Nada a declarar #OURO #GOLD #EURUSD
Em um dos momentos mais politizados da história recente do Federal
Reserve, Jerome Powell escolheu o silêncio como instrumento de política
monetária. Em vez de sinalizações, promessas ou embates públicos, adotou a
postura de quem sabe que qualquer palavra fora do lugar vira munição política e
financeira. Como numa audiência judicial em que o depoente se protege com o
famoso “nada a declarar”, Powell atravessou a coletiva devolvendo perguntas e
mantendo o foco estritamente nos dados.
A decisão do Comitê Federal de Mercado Aberto veio como o mercado
previa: juros mantidos no intervalo de 3,5% a 3,75%, nenhum ajuste relevante no
balanço e nenhuma orientação futura. A economia segue crescendo, o mercado de
trabalho continua firme e os riscos de inflação e de desaceleração estão,
segundo o Fed, mais equilibrados. Tradução prática: não há motivo para mexer na
política monetária agora.
Esse comportamento não foi casual. Em meio a pressões por cortes mais
rápidos, investigações e perguntas sobre o próprio futuro, Powell escolheu a
neutralidade absoluta. Repetiu que não tinha nada a declarar sobre temas
políticos e encerrou qualquer tentativa de transformar a coletiva em palanque.
Para um presidente do Fed, às vezes o silêncio não é omissão; é defesa
institucional.
Do ponto de vista de juros, o mercado entendeu o recado: o ciclo de
cortes entrou em pausa — e pode ficar assim até o fim do mandato de Powell. A
discussão mudou de “quando corta” para “o que teria de acontecer para
justificar um corte”.
O gráfico acima ajuda a visualizar esse deslocamento. Onde antes havia
uma sequência bem desenhada de cortes, agora aparece um cenário de estabilidade
prolongada. Isso não significa que a economia esteja imune a choques; significa
que o Fed não pretende agir preventivamente para agradar ninguém. Política
monetária virou observação, não promessa.
O silêncio de Powell também tem uma dimensão de poder. Ao se recusar a
dizer se permanecerá no Conselho do Fed após o fim do mandato como presidente —
apesar de ter, em tese, espaço para ficar até 2028 — ele mantém aberta uma
carta que dificulta a sucessão planejada e reduz a chance de uma captura
política rápida do banco central. Indefinição, aqui, é instrumento.
O pano de fundo jurídico reforça a temperatura. Há sinais claros de
desconforto na Suprema Corte com movimentos que fragilizem a independência do
Fed, especialmente no caso envolvendo a tentativa de afastamento de uma
diretora da instituição. O subtexto é direto: mexer na autonomia monetária pode
produzir efeitos reais na economia e nos mercados — e ninguém quer carregar
esse risco no colo.
Nesse cenário, a escolha por um dia “sem graça” faz sentido. Como
observou John Authers, em tempos turbulentos o melhor truque de sobrevivência
de um presidente do Fed é ser entediante: sem surpresas, sem frases ambíguas,
sem gestos que reacendam apostas e ampliem volatilidade.
O comportamento dos ativos foi um espelho dessa estratégia: a bolsa
quase não reagiu, os juros longos oscilaram pouco e o dólar foi e voltou.
Quando a autoridade monetária atravessa um ambiente político tóxico sem mexer
no preço do risco, ela está dizendo que não aceitará ser arrastada para o
espetáculo.
Há um ativo que insiste em contar uma história diferente: o ouro, em
trajetória de alta que parece ignorar a “calmaria oficial”. Esse rali é menos
sobre um dado específico e mais sobre uma sensação: proteção contra erro de
política, contra ruído institucional e contra perda de confiança. Em geral, é
assim que bolhas narrativas começam: não pelo número, mas pela necessidade
psicológica.
Outro sinal relevante vem do mercado de títulos públicos. Mesmo depois
dos cortes feitos no final de 2024, os juros de longo prazo subiram e voltaram
a se acomodar perto de 4,25% a 4,75%. É o mercado dizendo: não contem com
dinheiro barato por década inteira.
Essa reprecificação do longo prazo muda o valor do tempo. Em um mundo de
juros mais altos por mais tempo, promessa distante vale menos, lucro presente
vale mais. Isso ajuda a explicar a seletividade recente nas ações — inclusive
no tema que domina a imaginação do investidor: inteligência artificial. O
capital ainda financia projetos gigantescos, mas passou a exigir retorno
concreto.
