Nunca duvide da China #IBOVESPA

A China encerrou 2025 com um número que desmonta, de forma quase constrangedora, boa parte das narrativas prontas que circularam ao longo do ano: um superávit comercial recorde de aproximadamente US$ 1,2 trilhão, alcançado justamente num ambiente em que os Estados Unidos — seu maior parceiro histórico — intensificaram tarifas, ameaças e restrições. Esse dado, detalhado na reportagem da Bloomberg News, surpreende menos pelo tamanho absoluto e mais pelo contexto em que surge. Durante meses, o consenso falou em desaceleração estrutural, perda de competitividade e até em uma espécie de japonização da economia chinesa. Nada disso impediu que a máquina exportadora continuasse rodando, e rodando forte.

 

 

O ponto central, explicitado com clareza na análise do Wall Street Journal sobre o superávit recorde de 2025, é simples: tarifas não matam exportações, apenas mudam o caminho delas. Em 2025, as vendas chinesas para os EUA recuaram cerca de 20%, mas esse movimento foi mais do que compensado por uma expansão vigorosa em outras regiões. Exportações para o Sudeste Asiático, Europa, América Latina e, sobretudo, África cresceram de forma expressiva. A China não perdeu mercado global; ela trocou de cliente.

O superávit colossal, como ressalta a reportagem da Bloomberg intitulada “China’s 2025 Trade Surplus Hits Record $1.2 Trillion Despite US Tariffs”, carrega uma ambiguidade que merece atenção. Ele é prova inequívoca de competitividade externa, mas também escancara a fragilidade da demanda doméstica. Com consumo contido, setor imobiliário ainda pressionado e sinais persistentes de deflação, exportar tornou-se menos uma escolha estratégica e mais uma necessidade.

 

 

É justamente nesse ponto que o artigo de opinião de Shuli Ren, publicado na Bloomberg sob o título “Repeat After Me: Never, Ever Underestimate China”, ganha relevância. A China foi declarada acabada cedo demais — de novo. O texto destaca como o país segue combinando escala industrial, capital humano técnico e pragmatismo, sustentando uma subida consistente na cadeia de valor.

 

 

Há ainda um efeito colateral pouco discutido desse superávit recorde: a China não exporta apenas bens, exporta preços baixos. Ao empurrar sua produção excedente para o resto do mundo, o país acaba exercendo pressão desinflacionária global justamente num momento em que economias desenvolvidas tentam consolidar processos de reindustrialização. Para Estados Unidos e Europa, o incômodo não é apenas comercial, é existencial. Concorrer com uma indústria capaz de operar com margens comprimidas, escala monumental e apoio estatal explícito ou implícito torna-se um desafio político, não apenas econômico.

Esse ponto ajuda a explicar por que o Ocidente insiste em interpretar a China de forma recorrente equivocada. Fraqueza cíclica não equivale a declínio estrutural. O setor imobiliário pressionado, o consumo doméstico anêmico e a cautela do investidor local são problemas reais, mas convivem com um parque industrial robusto e altamente competitivo. A China parece disposta a aceitar um crescimento menor no curto prazo se isso significar preservar sua posição dominante em cadeias industriais estratégicas.

Olhando para 2026, o conflito tende a se deslocar. Tarifas, embora barulhentas, são instrumentos do passado. O novo embate é industrial e regulatório: subsídios diretos, exigências de conteúdo local, barreiras ambientais, controles tecnológicos e restrições financeiras. O superávit recorde de 2025 funciona como combustível para essa próxima fase do confronto, alimentando a narrativa de excesso de capacidade e concorrência desleal que deve ganhar ainda mais tração.

Nesse contexto, o componente político torna-se inevitável. Em ano eleitoral nos Estados Unidos, a China volta a ocupar o papel de vilão conveniente. Um superávit dessa magnitude fornece munição retórica abundante, independentemente da complexidade real das cadeias globais. Isso ajuda a entender por que a pressão sobre Pequim tende a continuar — ou até se intensificar — mesmo diante de dados que, isoladamente, atestam resiliência e capacidade de adaptação. recente permanece incômoda: subestimar a China costuma sair caro.

