O maior cliente manda #IBOVESPA


Acordei esta manhã com uma notícia que, para quem acompanha mercados há décadas, tem o cheiro inconfundível de ponto de virada: o Irã estaria avaliando uma proposta norte-americana para encerrar quase dez semanas de guerra. Trump, fiel ao seu estilo, não perdeu tempo e declarou vitória nas redes sociais antes mesmo de qualquer acordo ser assinado. Mas há um terceiro personagem nessa história — e, na minha avaliação, o mais decisivo de todos: a China.

Para entender o que está acontecendo, é preciso compreender uma estatística que resume tudo: a China compra em torno de 90% do petróleo exportado pelo Irã. Não é parceria — é dependência estrutural. E dependência estrutural, como qualquer empresário experiente sabe, é uma faca de dois gumes.

Nas últimas semanas, os Estados Unidos vinham tentando sufocar as finanças iranianas pelo bloqueio naval e pela ameaça de sanções secundárias a quem comprasse o petróleo iraniano — leia-se, a China. Robin Brooks, em análise cirúrgica publicada na semana passada, mostrava que o bloqueio, ao contrário do que parte da imprensa alardeava, estava funcionando. O Rial iraniano despencou 20% frente ao dólar desde meados de abril. O canal financeiro — fuga de capitais e pânico interno — foi o primeiro a ser atingido. Os demais canais, redução de receita e esgotamento dos estoques de petróleo, ainda estavam se formando.



Para driblar o bloqueio, o Irã chegou a enviar seu petróleo por via aérea — uma solução cara e insustentável no médio prazo. Os tanques de armazenagem começavam a transbordar, sem para onde escoar a produção. A pressão era real, ainda que alguns analistas ligados ao setor de energia tentassem vender a narrativa do fracasso do bloqueio. Brooks foi direto: boa parte desses analistas faz lobby pela indústria do petróleo, que detesta qualquer perturbação no seu mecanismo de geração de caixa.



A China tinha reservas suficientes para aguentar meses sem o petróleo iraniano — o abastecimento imediato não era o problema. O problema era a matemática. Em condições normais, Pequim compra o petróleo iranïano com desconto significativo sobre o preço de mercado — uma vantagem que os iranianos concediam para garantir o único comprador que restou. O restante do que a China consome vem do mercado global, a preço cheio. Com a guerra e o bloqueio do estreito de Hormuz, esse equilíbrio desmoronou de dois lados ao mesmo tempo: Pequim perdeu o petróleo barato que recebia do Irã e, por conta da disrupção no Hormuz, passou a pagar mais caro também pelo restante. Duplo golpe, conta dobrada — numa economia que ainda patina na recuperação interna. Esse sim era o problema que não dava para ignorar.

Foi assim que a China entrou em campo — não como pacificadora benevolente, mas como maior comprador que não quer continuar pagando cada vez mais caro pelo mesmo produto. O chanceler Wang Yi convocou o chanceler iraniano Araghchi a Pequim e, na linguagem diplomática que encobre ultimatos, deixou o recado: o estreito de Hormuz precisa ser reaberto. A mensagem foi recebida. O Irã sinalizou que avaliaria a proposta norte-americana, com resposta prevista via Paquistão em dois dias.

O efeito nos mercados foi imediato. O Brent despencou mais de 10%, caindo abaixo de cem dólares por barril pela primeira vez desde o fim de abril. Os títulos soberanos globais subiram. O mercado apostou na distensão — com a cautela de quem sabe que Trump já anunciou "grande progresso" com o Irã mais de uma vez sem que nada concreto emergisse.

Há um detalhe que não pode passar em branco: enquanto toda essa diplomacia se desdobrava, o Wall Street Journal revelava que empresas chinesas de pequeno porte continuavam abastecendo fábricas de drones no Irã e na Rússia com componentes de duplo uso — motores, baterias, cabos de fibra ótica — desafiando abertamente as sanções americanas. A Xiamen Victory Technology chegou ao cúmulo de enviar um disparo de e-mail de marketing durante os bombardeios, solidarizando-se com o Irã e oferecendo motores para drones de ataque. Discreto, não é? Pequim, quando questionada, respondeu que cumpre suas obrigações internacionais. Alguém acredita?

