Vivendo com o dedo no gatilho #S&P 500

 


Vivemos num mundo de curto prazo. Informação em tempo real, decisões instantâneas, cobrança contínua. Tudo precisa mostrar resultado agora. Se demora, perde relevância. Se não performa rápido, vira erro.

Mas será que investir em ações combina com essa lógica? Ou estamos apenas naturalizando um comportamento que cobra um preço alto — e recorrente?

É importante dizer desde já: agir assim é normal. A teoria comportamental explica. O ser humano reage ao que está próximo, sofre mais com perdas visíveis do que valoriza ganhos futuros e sente desconforto diante da incerteza. Nada disso é exceção. É regra. O mercado financeiro apenas amplifica esse traço.

Um estudo acadêmico recente – Exploiting Myopia, Kalash Jain e outros, ajuda a colocar números nessa intuição antiga. Ele não julga gestores, não acusa incompetência, não romantiza o longo prazo. Apenas observa um fato simples: quanto mais curto é o horizonte real de decisão, menor tende a ser o retorno capturado no tempo.

A metodologia é direta. Em vez de perguntar o que os gestores dizem que fazem, o estudo observa quanto tempo, na prática, eles mantêm ações em carteira. Esse horizonte efetivo é então relacionado ao desempenho futuro das empresas. O resultado é desconfortável, mas consistente: empresas associadas a gestores mais pacientes apresentam retornos significativamente maiores do que aquelas giradas rapidamente.

De quanto estamos falando? Algo entre 3% e 5% ao ano. Não é detalhe estatístico. É retorno deixado na mesa. Um custo silencioso que se acumula e raramente aparece de forma explícita nos relatórios.

Vale reforçar um ponto fundamental: investir em ações é, por definição, uma decisão de longo prazo. Não por dogma, mas por natureza. Valor econômico — inovação, eficiência, ganho de escala, mudança estrutural — simplesmente não se materializa em trimestres.

Então por que o comportamento dominante vai na direção oposta?

Porque o sistema empurra. Avaliações frequentes, rankings, risco de resgates, comparação constante. Nesse ambiente, esperar passa a parecer imprudência. Sair cedo, mesmo que errado no longo prazo, vira uma forma de autoproteção. O curto prazo não é uma escolha — é uma imposição.

Há um gráfico que ajuda a tornar essa discussão ainda mais concreta. Ele compara a reação das ações no último trimestre, separando aquelas que superaram as expectativas daquelas que ficaram abaixo do esperado. O resultado é totalmente assimétrico.

 

 

As empresas que decepcionaram foram penalizadas de forma rápida e intensa. Já aquelas que surpreenderam positivamente tiveram reações bem mais contidas. O mercado pune com força e recompensa com cautela. O equilíbrio simplesmente não existe.

Embora a penalização recente tenha sido mais severa, o padrão não difere da média observada em horizontes mais longos. A lógica é estrutural. O que muda é a intensidade, não a direção.

Esse gráfico acrescenta uma peça-chave à tese do estudo. Ele ajuda a entender por que os gestores operam com o dedo permanentemente no gatilho. Eles sabem que, se a empresa falhar no próximo trimestre, o impacto negativo sobre o retorno do fundo será imediato e desproporcional.

Diante disso, esperar deixa de ser virtude e passa a ser risco. Mesmo quando a tese de longo prazo permanece intacta, o custo de errar agora é grande demais. A decisão racional, dentro desse sistema, é defensiva: reduzir exposição, sair cedo, evitar a assimetria negativa.

O estudo mostra que esse comportamento tem um custo mensurável. Mas talvez o ponto mais importante não seja o número. É a constatação de que o mercado, estruturalmente, precifica mal o tempo, porque a maioria dos seus participantes não pode se dar ao luxo de usá-lo.

Não adianta fingir que isso afeta apenas os outros. Nós mesmos, profissionais experientes, somos acometidos por esse viés. Conhecemos a teoria, entendemos os dados, e ainda assim sentimos o desconforto do curto prazo. Isso não é falha individual. É o preço dos tempos modernos.

