. Máxima porque é onde se esperaria ocorrer a reversão. Existe
segurança nesse trade? Não.”
Hoje é feriado nos EUA e, como consequência, os mercados ficam sem direção — é impressionante essa predominância. Não avisem o Trump, senão ele começa a ameaçar fechar os mercados enquanto alguma coisa que queira com outros países não aconteça. Hahaha.
O dólar permaneceu em um intervalo restrito na
semana passada e é provável que o nível de R$ 5,33 seja alcançado. Vamos ficar
atentos para um eventual trade de compra.
O USDBRL fechou a R$ 5,3700, sem variação; o EURUSD a € 1,1642, com alta de 0,37%; e o ouro a U$ 4.670, com alta de 1,62%.
Fique ligado!
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