Acabou a moleza #S&P 500
Nos últimos meses, os mercados globais passaram por uma rotação clara e relativamente ordenada, mas nem por isso trivial. Depois de anos concentrando apostas nas grandes empresas de tecnologia americanas, o fluxo começou a migrar para ativos considerados “baratos”, sobretudo fora dos Estados Unidos. A narrativa é conhecida: vender crescimento caro, comprar valor esquecido. O instrumento mais usado para justificar esse movimento também é velho conhecido: o múltiplo preço/lucro.
Essa rotação não surgiu do nada. Em vários momentos recentes, chamei
atenção para um ponto que costuma passar despercebido quando o mercado entra em
modo automático. O retorno obtido no ano passado teve naturezas muito distintas
conforme a geografia e o tipo de ativo. Nos Estados Unidos, boa parte do
desempenho veio do crescimento efetivo dos lucros. Já em outros segmentos —
como empresas menores, mercados emergentes e Europa — o avanço foi
majoritariamente explicado por expansão de múltiplos. Não é um detalhe técnico
irrelevante. É a diferença entre ganhar dinheiro porque a empresa melhora e
ganhar dinheiro porque alguém aceita pagar mais pelo mesmo resultado.
O movimento descrito acima aparece com nitidez nos dados recentes de
desempenho relativo. Mercados como Coreia do Sul, Brasil, México e Taiwan
passaram a liderar os rankings de retorno, enquanto o índice americano perdeu
tração relativa. Isso alimentou uma leitura apressada de que o chamado
excepcionalismo americano teria acabado ou que estaríamos diante de uma ruptura
estrutural. Não compro essa tese. O que houve, até aqui, foi uma recomposição
de portfólio depois de uma concentração extrema em ativos americanos.
Outro ingrediente que ajudou a empurrar essa rotação foi a desconfiança
crescente em relação ao dólar e à trajetória da dívida pública dos Estados
Unidos. Esse movimento costuma ser rotulado como “desvalorização monetária”,
mas prefiro traduzi-lo de forma direta: trata-se de um questionamento sobre até
que ponto a moeda e o balanço soberano conseguem sustentar déficits elevados
sem custo.
Os dados de fluxo confirmam essa leitura. Entradas expressivas em fundos
internacionais e emergentes mostram que a busca por alternativas deixou de ser
discurso e virou decisão prática. O curioso é que esse movimento ocorreu mesmo
sem uma deterioração clara dos fundamentos americanos.
O problema começa quando o mercado passa a extrapolar. Aquilo que era
barato deixa de ser tão barato em silêncio. O material recente de Ed Yardeni
deixa isso evidente. Desde o fim de 2022, os múltiplos projetados dos mercados
emergentes subiram de forma consistente.
Ao mesmo tempo, ocorreu o movimento oposto nas grandes empresas de
tecnologia. Depois de um período de euforia, os múltiplos passaram por ajuste.
A Nvidia negocia hoje em torno de vinte e quatro vezes o lucro, um número
razoável para uma empresa com crescimento robusto.
Esse descompasso cria um cenário curioso. Se o movimento atual fosse
levado ao extremo, chegaríamos a uma inversão conceitual: mercados emergentes
tratados como empresas de crescimento estrutural e empresas de tecnologia
vistas como apostas quase defensivas. Vale lembrar um ponto básico: múltiplos só se
sustentam com crescimento de lucro. Expansão de preço sem entrega recorrente de
resultado tem prazo de validade.
Em síntese, o recado é simples e
deliberadamente incômodo: a fase fácil ficou para trás. A rotação que parecia
óbvia já foi precificada em boa medida. O mercado está menos tolerante com
narrativas preguiçosas. Acabou a moleza.
Análise Técnica
No post “As economias estão bombando”, fiz os seguintes comentários
sobre o S&P 500:
“Na figura, a onda C laranja pode ter se encerrado em uma
retração menor, conforme indicado pelo símbolo vermelho, ou ainda pode
escorregar até 6.804.”
A máxima ainda não foi rompida, portanto não solto rojões. É necessário
que isso ocorra para validar o movimento. Caso haja o rompimento, o objetivo
projetado seria 7.578. De forma mais conservadora, sigo observando o nível de
7.262.
O S&P 500 fechou a 6.941, com queda de 0,33%; o USDBRL a 5,1960, sem
variação; o EURUSD a € 1,1894, com queda de 0,18%; e o ouro a U$ 5.027, com
queda de 0,61%.
Fique ligado!
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