Um artigo recente com um título quase didático — “Killing the Goose that Lays the Golden Egg” — ajuda a fechar esse raciocínio. A metáfora é simples: na ânsia de extrair resultados imediatos, o sistema acaba destruindo o próprio mecanismo que gera valor no tempo. No mercado financeiro, a “galinha” é o capital paciente, a capacidade de atravessar ciclos, absorver ruído e permitir que a tese amadureça. Ao transformar cada trimestre em um julgamento final, o mercado não apenas antecipa decisões — ele sacrifica retorno estrutural.

O mercado não erra por falta de informação. Ele erra porque passou a tratar o tempo como um custo, não como um ativo. Ao exigir respostas imediatas, acaba sacrificando justamente aquilo que produz retorno de forma recorrente: a capacidade de esperar. É a lógica de matar a galinha dos ovos de ouro para antecipar o próximo resultado trimestral. O curto prazo venceu — não por ser mais eficiente, mas por ser mais defensável. E enquanto o tempo continuar sendo um luxo, o erro deixará de ser exceção e seguirá sendo parte estrutural do sistema.


Análise Técnica

No post “Buy the Deeps funciona”, fiz os seguintes comentários sobre o S&P 500: “Como podem ver na figura abaixo, a bolsa estaria complementando a onda 2 azul – retração que pode estar contida dentro do retângulo, resultando num objetivo entre 7.450 e 7.531, correspondendo a aproximadamente 10% acima do nível então vigente”.


O Papai Noel cumpriu seu papel, levando a bolsa a fechar muito próximo das máximas. A contagem adotada acima segue seu curso e indica que estaríamos entrando agora na fase mais forte do movimento, com a onda 3 laranja em andamento. Como de costume, encerrei o retorno da posição existente em 31/12 e transportei o resultado para este ano como se o trade tivesse sido iniciado no preço de fechamento dessa data. Dessa forma, o desempenho fica dividido em duas partes: uma “realizada” no ano passado e outra em aberto neste ano. O stop loss foi ajustado para 6.840, enquanto o próximo objetivo está em 7.350.


Tenho observado muita gente animada com a performance das bolsas internacionais. Afinal, a grande maioria apresentou desempenho superior ao da bolsa americana em 2025. Ontem publiquei a ideia da Goldman Sachs, que acredita que os EUA ainda são o melhor lugar para investir e recomenda uma alocação maior nesse mercado.

O desempenho de uma bolsa pode ser decomposto em duas variáveis: crescimento dos lucros e variação dos múltiplos de P/L. Para tornar isso mais claro, imagine dois casos extremos. No primeiro, a bolsa sobe 10% e os lucros crescem na mesma proporção — o múltiplo de P/L permanece inalterado. No segundo, a bolsa também sobe 10%, mas essa alta decorre integralmente da expansão do P/L, sem qualquer crescimento dos lucros.

Veja a seguir como esses parâmetros se comportaram nas principais bolsas globais.



Embora o resultado do S&P 500 tenha sido inferior, sua alta foi majoritariamente explicada pelo crescimento dos lucros. Já nas bolsas europeias — e principalmente na chinesa, que apresentou o melhor desempenho — a valorização foi explicada exclusivamente pela expansão dos múltiplos de P/L.

Qual a conclusão? As bolsas fora dos EUA estão baratas na visão dos investidores e, portanto, “mereceriam” um P/L maior. Em algum momento, porém, isso precisa se traduzir em crescimento efetivo dos lucros. Caso contrário, deixa de ser investimento e vira torcida.

O S&P 500 fechou a 6.963, com queda de 0,19%; o USDBRL a R$ 5,3740, sem variação; o EURUSD a € 1,1648, com queda de 0,17%; e o ouro a U$ 4.585, com queda de 0,25%.

Fique ligado!

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