O gráfico de divergência sugere uma rotação silenciosa: dinheiro
começando a olhar para fora das gigantes óbvias, buscando valor em outros
cantos do mercado. Não é ruptura; é recalibração.
No Brasil, o contraste é inevitável. O Banco Central manteve os juros,
mas praticamente sinalizou o início de cortes a partir de março. O Mosca segue
firme na convicção: taxa de juros não tem data marcada para cair ou subir.
Quando muda, muda de uma vez — e o mercado antecipa muito antes das reuniões
oficiais. Diante do que foi comunicado, os preços já vão embutir cortes
relevantes; vir com redução tímida depois seria ignorar a própria sinalização
feita.
No fim, a síntese é simples: Powell não quer ser protagonista. Não quer
disputar narrativa, não quer antecipar movimentos, não quer alimentar
especulação. Como em uma audiência jurídica em que o silêncio é estratégia de
defesa, o “nada a declarar” virou sua forma de preservar credibilidade,
estabilidade e independência.
O Mosca diria que, em tempos de barulho extremo, o silêncio bem
calculado acaba sendo a atitude mais firme de todas.
Análise Técnica
No post “os-dragões-da-IA-ouro” fiz os seguintes comentários sobre o ouro:
“O movimento assumiu características quase parabólicas, o que me leva a
considerar a hipótese de estarmos diante de uma bolha. Como toda bolha, ninguém
sabe exatamente onde ocorrerá a reversão. Minha experiência sugere que, quando
isso acontecer, a correção tende a ser substancial. Para quem está comprado, a
recomendação é clara: ir ajustando o stop loss a cada nova máxima. Por
enquanto, o próximo ponto de referência segue sendo o nível de US$ 5.150”.
No post acima mencionei a hipótese de estarmos em uma bolha e vou
assumir isso como realidade: o ouro está em uma bolha. Se vocês se recordam,
apresentei diversas vezes as características típicas desse processo, razão pela
qual as retomo a seguir.
Analisando item a item, tudo indica que o ouro se enquadra nesses
critérios. Um leitor me perguntou se existe a percepção de aumento do risco
macroeconômico. Sempre que uma bolha se forma, surgem argumentos para sustentar
a alta de preços e, no caso do ouro, alguns se encaixam bem: medidas do Trump
de forma atabalhoada, aumento do risco geopolítico, a ideia de forçar o Fed a
cortar juros quando Powell sair, Trump defendendo um dólar fraco — algo
raríssimo de se ouvir de um presidente — entre outros.
Por tudo isso, o mercado escolheu o ouro, mas não o bitcoin, como
refúgio. Outro movimento relevante ocorreu no franco suíço, que passou a ser a
moeda do G10 mais valorizada, enquanto o iene perdeu parte de seu status
defensivo.
A pergunta central é direta: o dólar vai virar pó? Sinceramente, não
acredito. Já comentei diversas vezes os motivos, embora possa estar errado.
Onde acompanhar essa tese? Na cotação da moeda frente às principais divisas. Se
eu estiver correto, em algum momento quem estiver comprado em ouro vai parar e
pensar: o ouro não produz nada, não paga dividendos nem juros e só continua
subindo enquanto houver novos compradores entrando diariamente. Também não se
deve esquecer que as mineradoras irão acelerar produção para aproveitar esse
oba-oba.
Em resumo: para quem pensa em comprar, sugiro aguardar uma nova
oportunidade conforme a própria análise técnica venha a indicar.
O ouro ultrapassou o objetivo traçado em US$ 5.150 como um foguete. Em
movimentos parabólicos, os alvos passam a funcionar mais como baliza e o
próximo nível técnico passa a ser US$ 6.300. Hoje, especificamente, com a
ameaça de um ataque dos EUA ao Irã, o cenário é um prato cheio para o metal.
Em relação ao euro, meus comentários foram:
“O preço deve caminhar em direção ao objetivo traçado no retângulo. Essa
leitura, no entanto, só se confirma caso o euro supere o nível de € 1,1921. Em
estruturas triangulares, múltiplos desfechos permanecem possíveis”.
O primeiro objetivo foi atingido e, como se verifica na figura, na
sequência de ondas em laranja ainda falta a onda final V, que levaria o
euro para € 1,2222 ou, um pouco acima, para € 1,2349.
O S&P 500 fechou a 6969, com queda de 0,13%; o USDBRL a R$ 5,1930, sem variação; o EURUSD a € 1,1963, sem variação; e o ouro a U$ 5.401, com
queda de 0,31%.
Fique ligado!
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