A lua de mel da IA acabou #nasdaq100 #NVDA #OURO #EURUSD
Durante dois anos, a inteligência artificial foi o passe livre para o
mercado esquecer o básico. Bastava um CEO encaixar “AI” em duas frases — e o
valuation se comportava como se o resto do mundo tivesse sido dispensado por
decreto. O investidor comprava a história e, junto com ela, comprava a
esperança de que produtividade, margens e crescimento chegariam por osmose. Só
que 2026 começou a mostrar uma coisa bem menos romântica: a festa continua, mas
agora alguém está pedindo o extrato.
Essa virada não tem nada de mística. Ela é a consequência natural de
qualquer ciclo de tecnologia quando sai da fase do “isso vai mudar tudo” e
entra na fase do “ok, e quanto isso gera de caixa?”. O Deutsche Bank chamou
esse momento pelo nome: a “lua de mel” da IA acabou; a tecnologia sobrevive,
mas este será o ano mais difícil até aqui, porque três forças se encontram ao
mesmo tempo: desilusão (promessas maiores que entregas), deslocamento (gargalos
físicos e de custo) e desconfiança (política, regulação e impacto social).
Primeiro, a desilusão. Os modelos melhoraram e melhoraram rápido. Em
testes e benchmarks, agentes de IA já executam tarefas específicas num nível
comparável — e às vezes superior — ao de profissionais experientes. Isso é
real. O problema é que “ser bom no teste” não é igual a “ser útil no mundo
real”. O salto mais caro não é do laboratório para o produto; é do produto para
a rotina de uma empresa grande, com dados ruins, sistemas antigos, processos
mal desenhados e medo de errar em público.
É aqui que começa o segundo ponto: a adoção em escala. Falar de “AI
agents” dá clique, mas implementar “AI agents” dá dor de cabeça. Integrar IA
aos fluxos de trabalho é muito mais complicado do que vender a demo. A empresa
precisa de dados de qualidade, governança, controles, segurança, treinamento e,
principalmente, alguém responsável quando o modelo inventa. Esse é o tipo de
detalhe que não aparece no palco, mas aparece no orçamento.
E quando a realidade operacional não acompanha a narrativa, a bolsa faz
o que sempre faz: separa discurso de execução. A melhor evidência disso são os
resultados corporativos recentes — e a reação do mercado a eles. A Meta subiu:
eficiência, foco em monetização e um argumento mais claro de retorno. A
Microsoft caiu: promessa gigantesca, mas custos igualmente gigantescos, com o
mercado olhando para a conta da infraestrutura. E a Apple ficou no “zero a
zero”, porque está no papel de quem observa o jogo, mas ainda não entrou de
corpo inteiro em campo. A IA deixou de ser um trade automático. Virou um
campeonato de performance.
Essa divergência, aliás, é o símbolo da nova era. O Wall Street Journal
descreve o que os preços já estão dizendo: as “Sete Magníficas” já não se movem
como bloco. O que unia o grupo era mais o tamanho do que a tese. Agora, cada
uma precisa provar o seu “porquê”. E a resposta não é “porque IA”; é “porque eu
consigo monetizar IA sem destruir margem”.
O terceiro ponto do Deutsche Bank é o deslocamento: a IA não é só
software. É uma cadeia industrial com gargalos físicos — chips, energia, data
centers, rede, memória, água para resfriamento, licenças, mão de obra
especializada. A demanda por computação segue subindo, e isso cria uma tensão
perigosa entre a promessa de crescimento infinito e o mundo concreto, que tem
limite. A tecnologia é digital; a infraestrutura é bem analógica.
É nessa parte que entra a leitura mais inteligente do capital de risco —
e, ao mesmo tempo, a mais provocativa. A Andreessen Horowitz, ao invés de
disputar o próximo aplicativo “mágico”, está concentrando fogo no encanamento
da IA: infraestrutura, ferramentas de desenvolvedor, segurança, modelos e tudo
o que o usuário final não vê, mas sem o qual nada funciona. Eles montaram um
fundo bilionário para isso e anunciaram mais compromisso de capital. A mensagem
é quase cínica, e por isso é boa: se a corrida é industrial, aposte nas
empresas que vendem pás, picaretas e pedágio.
Mas existe um detalhe que o próprio mercado de VC não esconde: as
valuations privadas estão altas. Muito altas. O texto da Bloomberg sobre a a16z
deixa isso no ar: o entusiasmo é real, a demanda é real, o uso de GPU é real —
mas o preço também é real. E preço alto é ótimo… até o dia em que vira
problema. Esse é o tipo de frase que parece banal, mas define ciclos inteiros.
O material de Shanaka joga gasolina nessa discussão porque traz a conta
mais desconfortável: a economia unitária. A disputa não é apenas “quem tem o
melhor modelo”; é “quem tem o menor custo por resposta” e “quem controla a
estrutura”. Google desenhou seus próprios chips e opera com vantagem estrutural
de custo em relação a quem precisa comprar GPU, pagar markup de nuvem e aceitar
margens de fornecedor. Isso pode virar um fosso competitivo silencioso,
daqueles que o mercado só percebe quando já é tarde.
