SesTech: A agonia dos "Sem Carteirinha" #nasdaq100 #NVDA
Durante anos, a chamada economia K-shaped foi tratada como uma metáfora didática, quase inofensiva. Uma forma elegante de explicar por que, após grandes choques, alguns setores se recuperam mais rápido do que outros. Algo transitório, quase pedagógico. Um desenho torto que, com o tempo, se endireitaria. Essa leitura envelheceu mal. O “K” deixou de ser uma fase do ciclo econômico e passou a descrever a própria engenharia do sistema atual. Não estamos mais diante de desvios temporários, mas de uma lógica estrutural que organiza vencedores e perdedores de forma permanente.
Hoje, não se trata
mais de trajetórias que divergem por algum tempo. Trata-se de uma economia que
separa, filtra e seleciona. O crescimento continua existindo, a inovação segue
avançando e os mercados funcionam normalmente. No entanto, o acesso a esses ganhos
tornou-se cada vez mais restrito. Não é mais apenas uma questão de renda ou
produtividade; é uma questão de pertencimento. É nesse ponto que a Carteirinha
deixa de ser metáfora e passa a funcionar como diagnóstico.
Ter ou não ter
Carteirinha passou a definir quem corre no braço de cima do K — e quem
permanece confinado ao de baixo. O sistema não impede ninguém de participar
formalmente da economia. Todos continuam correndo. A diferença é que alguns
largam metros à frente, com menos obstáculos, financiamento barato e proteção
contra choques. Outros correm com pesos adicionais, pagando mais caro pelo
crédito, assumindo riscos maiores e recebendo retornos cada vez menores pelo
mesmo esforço.
Para quem está sem
Carteirinha, o sofrimento não vem apenas da estagnação material. Ele nasce da
comparação cotidiana. Trabalhar mais horas, aceitar mais risco, operar com
margens comprimidas e, ainda assim, assistir ao vizinho prosperar de forma
consistente. Muitas vezes fazendo algo que, superficialmente, parece
semelhante. O esforço é comparável; o resultado, radicalmente diferente. Não
por falha individual, mas por posição dentro da estrutura.
Esse gráfico deixa
visualmente explícito o drama central da economia K-shaped. Enquanto lucros e
margens corporativas seguem se expandindo, a renda real do trabalho avança
lentamente ou simplesmente não acompanha. Para quem está no braço de baixo do
K, a sensação é inequívoca: não importa o quanto se esforce, o sistema remunera
cada vez menos o trabalho e cada vez mais o capital. O vizinho acumula
patrimônio; você apenas preserva a sobrevivência.
Essa assimetria corrói
mais do que a renda. Ela corrói a percepção de justiça econômica. O trabalho
continua sendo exigido, mas deixa de ser recompensado de forma proporcional. A
promessa implícita de que esforço e disciplina levam à ascensão social vai se
enfraquecendo, substituída por uma realidade em que o acesso a ativos e capital
barato se torna o principal determinante do resultado.
Os juros exercem papel
decisivo nesse processo. Diferente do discurso genérico, juros altos não
apertam a economia de maneira uniforme. Eles funcionam como um verdadeiro
filtro de entrada. Empresas com caixa robusto, acesso direto ao mercado de
capitais e poder de precificação conseguem absorver o impacto. Já quem depende
de crédito bancário tradicional, capital de giro e margens estreitas vê sua
atividade se tornar progressivamente menos viável.
Esse gráfico ajuda a
entender por que cortes pontuais de juros não resolvem o problema estrutural.
Mesmo quando o custo do dinheiro de curto prazo recua, as taxas longas —
aquelas que determinam financiamento imobiliário e investimentos de longo prazo
— permanecem elevadas. O resultado é um sistema que segue funcionando para quem
já tem Carteirinha, enquanto mantém o portão fechado para os demais.
A habitação talvez
seja o exemplo mais cruel dessa dinâmica. O imóvel, que por décadas funcionou
como principal instrumento de acumulação patrimonial da classe média, tornou-se
um ativo cada vez mais inacessível. Não porque os preços necessariamente continuem
subindo de forma explosiva, mas porque a combinação entre preços elevados e
juros altos criou uma barreira quase intransponível para quem depende de renda
do trabalho.
Esse gráfico mostra
que a acessibilidade imobiliária atingiu níveis piores do que no auge da bolha
que antecedeu a crise financeira global. Casas não precisam ficar mais caras
para se tornarem inalcançáveis; basta que o custo do dinheiro permaneça elevado
por tempo suficiente. Para os Sem Carteirinha, o sonho da casa própria deixa de
ser adiado e passa a ser simplesmente abandonado.
