O foguete que virou lucro #USDBRL


Confesso que dei uma olhada rápida, sem muito cuidado, no balanço que a Alphabet divulgou nesta semana. Foi um post no Twitter que resumiu as contas principais, e ali havia um número que me chamou a atenção: um ganho que superava, e muito, o lucro operacional da empresa.

Fiquei curioso e fui atrás da origem daquele valor. Descobri que a Alphabet mantém uma participação na SpaceX, que abriu seu capital recentemente. Pela regra contábil americana, esse tipo de investimento precisa ser marcado a mercado quando a empresa investida se torna pública. A valorização vira lucro contábil, mesmo sem qualquer venda efetiva das ações.

Fui aos números completos e entendi a dimensão do episódio. A Alphabet fechou o segundo trimestre de 2026 com lucro líquido de 112,1 bilhões de dólares, alta de 298% sobre igual período do ano passado. O lucro por ação saltou para 9,11 dólares, mais que o triplo da estimativa de consenso, que girava perto de 2,87 dólares.

A origem de boa parte desse resultado está numa linha chamada outras receitas, que somou cerca de 98 bilhões de dólares no trimestre. Desse total, 99,03 bilhões vieram de ganhos com participações societárias, contra apenas 1,29 bilhão um ano antes. É a marcação a mercado da posição na SpaceX, somada a um efeito parecido na Anthropic, outra investida da empresa.

A SpaceX abriu capital em junho, avaliada em 1,77 trilhão de dólares, ante os 400 bilhões que valia como empresa fechada um ano atrás. A Alphabet investe na companhia desde 2015 e hoje carrega uma fatia perto de 94 bilhões de dólares, boa parte ainda presa por restrição de venda no curto prazo. Na Anthropic, o aporte inicial de 300 milhões de dólares feito em 2023 hoje vale perto de 13 bilhões, à medida que a avaliação privada da empresa saltou de 350 bilhões para 965 bilhões de dólares.

Um analista mais criterioso vai excluir esse resultado de sua análise, porque não é recorrente. Mas não dá para ignorar que esse ganho eleva de forma real o patrimônio líquido da empresa. Não é contabilidade criativa, é a valorização genuína de um ativo que a Alphabet escolheu comprar antes de todo mundo.

No relatório mais recente, Ed Yardeni se dedica a separar esse efeito das contas do S&P 500 como um todo. E não é só a Alphabet. Amazon e Meta também tiveram ganhos do mesmo tipo, em escala menor, mas ainda assim enormes.

 


Lucro por ação trimestral do S&P 500, com o efeito dos ganhos contábeis de marcação a mercado discriminado. Fonte: Yardeni Research.

Segundo o levantamento, o lucro por ação do S&P 500 no primeiro trimestre de 2026 fechou em 75,03 dólares. Desse total, 5,22 dólares vieram de ganhos contábeis não recorrentes: 3,14 dólares da Alphabet, 1,42 dólar da Amazon e 0,66 centavo de um estorno fiscal na Meta. No segundo trimestre, ainda em apuração, o lucro por ação soma 90,55 dólares, e o ganho da Alphabet com a SpaceX, sozinho, contribuiu com 8,96 dólares desse total.

 


Crescimento anual do lucro por ação do S&P 500, com e sem os ganhos contábeis extraordinários. Fonte: Yardeni Research.

Mesmo excluindo esses efeitos contábeis, o crescimento de lucros do índice seguiria forte: 10,6% no primeiro trimestre e 22,3% no segundo, contra os 19,0% e 35,8% divulgados com o efeito embutido. A base dos resultados corporativos americanos não depende desse tipo de ganho extraordinário, mas ele certamente ajuda a inflar a fotografia do trimestre.

Curiosamente, o mercado não se deixou enganar. Apesar do lucro recorde, a ação da Alphabet caiu mais de 7% depois do balanço. Os investidores olharam para o aumento do orçamento de investimentos, elevado para uma faixa de 195 a 205 bilhões de dólares em 2026, e para a margem mais apertada em busca e nuvem, ainda que a receita da nuvem tenha crescido 82% no trimestre. Ou seja, separaram exatamente o que era negócio do que era contabilidade.

Volto à Alphabet. O que temos aqui é uma empresa que investiu em negócios privados antes da abertura de capital, com convicção suficiente para carregar a posição por mais de dez anos, no caso da SpaceX. Isso é análise, é paciência, e também é risco, porque poderia não ter dado certo.

Comentei na sexta-feira passada, no post "Agora não adianta chorar", como empresas que compraram bitcoin como reserva de caixa hoje se arrependem amargamente da decisão. Não é o caso da Alphabet. A empresa não comprou uma moeda especulativa sem fluxo de caixa, comprou participação acionária em negócios operacionais, com receita, contratos e planos de expansão reais.

Claro que existe risco em qualquer investimento, inclusive neste. As ações da SpaceX, aliás, já recuaram perto de 33% desde o fim do segundo trimestre. Mas a diferença é que aqui existe um negócio por trás do preço da ação. E ações, ao contrário de criptomoedas, dão lucro.

Fico imaginando como Michael Saylor deve estar se sentindo diante desse contraste. Ou será que sua arrogância nem registra a comparação, absorto que está em sua ideia de alavancar bitcoin, um ativo que não produz absolutamente nada, nem receita, nem lucro, nem dividendo.

A lição que fica é simples e, ao mesmo tempo, incômoda. Convicção com fundamento vence aposta alavancada em narrativa. A Alphabet fez a lição de casa antes de investir. Saylor apostou tudo em uma tese, e agora observa o mercado descontar essa aposta a cada trimestre que passa.


Análise Técnica

No post "Ninguém perde por azar", fiz os seguintes comentários sobre o dólar, acrescentando uma visão de mais longo prazo:

“Demarquei com o retângulo azul o movimento de alta que levou o dólar até R$ 6,35, e aí surge a questão: será isso o final da onda V azul? Não me parece razoável, tanto pela extensão — ficou aquém do nível mínimo de R$ 7,14 — quanto pelo período muito curto, quando observadas as outras ondas I, II, III e IV azul, que, segundo a estimativa do sistema, deveria ocorrer no início de 2028.”




No curto prazo, comentei:

“Bem, eu não posso ficar navegando aqui sem uma direção no curto prazo. Mantenho os níveis apontados anteriormente, entre R$ 5,02 e R$ 5,38.”

O movimento do dólar ficou ainda mais restrito, nem preciso repetir o gráfico publicado no post acima, que praticamente não difere do desta semana. Na minha visão, a moeda americana está sendo movimentada por fatores opostos, os quais sejam:

No sentido da queda, o elevado nível de juros e o excelente resultado da conta comercial, originando a entrada de dólares. No sentido da alta, a probabilidade de Lula ser eleito, implicando uma continuidade da deterioração fiscal, bem como a saída de recursos pela rubrica financeira.

Quero enfatizar que, mesmo que o dólar caia abaixo do stop loss, isso não significa que vou alterar minha contagem de curto prazo — somente abaixo de R$ 4,70, como frisado no post acima, é que fica mais provável.




O S&P 500 fechou a 7.413, sem variação; o USDBRL a R$ 5,1281, com alta de 0,60%; o EURUSD a € 1,1370, sem variação; e o ouro a U$ 4.082, com alta de 0,67%.

Fique ligado!

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