Trump, por sua vez, suspendeu a operação que batizou de Projeto Liberdade — iniciativa para escolta de navios pelo estreito de Hormuz — depois de apenas um dia, quando o Irã reagiu com mísseis contra os Emirados Árabes. Pausou, disse que havia "grande progresso", e manteve o bloqueio nos portos iranianos. O ministro israelense de Energia foi mais direto: "Conhecemos os iranianos — dizem uma coisa, querem outra." Difícil discordar.

Há uma lição de gestão nua e crua em tudo isso — e é a que mais me interessa. Qualquer empresário com experiência de mercado conhece a regra de ouro: nunca dependa de um único cliente. O Irã quebrou essa regra de maneira espetacular. Não foi uma escolha — foi o resultado de décadas de sanções que fecharam todas as outras portas. Restou a China. E quando restou apenas a China, a China passou a mandar.

Tomou um golpe de direita dos Estados Unidos e um golpe de esquerda da China — literalmente. O cliente que compra tudo tem poder de veto sobre tudo. Essa é a aritmética implacável do mercado, válida tanto para republiquetas que vendem petróleo quanto para empresas que concentram 80% do faturamento em um único contrato.

O desfecho desta guerra ainda é incerto. As negociações sobre o programa nuclear iraniano sequer começaram — ficaram para "uma fase posterior", segundo os envolvidos. O estreito de Hormuz, por onde passava um quinto do petróleo e gás natural do mundo antes do conflito, continua parcialmente bloqueado, com mais de 1.550 navios comerciais e 22.000 marinheiros retidos no Golfo. A cúpula Trump-Xi, marcada para meados de maio, será o próximo palco.

O mundo assiste. Os mercados precificam. E o Irã aprende, da pior maneira possível, o que significa ter um único cliente — e o que acontece quando esse cliente decide que já é hora de mandar a conta.

 

Análise Técnica

 No post “Nunca se apaixone por um investimento” fiz os seguintes comentários sobre o Ibovespa:

 “Ao analisar a bolsa nesta última semana, fiquei na dúvida entre duas hipóteses: se a contagem está correta e estamos entrando num longo período de correção da onda 4 verde, ou se seria necessário considerar mais uma subdivisão das ondas de menor grau para encaixar uma nova alta da onda 3 verde, que ainda estaria em andamento.”

 


Vou continuar com minha premissa pelos motivos que comentei no post acima. Caso não se confirme, a bolsa teria que reagir imediatamente para cima. As linhas tracejadas em azul indicam os possíveis níveis de retração: 168,6 mil, 158,9 mil e 149,2 mil. Meu preferído seria o primeiro ou, talvez, o segundo — ainda assim, no primeiro caso, uma queda de 12%.

 Uso dois racionais para sustentar essa queda:

 Muitos analistas têm alertado que a alta da bolsa brasileira foi puxada pelas grandes empresas, sem que as menores acompanhassem o movimento. Há duas razões para isso: primeiro, o investidor estrangeiro — um motor importante da alta — busca liquidez; segundo, cerca de 40% do índice está ligado a empresas de mineração e energia — só a Petrobras representa 15%. Se a guerra acabar, essas empresas podem sofrer recuo em função da queda nos preços das commodities.

 Em relação às pequenas empresas, um receio adicional pode surgir pelo elevado índice de inadimplência e de recuperação judicial, onde o nível dos juros é grande responsável. A inflação deve permanecer elevada por algum tempo e o governo vai gastar sem parcimônia na tentativa de se reeleger — não vejo como o Banco Central possa reduzir os juros para aliviar esse cenário.

 


— Epa, David, virou fundamentalista?

 Hahaha. Não — não sou cego nem surdo. Observo o que acontece ao redor.

 Atenção: Estão vendo o símbolo cinza que destaquei no gráfico? Pois bem, ele denota que o movimento das ondas 1, 2 e 3 verde equivale a aproximadamente 100% do movimento anterior. E se por acaso a bolsa cair abaixo de 134,4 mil pontos, fica abortado o cenário de alta de longo prazo. Não acho que seja o caso, mas vale a observação.

O S&P 500 fechou a 7.365, com alta de 1,46%, estou atualizando o stop loss para 7.272, bem como na nasdaq100 que informo amanhã; o USDBRL a R$ 4,9373, com alta de 0,16; o EURUSD a € 1,1749, com alta de 0,48%; e o ouro a U$ 4.691, com alta de 2,94%.

Fique ligado!

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