O outro lado da moeda #S&P 500
Na semana passada escrevi o post “Nunca duvide da China”, elencando a incrível resiliência da economia chinesa, que conseguiu redirecionar suas exportações para outros mercados e reduzir o impacto da queda imposta pelas tarifas americanas. Tudo isso parecia não apenas impressionante, mas quase definitivo: a China teria encontrado mais uma vez um caminho para contornar restrições externas, manter o crescimento e seguir adiante. Parecia incrível. Mas alguns artigos publicados nos dias seguintes começaram a me incomodar — e me colocaram em dúvida. Não porque os dados estivessem errados, mas porque a leitura superficial escondia tensões mais profundas.
Os números são, de
fato, expressivos. Em 2025, as exportações chinesas deram o maior impulso ao
crescimento econômico desde 1997. As exportações líquidas responderam por cerca
de um terço da expansão do PIB, algo que não se via desde a crise asiática do fim
dos anos 1990. O superávit comercial atingiu um recorde histórico, próximo de
US$ 1,2 trilhão. Mais importante ainda, a China mostrou uma capacidade
extraordinária de redirecionar seus fluxos comerciais: reduziu a dependência
dos Estados Unidos e ampliou rapidamente sua presença em mercados como Europa,
Sudeste Asiático, América Latina e África. Em termos puramente industriais e
logísticos, é um feito notável.
Esse movimento, à
primeira vista, reforça a velha tese de que a China sempre encontra uma saída.
Mas é exatamente aí que surge a dúvida central: a China exporta tanto porque o
mundo quer comprar seus produtos ou porque o mercado doméstico não consegue absorver
o que é produzido? A diferença entre essas duas interpretações é enorme e muda
completamente a leitura do que está acontecendo.
Em uma economia
saudável, o superávit comercial é consequência de uma demanda externa forte que
puxa a produção doméstica, gera renda, sustenta empregos e fecha o ciclo por
meio do consumo interno. Nesse caso, exportar mais fortalece a economia como um
todo. Em uma economia onde a demanda interna enfraquece, a causalidade se
inverte. A produção continua elevada, mas o consumo doméstico não acompanha. O
excedente passa a ser empurrado para fora como válvula de escape. O superávit
deixa de ser sinal de força e passa a ser sintoma de rejeição interna.
Os dados de inflação e
consumo reforçam esse desconforto. A inflação ao consumidor ficou praticamente
zerada ao longo do ano, um sinal claro de que os preços não encontram espaço
para subir. As vendas no varejo cresceram pouco mais de 1% em novembro, o ritmo
mais fraco desde a reabertura pós-pandemia. Isso não é apenas um tropeço
conjuntural. É um indício de que as famílias seguem cautelosas, priorizando
poupança e desalavancagem em vez de consumo, mesmo diante de estímulos pontuais
do governo.
Esse comportamento
está intimamente ligado à crise prolongada do setor imobiliário, ainda o
principal mecanismo de transmissão de riqueza para as famílias chinesas.
Durante décadas, imóveis funcionaram como reserva de valor, fonte de confiança
e motor indireto de consumo. Hoje, esse pilar segue fragilizado. Os preços
continuam em queda tanto no mercado de novos quanto no de usados, as vendas
permanecem deprimidas e o investimento imobiliário segue em retração profunda.
O problema não é
apenas a queda de preços, mas o efeito psicológico e financeiro que ela
provoca. Com imóveis se desvalorizando, as famílias se sentem mais pobres,
reduzem gastos e adiam decisões de consumo. Ao mesmo tempo, governos locais —
altamente dependentes de receitas ligadas ao setor imobiliário — veem sua
capacidade fiscal se deteriorar, limitando estímulos mais agressivos. O círculo
vicioso se retroalimenta.
Mesmo nesse ambiente,
o crescimento agregado conseguiu fechar 2025 próximo da meta oficial de 5%.
Isso alimenta a narrativa de estabilidade. Mas, ao olhar a composição desse
crescimento, o quadro fica bem menos confortável. O consumo segue fraco, o
investimento desacelera e o que sustenta os números, mais uma vez, é o setor
externo. O ritmo trimestral perde fôlego, revelando uma economia que cresce,
mas com dificuldade crescente de manter tração.
Esse tipo de
crescimento desequilibrado — forte do lado da oferta e fraco do lado da demanda
— não é novidade na história chinesa, mas se torna mais problemático em um
ambiente global menos amigável. O mundo de hoje é mais protecionista, mais
sensível a disputas comerciais e menos disposto a absorver excedentes
industriais indefinidamente. À medida que a China amplia sua participação em
mercados externos, também aumenta o risco de fricções políticas, tarifas e
barreiras não tarifárias.
Há ainda um aspecto
mais sutil, e talvez mais perigoso, nesse quadro. Sistemas econômicos próximos
de pontos de inflexão costumam apresentar uma aparência enganosa de
estabilidade. A volatilidade parece controlada, as correlações permanecem
estáveis e os indicadores agregados não entram em colapso. Justamente por isso,
modelos tradicionais de risco falham em capturar o acúmulo de pressão. A
estabilidade, paradoxalmente, vira o sinal de alerta.
Os dados chineses hoje
carregam esse desconforto latente. Crescimento oficial perto da meta, superávit
recorde e produção resiliente convivem com deflação, consumo anêmico,
investimento fraco e uma crise imobiliária que se arrasta há anos. Nada
explode. Nada se resolve de fato. O ajuste segue sendo empurrado para frente.
É nesse ponto que o
título do post se impõe. O outro lado da moeda não nega a capacidade de
adaptação da China. Pelo contrário, ela continua impressionante. Mas revela que
essa adaptação externa pode estar mascarando fragilidades internas relevantes.
Exportar mais resolve problemas de curto prazo, sustenta o PIB e ganha tempo.
Não resolve, porém, a ausência de um motor doméstico robusto de consumo.
Nunca duvidar da China
continua sendo um excelente conselho. Mas compreender como ela cresce, de onde
vem esse crescimento e quais tensões ele carrega é ainda mais importante. Desta
vez, a moeda tem dois lados bem distintos. Ignorar um deles pode ser confortável
no curto prazo — e perigoso no longo.
Análise Técnica
No post “vivendo-com-o-dedo-no-gatilho”, fiz os seguintes comentários sobre o S&P 500:
“A contagem
adotada acima segue seu curso e indica que estaríamos entrando agora na fase
mais forte do movimento, com a onda 3 laranja em andamento”.
Fiz o destaque acima no texto por um motivo específico. Na última semana, o índice andou de lado, o que levanta a suspeita de que outras possibilidades se abrem com a queda de hoje. A onda 1 azul, ao invés de ter terminado como mostra o gráfico acima, pode ter se estendido em um modelo diagonal, ilustrado abaixo. Nesse caso, a onda 2 azul estaria em andamento, cujos objetivos se situariam entre 6.750 e 6.695 (cerca de −3%), nada dramático.
Outra hipótese seria a
de que a onda 4 vermelha ainda não tenha terminado, o que pode levar o índice
até 6.516, dependendo do formato que venha a se apresentar. Com tantas
alternativas em aberto, prefiro ficar fora e observar. Não
faltará oportunidade para reentrar.
O S&P 500 fechou a 6.796, com queda de 2,06%; o USDBRL a R$ 5,3772, com alta de 0,13%; o EURUSD a € 1,1723, com alta de 0,67%; e o ouro a U$ 4.757, com alta de 1,86%.
Fique ligado!
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