O eclipse das Sete Magníficas #IBOVESPA



As menções às Sete Magníficas praticamente sumiram das manchetes, e isso não deveria surpreender ninguém que acompanha o mercado há tempo suficiente. A cada nova tecnologia surge um grupo de empresas que passa a polarizar as atenções por um período, até que a moda se esgota e uma nova protagonista toma seu lugar. Mais recentemente foi a vez das fabricantes de chips, redescobertas do dia para a noite quando a demanda por data centers explodiu muito além do que qualquer um esperava. O lucro disparou, e o mercado, como sempre faz, apressou-se a projetar esse crescimento para o futuro indefinidamente.

Mas surgiu um probleminha que sempre aparece nessas histórias: de onde vem o dinheiro para sustentar investimentos dessa magnitude? Primeiro, as empresas recorreram ao caixa, e não eram caixas pequenos. Não foi suficiente. Partiram então para os empréstimos, e aí a bola de neve começou a crescer. Cada uma montou um programa de investimento tão ambicioso quanto o da concorrente, um verdadeiro pé no acelerador que deixou Wall Street desconfiada de que esse dinheiro todo não vai se pagar. Esse fantasma, o de que os bilhões investidos em capacidade de processamento nunca retornem o capital empregado, já ronda os investidores, que começaram a liquidar posições nas gigantes de tecnologia e migrar para empresas mais tradicionais, as que costumo chamar de "papai-mamãe": bancos, seguradoras, farmacêuticas, negócios que não prometem crescimento estonteante mas entregam renda previsível.

O resultado dessa migração já aparece nos números. O S&P 500 de peso igual, aquele que dá o mesmo peso a cada uma das quinhentas empresas do índice, bateu recorde histórico e ultrapassou o Nasdaq 100, que por sua vez está a um triz de completar uma correção de 10%. A dispersão dentro do próprio mercado chama atenção: as 25 ações de melhor desempenho do Russell 1000 no primeiro semestre, a maioria delas ligada a semicondutores e infraestrutura de inteligência artificial, caíram em média mais de 36% neste mês. As 25 piores do semestre, em contrapartida, subiram 14%. É a narrativa se invertendo diante dos nossos olhos, sem que tenha havido nenhuma notícia corporativa relevante que justifique um giro tão abrupto.



Enquanto o apetite dos investidores por ações de tecnologia esfria, o custo para financiar essa mesma tecnologia está subindo. Uma oferta de US$ 12,5 bilhões em títulos ligados a um projeto de data center da Meta no Texas saiu a uma taxa de 7,5% ao ano, quase três pontos percentuais acima do Tesouro de dez anos, um prêmio maior do que o pago em uma operação parecida no ano anterior. A oferta de novos títulos de empresas ligadas a inteligência artificial já soma US$ 270 bilhões neste ano, quase o dobro do total emitido em todo o ano passado.

Diante desse custo crescente da dívida, as próprias hiperescalares, como o mercado batizou as gigantes que sustentam a infraestrutura de inteligência artificial, passaram a preferir levantar capital via emissão de ações, historicamente mais barata para elas do que a dívida, dado o múltiplo generoso a que seus papéis são negociados.



A consequência é que 2026 pode se tornar o primeiro ano em décadas em que a emissão líquida de ações nos Estados Unidos volta a crescer, revertendo o movimento de recompras que sustentou o mercado acionário por tanto tempo.



Mais oferta de papel no mercado tende a pressionar os preços para baixo, mais um ingrediente na receita que fez os investidores perderem o fôlego com a narrativa das Sete Magníficas.

Tudo isso tem acontecido de forma rápida e intensa, e é natural que os investidores fiquem receosos: afinal, é muito dinheiro apostado em algo ainda novo. Contribui para essa desconfiança o fato de estar em curso, entre os provedores desses serviços, uma guerra de preços que comentei aqui no post "liquidação-de-tokens". Não tenho dúvida de que muitas empresas vão quebrar nesse processo, como aconteceu no início dos anos 2000 com as pontocom. Mas há uma diferença importante entre aquele momento e este: ali, o faturamento bilionário projetado pelo mercado era torcida, uma promessa distante. Hoje, é uma realidade que já aparece nos balanços.

Não sei dizer se o que vivemos agora é apenas um temor passageiro, e se daqui a dez anos o uso da inteligência artificial estará tão disseminado, de formas tão distintas, que mesmo um preço baixo multiplicado por bilhões de usuários vai justificar os investimentos atuais. Outra ponderação que julgo necessária: as Sete Magníficas são empresas sólidas, com histórico de décadas, e desacreditar seus gestores como se fossem inconsequentes me deixa com dúvidas. Posso garantir que eles têm tantas incertezas quanto nós, só que bem menos, e não chegaram ao topo sendo aventureiros.

Vale lembrar que as Sete Magníficas nunca formaram um bloco homogêneo. A Apple, tantas vezes criticada por não ter conseguido firmar um pé forte em inteligência artificial, ainda assim voltou a superar a Nvidia como a empresa mais valiosa do mundo, ao atingir US$ 5 trilhões de valor de mercado nesta semana. É um lembrete de que, mesmo dentro do mesmo grupo, os destinos podem divergir bastante.

Contra elas, no entanto, pesa a história: as líderes de mercado raramente permanecem no topo por muito tempo. John Authers, da Bloomberg, batizou seu texto mais recente de "o pôr do sol das Sete Magníficas". Prefiro, por enquanto, falar em eclipse, um fenômeno passageiro, que obscurece sem necessariamente apagar.


Análise Técnica

No post "a-ação-da-aposentadoria" fiz os seguintes comentários sobre o Ibovespa:

"A onda A vermelha está "bonitinha", by the book, como se diz na gíria de mercado. Sendo assim, é necessária uma onda C vermelha — ainda não visível — que deve atingir níveis inferiores aos da onda A vermelha, ao redor de 160 mil, valor a ser mais bem calculado."



A bolsa brasileira caminha sem muita convicção, subindo um dia e caindo no outro, típico de correções. A cada dia que passa, fico mais confiante que uma onda B vermelha está em andamento e, no curto prazo, sugere um triângulo que destaquei com a elipse vermelha, onde a última perna está se formando. Daqui a pouco, um movimento de alta deve se suceder, levando até os níveis apontados no retângulo laranja — vou poder ter mais precisão caso a opção do triângulo esteja correta.



Eu me aventurei numa sugestão de compra alguns dias atrás e fomos estopados no zero a zero. Vocês devem se lembrar que comentei ser ondas B muito difíceis de operar: andam dois passos à frente e um, ou um e meio, para trás. Observem o movimento desde junho deste ano, onde se encontra a onda A laranja, e me digam se não foi desta forma que a bolsa andou.

O S&P 500 fechou a 7.316, com queda de 1,52%; o USDBRL a R$ 5,1274, com queda de 0,16%; o EURUSD a € 1,1449, com alta de 0,55%; e o ouro a U$ 4.049, com alta de 0,54%.

Fique ligado!

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