Quando o foco se
desloca para o mercado de trabalho, os dados exigem cuidado na interpretação.
Indicadores agregados mostram uma economia ainda em funcionamento, com níveis
de emprego relativamente estáveis. Isso é importante para evitar uma leitura
caricata do K, como se o braço de baixo estivesse em colapso imediato. Ele não
está.
O problema é outro. O
emprego garante presença na corrida, mas não garante progresso. Trabalhar
continua sendo necessário, mas deixou de ser suficiente. A estabilidade do
emprego mascara a deterioração do retorno econômico do esforço. O trabalhador
permanece ocupado, mas cada ano trabalha mais para manter o mesmo padrão de
vida.
A desigualdade se
torna ainda mais tóxica quando se observa que a inflação não pesa de forma
homogênea. Os itens que consomem parcela maior da renda dos mais pobres —
moradia, serviços essenciais e crédito — sobem mais rápido. Ao mesmo tempo, os
ganhos salariais se concentram nas faixas superiores.
Esse gráfico explicita
que nem mesmo dentro do mercado de trabalho o jogo é equilibrado. Os salários
mais altos continuam avançando em ritmo superior, enquanto os menores ficam
para trás. O resultado é uma economia que cresce, mas distribui seus frutos de
forma cada vez mais assimétrica.
A agonia dos Sem
Carteirinha não está apenas na renda. Está na comparação constante, na
frustração silenciosa e na percepção de que o esforço deixou de ser o principal
determinante do resultado. Ignorar o K é erro de análise. Subestimar seus
efeitos sociais e políticos é ingenuidade. E, para o investidor, não entender
quem tem — e quem não tem — Carteirinha é o tipo de erro que costuma sair caro.
Análise Técnica
No post “sestech-quando-pressa-assusta”, fiz os seguintes comentários sobre
a Nasdaq 100:
“Do ponto de vista técnico, merece acompanhamento de perto, pois é importante
que o nível de 23.804 não seja ultrapassado, o que me faria mudar a contagem.
Vamos lá, Papai Noel, estamos precisando da sua força! Hahaha.”
Nas últimas semanas, as ações de tecnologia têm ficado para trás, enquanto o S&P 500 já atingiu novas máximas neste ano. A Nasdaq 100, por sua vez, continua patinando. O motivo é claro: o mercado está desconfiado dos valuations e tem preferido comprar ações mais baratas — tema que já comentei recentemente.
Observando o gráfico,
fico em dúvida se a onda (4), em vermelho, já terminou conforme representado.
Enquanto o nível de 26.175 não for ultrapassado, essa hipótese continua válida.
O Papai Noel, definitivamente, não ajudou esse segmento.
Em relação à Nvidia, comentei:
“É visível que a ‘Queridinha’ precisa reagir rápido; caso contrário, terei que
refazer minha contagem. Abaixo de US$ 164, minha contagem muda e, mesmo sem ter
feito esse exercício, as perspectivas não são nada boas.”
É nítido que a “Queridinha” foi deixada de lado, inclusive dentro do seu próprio grupo. Enquanto a Nasdaq 100 está mais próxima de romper suas máximas, a Nvidia ainda se encontra distante dos US$ 212. Além dos valuations elevados, começou a surgir concorrência relevante, como os chips do Google e o movimento estratégico da OpenAI ao firmar acordo multibilionário com a Cerebras, reduzindo sua dependência de fornecedores tradicionais.
Do ponto de vista
técnico, não tenho mais nada a acrescentar além do que foi dito acima.
No post “Vivendo com o dedo no gatilho”, apresentei um gráfico mostrando que os ganhos das bolsas no ano passado tiveram origens distintas. Enquanto nos EUA a alta foi explicada majoritariamente pelo crescimento dos lucros, na Europa e principalmente na China o movimento decorreu da expansão dos múltiplos de P/L, sem crescimento relevante dos resultados.
Essa corrida para
comprar o que parece barato exige cuidado adicional, como mostra o gráfico
abaixo.
À esquerda, estão os P/L relativos das diversas bolsas. No entanto, como já comentei no passado, essa comparação mistura banana com laranja, pois a composição setorial dos índices não é a mesma da americana. No gráfico da direita, as barras em verde fazem esse ajuste. Assim, a bolsa americana continua mais cara — mas não tanto quanto muitas vezes se imagina.
O S&P 500 fechou a 6.943, sem alteração; o USDBRL a R$ 5,3720, sem alteração; o EURUSD a € 1,1597, com queda de 0,10%; e o ouro a U$ 4.584, com queda de 0,68%. Fique ligado!
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