Na semana que vem
o Federal Reserve se reúne novamente para decidir os rumos da política
monetária americana, e é ali que Kevin Warsh vai finalmente ter que mostrar a
que veio. Até agora, suas aparições públicas revelam um profissional de viés
claramente monetarista: ele repete, sempre que pode, que se a inflação está
fora da meta os juros estão baixos — raciocínio clássico de quem aprendeu
economia nos livros certos. E o fato é que, mesmo com o índice de preços ao
consumidor mais ameno nos últimos meses, a inflação americana já está acima da
meta de 2% ao ano há cinco anos consecutivos.
O mercado, por
enquanto, não está apostando em uma alta na reunião da semana que vem: a
probabilidade embutida nos preços gira em torno de apenas 15%, um contraste e
tanto com o que se via poucas semanas atrás. Mas olhando um pouco mais à
frente, o quadro muda de figura — para a reunião de setembro, cerca de dois
terços dos participantes já esperam uma alta, e para o fechamento do ano, em
dezembro, praticamente 82,5% do mercado projeta que os juros terão subido em
algum momento. É o que mostra o gráfico a seguir.
Dito isso,
cuidado para não extrapolar demais esses números. Quem opera sabe que esse tipo
de aposta muda de humor com uma velocidade impressionante — e isso tende a
piorar agora que o novo presidente do Fed já avisou que não vai mais distribuir
dicas ao mercado como seus antecessores faziam. Cada um que monte seu próprio
prognóstico; o guidance morreu, pelo menos por enquanto.
Eu,
particularmente, não acredito que haverá mudança de juros já nesta reunião. Mas
ela vai servir para entender melhor as intenções de Warsh daqui para frente — e
aqui vale reunir o que pensam alguns dos analistas que mais respeito neste
momento.
O Goldman Sachs,
pela pena de Jan Hatzius, considera que os dados de junho praticamente
eliminaram qualquer chance de alta já na reunião de julho; uma eventual alta em
reuniões seguintes exigiria uma inflação bem mais quente, ou um desemprego bem
mais baixo, do que o banco projeta hoje. O cenário-base do próprio Goldman,
aliás, está bem mais dovish que o mercado: eles enxergam cortes de juros só a
partir de 2027. A ressalva importante é o petróleo — com a escalada renovada no
Oriente Médio, os riscos para o preço do barril estão claramente enviesados
para cima, o que pode reacender a inflação por uma via que ninguém controla no
curto prazo.

Já a equipe de Ed
Yardeni pensa diferente, e mantém viva a aposta de que ainda vai sair uma alta
de juros este ano — mesmo com o CPI de junho surpreendendo para baixo. O
argumento central é que a missão do Fed simplesmente não foi cumprida: a
inflação medida pelo deflator de consumo segue bem acima da meta há cinco anos.
Some-se a isso riscos relevantes de alta na inflação de bens — a Apple já subiu
o preço de MacBooks e iPads entre 15% e 25% por causa do encarecimento de
memória puxado pela demanda de inteligência artificial —, uma inflação de
serviços que segue teimosamente resistente fora do item moradia, e um petróleo
que deixou de ajudar e pode voltar a atrapalhar, com a gasolina ameaçando subir
de novo por causa da tensão renovada em torno do Estreito de Hormuz.

E tem ainda Bill
Dudley, ex-presidente do Fed de Nova York e hoje colunista da Bloomberg,
defendendo abertamente que o banco central precisa apertar a política monetária
independentemente de um dado ou outro mais favorável. O argumento dele é que as
condições financeiras atuais simplesmente não são restritivas: bolsa nas
máximas, spreads de crédito apertados, juros longos moderados — o próprio
índice de condições financeiras do Fed mostra um nível de estímulo à economia
que não se via desde o início de 2022, quando os juros estavam perto de zero.
Para completar, o boom de investimento em inteligência artificial está, na
prática, empurrando os preços para cima em vários pontos da cadeia, da
eletricidade aos chips. E há a questão da credibilidade: se o Fed enrolar
demais, o mercado pode passar a enxergar o discurso duro de Warsh como pura
encenação.
Eu digo, e sempre
disse, que os juros podem subir por dois motivos: um bom, quando a economia
está mais aquecida do que o desejável, e um mau, quando a inflação simplesmente
foge do controle. No caso americano, acredito que os dois motivos estão
presentes ao mesmo tempo — o que torna o cenário de alta bem mais robusto do
que o mercado parece precificar hoje.
E como taxa de
juros não tem data marcada para subir, quem sofre a pressão o tempo todo é o
título de 10 anos, que se encontra hoje em um nível tecnicamente perigoso. No
post de final de ano, "o-mercado-sempre-ganha", minha previsão era
que os juros longos ficassem dentro de um determinado canal ao longo deste ano
— e, até agora, o movimento tem respeitado esse intervalo. Mas do jeito que as
coisas vêm andando, com o coro de vozes hawkish crescendo, me parece cada vez
mais razoável apostar que esse canal será rompido para cima, e não para baixo.
Na próxima semana
devemos entender melhor não se Warsh vai subir os juros agora, mas o que ele
realmente pretende fazer com eles daqui para frente. E essa resposta, goste o
mercado ou não, vai valer mais do que qualquer decisão pontual de uma única
reunião.
Análise Técnica
No post “quando-euforia-manda-vai-tomar-um-cafe” fiz os seguintes comentários sobre o
S&P 500:
“Vou continuar
com o gráfico de 2 horas, que parece mais ilustrativo no momento. Estamos na
situação que já destaquei no passado, uma correção: pequena, média ou grande.
Notem que a extensão é relativa, pois a janela é de 2 horas.”
Vou retornar aos
gráficos diários, pois eles nos dão uma visão mais ampla. Está claro que, desde
junho, a bolsa se encontra dentro de um intervalo entre 7.600 e 7.230, e mais recentemente
no centro deste intervalo. Como nomeei no post acima, devemos estar na correção
média — acabei não repetindo os intervalos porque se modificaram um pouco.
Minha hipótese
principal é que estamos no movimento mais forte da onda (3) vermelha —
que não aparece no gráfico e que deve seguir a linha denominada em azul,
visível em 1 e 2. Para tanto, eu esperaria que a correção em andamento ficasse
contida até aproximadamente 7.400. Caso esse nível seja rompido, é porque a onda
(2) vermelha não acabou e deveria encontrar suporte na área em azul, entre
7.290 e 7.230.
É isso que temos
por enquanto: observar.
O S&P 500
fechou a 7.509, com alta de 0,89%; o USDBRL a R$ 5,0879, com queda de 0,35%; o
EURUSD a € 1,1401, com queda de 0,12%; e o ouro a U$ 4.084, com alta de 1,93%.
Fique ligado!
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