Yen: the bad boy #IBOVESPA
Eu me recordo quando era mais ativo nos mercados de câmbio de ter surfado um rally importante do yen. Em junho de 2007 a moeda japonesa estava em ¥124 e em 2011 atingiu a mínima de ¥75, uma valorização de 40% - vale frisar ao leitor menos familiarizado com moedas que essa cotação indica quantos yens são necessários para comprar 1 dólar, ou seja, quanto menor o número, mais forte o yen. Não peguei toda essa queda, mas embarquei numa boa parte dela. Naquela época todo mundo queria yen, era considerado o porto seguro por excelência.
O Japão vinha enfrentando décadas de deflação e respondeu com uma política monetária extremamente frouxa, juros em 0% e títulos longos que rendiam migalhas aos poupadores. Os japoneses, cansados dessa remuneração pífia, passaram a buscar retorno maior no exterior, e os investidores globais começaram a ficar mais receosos com a montanha de dívida acumulada pelo país. Desde então o yen entrou numa escalada de desvalorização, com períodos de estabilidade no meio do caminho.
evolução do câmbio dólar/yen desde 2024, mostrando os episódios de intervenção. Fonte: artigo "What to Make of the Latest Yen Intervention", Robin J. Brooks, Shadow Price Macro]
Para não permitir uma desvalorização desordenada, o Banco do Japão (BOJ) tem feito intervenções recorrentes, mas o efeito prático tem sido cada vez mais curto - Robin Brooks enfatiza que a eficácia dessas intervenções está encolhendo, com o câmbio voltando a se deteriorar mais rápido a cada rodada. Diante disso, Tóquio pediu ajuda ao Tesouro americano. O Secretário Scott Bessent comprou yen e vendeu euros que tinha em posição - repare que ele não quis vender dólares, preferiu usar seu estoque de outra moeda. Uma decisão sem razão econômica óbvia, que Trump certamente vai cobrar dos japoneses de alguma forma mais adiante.
Segundo Brooks, a intervenção tem vida curta porque o Japão não enfrenta o problema pela raiz, que seria elevar os juros de forma significativa ou reduzir sua carteira de ativos financeiros no exterior - algo em torno de 82% do PIB, diga-se. No passado, foi exatamente essa falta de ação estrutural que fez as intervenções anteriores perderem força rapidamente.
Bessent, por sua vez, sinalizou que pode haver ação adicional, e argumentou que a fraqueza do yen aumenta o risco de uma desvalorização mais ampla em toda a Ásia - e que os Estados Unidos, de alguma forma, tirariam "benefício financeiro" da intervenção. É curioso ver um ex-gestor de hedge fund, que já apostou contra o yen no passado quando trabalhava com Soros, hoje do outro lado da mesa, defendendo justamente a moeda que ajudou a derrubar.
Enquanto essa queda de braço entre intervenção e mercado segue, o dia a dia da economia japonesa reflete bem esse desequilíbrio. Bancos estão lucrando com a curva de juros mais inclinada, indústrias exportadoras se beneficiam do yen fraco, e o setor de tecnologia surfa o boom de inteligência artificial. Do outro lado, o consumidor de baixa renda paga a conta - mais caro para importar, mais caro para consumir energia, e sofrendo os efeitos de uma inflação que não dá trégua. Um yen mais forte ajudaria a redistribuir parte desses ganhos para o consumidor e para setores que ficaram para trás, como setor de energia e saneamento, saúde e bens de consumo básico.
Aqui vale abrir um parêntese, porque o mercado está dividido sobre um ponto crucial: o yen está barato ou caro? A Gavekal, olhando pelos quatro prismas que usa para qualquer ativo - fundamentos, posicionamento, momentum e valuation - conclui que o yen é uma mola comprimida: fundamentos sólidos (Japão tem o maior superávit em conta corrente e o menor déficit fiscal do G7), posicionamento ainda leve, momentum negativo desde as tarifas de abril de 2025 e valuation esticada para baixo. Bessent parece comprar essa tese.
Brooks discorda frontalmente, e a discordância é o ponto mais interessante desse debate todo. Para ele, o yen não está barato, está caro. A lógica é a seguinte: o BOJ mantém os juros longos artificialmente reprimidos comprando títulos públicos sem parar, e por isso o chamado "shadow yield" - onde a taxa de 30 anos estaria se o BOJ não interferisse - está pelo menos 300 pontos-base acima do nível atual. Essa repressão transfere o estresse fiscal do mercado de títulos para o câmbio. Em outras palavras, o yen não está barato por acaso, ele está sendo impedido de precificar o risco fiscal japonês, e é justamente por isso que segue fraco.
A verdade é que, nos últimos anos, o yen deixou de ser aquele porto seguro que me rendeu bons resultados lá atrás para se tornar, agora, o "bad boy" do mercado de câmbio - ninguém quer ficar comprado nele, e cada intervenção parece durar menos que a anterior.
Análise Técnica
No post "o-eclipse-das-sete-magnificas", fiz os seguintes comentários sobre o Ibovespa:
"Fico mais confiante que uma onda B vermelha está em andamento e, no curto prazo, sugere um triângulo que destaquei com a elipse vermelha, onde a última perna está se formando. Daqui a pouco, um movimento de alta deve se suceder, levando até os níveis apontados no retângulo laranja."
O triângulo acabou rompendo, mas sem nenhuma força, na mesma forma letárgica com que a bolsa vem caminhando desde junho; é visível a diferença pela inclinação da reta traçada em verde. Enquanto as bolsas internacionais continuam a alta iniciada este ano, o Ibovespa perdeu o brilho. Será que os investidores se desanimaram com a possibilidade de um Lula 4? O que, se ocorrer, já não seria em tempo.
O ministro tampão da Fazenda, Dario Durigan, que nem sabemos se será mantido no cargo, vem tentando convencer a Faria Lima de que o governo irá fazer um esforço fiscal para evitar uma alta descontrolada da dívida pública. O mesmo é visto com muita desconfiança - basta ver o track record do governo.
Também seria bom que eles entrassem em acordo, pois Sérgio Gabrielli, coordenador de campanha do governo, diz o contrário sobre os gastos do governo e até aventou a hipótese de controle de fluxo de capitais - esse assunto é como mexer num vespeiro.
Se o leitor não se lembra bem quem é Gabrielli, ele foi presidente da Petrobras na época da Lava Jato - ou seja, não sei como ainda pode exercer um cargo de "confiança" no PT!
Bem, mas o compromisso é com o bolso, e como ocorre de tempos em tempos, a bolsa brasileira não apresenta oportunidade para os investidores.
O S&P 500 fechou a 7.723, com queda de 0,17%; o USDBRL a R$ 5,1431, sem variação; o EURUSD a € 1,1552, com alta de 0,17%; e o ouro a U$ 4.249, com alta de 4,21%.
Fique ligado!
Comentários
Postar um comentário