A bomba japonesa #OURO #GOLD #EURUSD


A retórica contra o dólar sossegou por enquanto. Os economistas que vinham martelando o tema da desvalorização estrutural da moeda americana mudaram o alvo: agora falam do déficit fiscal dos Estados Unidos. A trajetória e o nível de endividamento preocupam, mas não me parece um problema para o próximo trimestre. A outra incógnita que pairava sobre o mercado era saber como Kevin Warsh se portaria à frente do Fed. Suas últimas aparições públicas, inclusive a de ontem em Sintra, confirmaram o viés que eu já esperava: conservador, disposto a subir os juros se a inflação insistir em ficar acima da meta de 2%. O quadro americano, por ora, está razoavelmente definido.

O problema é que, enquanto todos os olhos seguem fixos em Washington, do outro lado do mundo pode estar se desenhando algo mais sério. Estou falando do Japão. Qualquer economista com um mínimo de bagagem sabe que aquele país carrega uma dívida pública de 240% do PIB há décadas. Financiar esse monstro sempre foi possível porque os juros ficavam em frações de percentagem ao ano — dava para empurrar com a barriga enquanto a economia japonesa patinava. O governo até detém uma carteira relevante de ações que poderia vender para abater a dívida, mas isso não acontece: são gestões distintas, um cofre que não conversa com o outro. O Banco do Japão (BOJ), por sua vez, sempre evitou a todo custo um movimento de "bear steepening" — quando os juros dos prazos mais longos sobem mais rápido que os curtos, inclinando a curva de forma abrupta — comprando maciçamente títulos no mercado. Na prática, isso maquiava a taxa de juros real do país.

Esse arranjo produziu um processo longo e silencioso de desvalorização do iene, descolado do que acontecia entre o dólar e as demais moedas globais. Funcionou durante anos. Sempre imaginei que essa fosse uma preocupação constante das autoridades japonesas, porque no fundo todos sabiam que aquilo não poderia durar ad infinitum. E o dia chegou com a pandemia, que elevou a inflação japonesa muito além do que a própria desvalorização cambial já vinha corroendo.

 


Diante disso, o BOJ decidiu abandonar a política de juros próximos de zero e começou, lentamente, a subir as taxas. Tenho uma frase que uso desde o início da minha carreira: juro não tem data para subir, sobe de imediato. Quero dizer com isso que, quando os juros precisam subir por qualquer razão, mesmo que o banco central administre o processo em doses homeopáticas, os títulos mais longos reagem na hora — o mercado não espera o calendário do banqueiro central. É exatamente o que está acontecendo no Japão: a autoridade monetária tenta subir os juros de forma gradual, mas o gráfico a seguir mostra como essa dosagem ainda está defasada frente ao juro de equilíbrio que o mercado vem impondo diante do tamanho da dívida.

 


Essa dinâmica empurrou o dólar para cima frente ao iene, que hoje já opera em níveis comparáveis aos de 1986 — só que, naquele momento, a trajetória do iene era de valorização, não de queda. É o oposto do que vemos agora. Some-se a isso outro detalhe que pouca gente nota: até pouco tempo atrás, o iene dividia com o franco suíço o posto de porto seguro nos momentos de crise. Essa vantagem, o Japão perdeu. Sobrou só o franco.

Os números de mercado desta semana dão a dimensão do problema. O dólar/iene operava em torno de 162,56 na manhã de quinta-feira em Tóquio, e as projeções para o pior cenário já não são mais tabu entre as grandes casas: a T. Rowe Price, gestora de US$ 1,89 trilhão, enxerga 169 como piso de estresse; o Mizuho Bank traça a linha em 170; o Sumitomo Mitsui, segundo maior banco do Japão, já mapeou 180 como um dos desfechos possíveis nos próximos anos; e gestores como Jesper Koll, da Monex, e Calvin Yeoh, da Blue Edge Advisors, não descartam 200 e além, caso o BOJ continue atrasado no aperto monetário. Os hedge funds, por sua vez, elevaram suas apostas baixistas no iene ao maior volume desde 2017.