 

Hedge Funds x Mosca

No início de cada ano, o mercado divulga o placar dos hedge funds macro. Em 2025, segundo a Bloomberg, o setor entregou seu melhor desempenho em 16 anos, explorando juros altos, volatilidade e choques de narrativa.

O retorno do Mosca em 2025 foi de 42,67% (*).

Vale a provocação. A equipe do Mosca é extensa: um único colaborador. Os escritórios ao redor do mundo não existem. Não há comitês, analistas setoriais, modelos proprietários nem salas cheias de telas piscando. O número de mercados acompanhados e de trades executados é mínimo quando comparado ao de um hedge fund macro tradicional.

Ainda assim, colocando os números lado a lado, a conclusão é direta: se o Mosca fosse um hedge fund macro, teria terminado 2025 em primeiro lugar. Não por escala, estrutura ou velocidade, mas justamente pelo oposto — foco, seletividade, gestão de risco e a liberdade de não reagir a cada ruído.

Ranking

Estratégia / Fundo

Retorno 2025

1

Mosca (referência)

~43%

2

Brevan Howard (Macro)

~32%

3

Rokos (Macro)

~28%

4

Caxton (Macro)

~26%

5

Tudor (Macro)

~24%

Média fundos macro

~15%

(*) Embora eu já tenha explicado isso antes, o critério usado no cálculo do retorno assume que todas as operações são feitas com todo o capital — o que, na prática, não reflete necessariamente a realidade dos hedge funds.


Análise Técnica

No post “o-desmanche-do-rh”, fiz os seguintes comentários sobre o IBOVESPA: “Ontem o mercado reverteu a alta que acontecia nos últimos dias, o que deixa as seguintes opções, conforme destacado no gráfico abaixo.

Opção curta: nesse caso, podemos esperar uma queda (ou a formação de um triângulo) ao redor de 152 mil, com pequena duração, que seria revertida, seguindo novas máximas na sequência.”


Fiz algumas mudanças na contagem da bolsa, que implicam objetivos mais elevados à frente. Grosso modo, assumo que a onda 5 verde não terminou. Muito bem, minha dúvida agora é sobre a onda 4 verde, e surgem duas possibilidades:

Terminou (menos provável) — nesse caso, o IBOVESPA ruma para o objetivo de 182 mil, completando a onda 5 verde e a onda 3 azul.

Não terminou — nesse caso, após reverter a alta atual, deveria seguir para uma nova queda ao redor de 156/155 mil e só então voltaria a subir.


- David, eu sei que você tem todos os motivos para não gostar da bolsa, mas eu gosto! Suas sugestões não me ajudam em nada; vou ter que ficar olhando a bolsa subir até 182 mil, o que representa mais de 10% a partir de hoje, sem fazer nada!

Primeiro, eu não tenho nada contra a bolsa em si. O problema é que os movimentos que ela apresenta não são direcionais no longo prazo. Segundo, há uma limitação operacional: meu software não ajuda.

Mas vamos aos pontos de observação.

Por que a onda 4 verde não deve ter terminado? Eu destaquei duas elipses verdes no gráfico acima, e isso tem relação com o tempo. Notem como o intervalo da onda 1 verde para a onda 2 verde foi muito maior do que do movimento da onda 3 verde para o possível término da onda 4 verde. Isso invalida a contagem? Não. Mas não é normal que ocorra tamanha diferença, o que pode ser corrigido caso a onda 4 verde demore um tempo maior.

Como saberemos qual opção está em curso? Enquanto não for ultrapassada a região demarcada com o retângulo laranja — ou seja, enquanto não superar 167,7 mil — uma queda ainda pode ocorrer, mantendo válido o cenário “Não terminou”.

Tem um detalhe que vem me intrigando. O gráfico abaixo mostra que o fluxo de estrangeiros para a bolsa brasileira foi o mais negativo da história. E, mesmo sendo um dado denominado em reais, nenhuma das saídas anteriores se compara à atual quando convertida para dólares. Se isso de fato ocorreu, a pergunta é inevitável: quem está comprando?



O S&P 500 fechou a 6.927, com queda de 0,53%; o USDBRL a R$ 5,3937, com alta de 0,37%; o EURUSD a € 1,1644, sem variação; e o ouro a U$ 4.630, com alta de 0,97%.

Fique ligado!

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