Encilhado #SP500


Amanhã o Fed anuncia o que vai fazer com a taxa de juros, e raramente vi um mercado tão dividido às vésperas de uma decisão dessas. Nos últimos anos, quase sempre dava para antecipar o resultado com boa margem de segurança, mesmo antes do comunicado oficial. Desta vez não.

A maioria não acredita que a autoridade monetária vá mexer nos juros agora. Mas isso não impede que o próprio mercado já trabalhe com elevações à frente. Os futuros de juros embutem hoje algo perto de 40% de probabilidade de uma alta de 0,25 ponto já nesta quarta-feira, e projetam praticamente duas altas completas até o fim do ano. É um grau de incerteza incomum para um Comitê que, até pouco tempo atrás, adorava sinalizar cada passo com antecedência.



futuros de juros do Fed — probabilidade precificada de alta na reunião desta semana e acumulada até o fim do ano

De um lado está a Citadel Securities, para quem Kevin Warsh vai surpreender o mercado com uma alta. A leitura da casa é que um aperto nesta semana reforçaria o compromisso do novo presidente do Fed com a estabilidade de preços e encerraria, de vez, a era em que o banco central avisava cada movimento com meses de antecedência. Para a Citadel, o mercado ainda subestima o quanto a postura do Fed sob Warsh pode ser mais dura do que se imagina, e um choque de energia recente reforçaria os argumentos a favor do aperto.

Do outro lado está Robin Brooks, para quem essa hipótese é um exagero. Ele lembra que o núcleo da inflação ao consumidor em junho veio comportado, sem sinal algum de aquecimento, e chama a atenção para o fato de que as leituras mensais deste ano ficaram na parte de baixo da distribuição histórica desde a pandemia.



núcleo da inflação ao consumidor (CPI) — variação mensal, 2023 a 2026

Para Brooks, subir juros agora seria um erro tático e conceitual: inflamaria a narrativa de que o Fed mudou de postura, o mercado passaria a precificar uma sequência de altas, e o Comitê ficaria encurralado por conta própria, num momento em que a curva de Phillips está achatada demais para justificar um aperto baseado em choque de oferta. Brooks vai além e diz que não espera nenhuma alta nem em 2026 nem em 2027, motivo pelo qual segue pessimista com o dólar.

Desde que Warsh foi escolhido para suceder Powell, venho comentando por aqui que seu perfil destoa bastante do resto do colegiado, e que mais cedo ou mais tarde essa diferença geraria atrito. Não demorou nada. O Wall Street Journal contou os detalhes de um jantar realizado na véspera da primeira reunião de Warsh como presidente, quando ele apresentou aos outros dezoito integrantes do Comitê seu plano de criar cinco grupos de estudo externos para reexaminar como o Fed lê a economia e se comunica com o público.

A reação veio do governador Christopher Waller, que não costuma medir palavras. Ele questionou publicamente o sentido de todo o exercício, insinuando que Warsh estava importando autoridade externa apenas para validar posições que já tinha antes de assumir o cargo. Não sei bem como Warsh reagiu na hora, mas o episódio expõe um problema prático: se numa empresa comum já é difícil contratar uma consultoria e efetivamente mudar alguma coisa, imagine dentro de um grupo formado pela nata do pensamento econômico americano, com mandato fixo e sem possibilidade de substituição. Waller foi finalista para a própria cadeira que Warsh ocupa hoje, o que só torna o atrito entre os dois mais simbólico.

Outro ponto que vem sendo criticado com força por economistas é a opção de Warsh por não dar guidance nenhuma sobre os próximos passos da política monetária. A ideia, segundo ele, é evitar que o próprio Fed fique preso às previsões que divulga e conseguir uma leitura mais limpa do que os investidores realmente pensam sobre a economia, sem o eco da sinalização do banco central. O problema é que esse silêncio tem gerado tensão dentro e fora do Comitê, e há quem já avise que, mais cedo ou mais tarde, Warsh vai precisar explicar para onde pretende levar a política de juros, sob risco de o mercado passar a precificar uma sequência de altas que o próprio Comitê nunca teve intenção de entregar.

É possível que, com o tempo, ele fique isolado caso insista em conduzir o Fed na contramão da visão predominante entre os demais membros. E a esse cenário se soma a pressão do presidente Trump que, mesmo com os indicadores de inflação pressionados, quer a qualquer custo que o Fed reduza os juros — uma contradição que Warsh terá de administrar sem abrir mão da credibilidade que prometeu reconstruir.

Diante desse cruzamento de forças, entre a leitura hawkish da Citadel, o ceticismo fundamentado de Brooks e a tensão interna que Warsh mesmo criou ao insistir no silêncio e nos grupos de estudo, o novo presidente do Fed corre o risco de ficar encilhado: preso entre expectativas que ele mesmo ajudou a inflar e um cenário que não deixa espaço confortável para nenhuma das duas decisões possíveis nesta quarta-feira.


Análise Técnica

No post “Warsh-latiu-mas-ainda-não-mordeu”, fiz os seguintes comentários sobre o S&P 500:

“Eu esperaria que a correção em andamento ficasse contida até aproximadamente 7.400. Caso esse nível seja rompido, é porque a onda (2) vermelha não acabou e deveria encontrar suporte na área em azul, entre 7.290 e 7.230.”



Tenho a impressão de que estamos como em um jogo de futebol que está 0 x 0, e nem seu time nem o adversário estão se esforçando para liquidar a partida. Sem dúvida, esse cenário é compatível com as férias no hemisfério Norte. Na partida de Mercado, chutamos uma bola na trave e o adversário contra-atacou em seguida.

Nos últimos três dias, o S&P 500 tentou romper a marca de 7.400, negociando abaixo desse nível, mas fechou acima de 7.400, indicando que vai esperar até amanhã para decidir seu caminho, dependendo do que o Fed decidir.



Enquanto isso, o mercado resolveu dar um basta ao oba-oba das empresas de semicondutores, indicando que o céu não é o limite. Acontece que as quedas de preços expressivas dos últimos dias, associadas a expectativas cada vez mais elevadas dos lucros, fazem com que o P/L fique barato. Como esse é o parâmetro que o mercado mais venera e no qual acredita, alguém vai ter que ceder: ou os lucros não serão os projetados, ou os preços voltarão a subir.

O S&P 500 fechou a 7.428, com alta de 0,21%; o USDBRL a R$ 5,1363, com alta de 0,12%; o EURUSD a € 1,1391, com alta de 0,12%; e o ouro a U$ 4.026, com queda de 1,18%.

Fique ligado!

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