Essa é a parte em que o investidor precisa respirar e lembrar do básico:
tecnologia sem economia é hobby caro. E economia sem escala é promessa. O que a
IA está vivendo agora é a transição do encantamento para o P&L. Uma
transição que dói, porque ela força as empresas a responder perguntas chatas:
quanto custa? quem paga? por quê? qual o ROI?
Finalmente, a desconfiança. A IA está virando tema político e social, e
isso muda o ritmo do jogo. O WSJ faz uma crítica interessante ao pânico de
“destruição de empregos”: confundir tarefas automatizáveis com empregos que
desaparecem. A tendência histórica é reorganização do trabalho antes de
eliminação. Isso não elimina o problema — desloca o debate para onde ele
deveria estar: treinamento específico, transições dentro das profissões, e não
pânico generalizado.
Na prática, o que entra em 2026 é uma IA mais parecida com o mundo real:
cheia de fricção, com vencedores e perdedores, com custos que não cabem em
tweet e com retorno que precisa ser demonstrado. A euforia não acabou; ela foi
reprecificada.
E aqui vai o ponto que interessa ao leitor-investidor: o ciclo ficou
mais difícil, mas ficou melhor. Quando o mercado exige prova, ele abre espaço
para vantagem competitiva de verdade. A fase do “todo mundo ganha” está indo
embora. A fase do “poucos ganham muito” está chegando.
Então o título do dia é esse mesmo: o fim da Lua de Mel da IA. Não é o
fim da IA. É o fim da parte fácil. Agora é execução, custo, caixa e
sobrevivência. E, como sempre, o mercado vai pagar caro por quem confundir
narrativa com negócio.
Análise Técnica
O post “A IA 2.0” trouxe os seguintes comentários sobre a Nasdaq 100:
“Nada de esclarecedor ocorreu nesta semana. Com um dia a menos de
negociação na segunda‑feira, a dúvida mencionada acima — ‘onda (4) em
vermelho, já terminou?’ — permanece. Aguardamos maiores definições nos
próximos dias.”
Como fica claro no gráfico abaixo, a Nasdaq 100 ameaçou romper a máxima
e reverteu ontem diante da ameaça de ataque dos EUA ao Irã. Não descarto a
possibilidade de uma retração conforme indicado no símbolo, o que levaria o
índice para a região de 23.600. Por outro lado, também é possível que rompa
para cima e ultrapasse 26.175.
— E aí David, compra ou vende?
Nenhum dos dois. Para o cenário de alta, a Nasdaq 100 não deveria
negociar abaixo de 24.945.
Em relação à Nvidia, meus comentários foram:
“Por enquanto, a única boa notícia é que a queda do início do ano
ocorreu em três ondas, conforme destacado no retângulo. Só isso tenho de novo.
Aguardamos o rompimento para cima, de preferência.”
Como se pode observar nos comentários de hoje, o setor de tecnologia
está sob pressão e vem desempenhando pior. Destaquei a região em que a Nvidia
permanece indecisa. Em breve serão divulgados seus resultados, que ainda devem
ser muito expressivos, mas, mesmo assim, o mercado vai querer saber das
perspectivas futuras.
O presidente Trump não gosta de ser contrariado. Quando isso ocorre
dentro dos EUA, simplesmente demite ou desmoraliza seus funcionários; quando é
externo, ameaça com tarifas. Mas quanto disso realmente está em vigor?
O gráfico acima poderia ser chamado de “Tacômetro”. Vale uma explicação:
o acrônimo TACO — Trump Always Chickens Out — poderia ser traduzido como
“afina”, ou seja, volta atrás e não impõe as tarifas anunciadas. Como apontado,
apenas cerca de 20% estão efetivamente em vigor. Faz jus ao acrônimo: late mas
não que morde.
O ouro e a prata vêm caindo hoje de forma
expressiva — o primeiro já acumula mais de 9 % de queda, o segundo passa de 27%.
Por uma feliz coincidência (porque em mercado o “quando” ninguém domina), meus
alertas de que o ouro já apresentava características de bolha antecederam esse
movimento. Evidentemente não imagino que o mundo tenha lido o Mosca — mas os
excessos, mais cedo ou mais tarde, sempre cobram seu preço. Em algum momento
surgirá uma oportunidade de compra muito menos arriscada do que entrar no
oba-oba do topo. Fiquem atentos também ao EURUSD, que pode em breve oferecer
uma sugestão interessante de entrada. Acompanhem o
Mosca.
O S&P 500 fechou a
6.939, com queda de 0,43%; o USDBRL a R$ 5,2603, com alta de 1,33%; o EURUSD a
€ 1,1853, com queda de 0,99%; e o ouro a U$ 4.861, com queda de 9,49%.
Fique ligado!
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