O analista Robin Brooks, que venho acompanhando de perto, insiste num ponto que considero central: a intervenção oficial no câmbio simplesmente não funciona, porque trabalha contra a própria política monetária. Enquanto o Ministério das Finanças vende reservas para comprar iene e sustentar a moeda, o BOJ segue comprando títulos públicos para conter os juros longos — e essa compra de bonds é, na prática, afrouxamento monetário, que por definição enfraquece a moeda. São dois braços do mesmo governo trabalhando um contra o outro. Em maio, o Japão gastou US$ 74 bilhões numa intervenção que não durou nem algumas semanas — o iene voltou exatamente para onde estava antes. Pior: para conseguir dólares e defender sua moeda, o país precisa vender Treasuries americanos, o que empurra os juros dos EUA para cima justamente num momento em que o mercado de títulos globais já está sob estresse. A disfunção japonesa está, portanto, contaminando o resto do mundo.

 




A colunista da Bloomberg, Daniel Moss, resumiu bem o quadro nesta semana: o governo japonês não vai forçar uma virada na moeda diante da força renovada do dólar, que vem se beneficiando do compromisso público do novo presidente do Fed com o combate à inflação. As autoridades japonesas seguem em contato próximo com os Estados Unidos sobre câmbio, mas até agora se limitam ao discurso — nenhuma ação concreta além da retórica.

A situação japonesa é dramática porque, até pouco tempo, o país financiava sua dívida com juros baixos e negativos em termos reais. Isso acabou, e não vai voltar. Mesmo que a maior parte dessa dívida esteja nas mãos de investidores locais — o que dá algum colchão de segurança —, em algum momento o mercado vai questionar a solvência do país. Só um crescimento econômico superior ao custo da dívida poderia estancar essa trajetória, e mesmo assim seria necessário crescer muito e rápido para trazer os números a um patamar razoável. Não vejo isso no horizonte.

Fico, então, com a mesma dúvida que carrego há meses: tanto se fala do risco fiscal americano, mas pode ser que a bomba esteja armada em outro lugar — e que estoure no Japão antes de estourar nos Estados Unidos.


Análise Técnica

No post "não-deixe-ações-para-seus-netos" fiz os seguintes comentários sobre o ouro:

"O ouro atingiu a mínima de US$ 3.960, ficando dentro dos objetivos assinalados acima. Uma leve recuperação se iniciou hoje, mas nada que pudesse indicar uma reversão. Caso a queda continue, o próximo objetivo seria em US$ 3.637 / US$ 3.580 (↓ 10%)."



A publicação dos dados de emprego deu um certo alívio ao mercado: a inclusão de 57 mil novos postos, abaixo da previsão de 117 mil, fez com que o mercado revisse sua expectativa de alta de juros, deslocada agora para dezembro. Um pouco surpreendente foi a taxa de desemprego, que recuou para 4,2%. Conclusão: nenhum problema por aí. O ouro reagiu a esses dados com alta superior a 2%, o que dá uma pequena esperança na opção de alta — não se animem, eu disse pequena. Vamos acompanhar os próximos dias e, caso se concretize um movimento em 5 ondas, posso pensar num trade de compra.




Em relação ao euro, comentei:

"Depois de ter tentado subir de todas as formas, a moeda única rompeu o nível de € 1,14, o que me levou a analisar o euro numa janela mais longa. É um gráfico bem confuso, com inúmeras correções se sucedendo... Notem que o gráfico a seguir é em escala mensal — só serve para ver o 'Big Picture'."




Assim como o ouro, o euro deu um salto com a publicação dos dados de emprego, voltando para dentro do retângulo em verde onde a moeda única permanece nos últimos 12 meses — um vai e vem entre € 1,19 e € 1,14, sem se definir para onde quer ir. Vamos observar nos próximos dias se essa alta foi um "false break" ou um "final kiss" em € 1,14. Para a opção de queda, € 1,15 seria o stop loss; por outro lado, um rompimento sem que atinja o stop loss em € 1,1324 dá continuidade ao movimento das últimas semanas. Se vale um trade de venda ainda não sei, mas fiquem atentos.



O S&P 500 fechou a 7.482, sem alteração; o USDBRL a R$ 5,2253, sem variação; o EURUSD a € 1,1430 com alta de 0,48%; e o ouro a U$ 4.119, com alta de 2,19%.

Fique ligado!

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