Indefinido até segunda ordem #USDBRL



A pergunta de um milhão de dólares — devo atualizar o valor para os padrões de hoje, confesso que dá vontade de rir — é o que será do mercado de trabalho daqui a cinco anos. A dúvida não é gratuita. De um lado, a maioria dos economistas projeta cortes expressivos de vagas à medida que a inteligência artificial se espalhar pelas empresas, e os argumentos fazem sentido quando lidos isoladamente. De outro, os números disponíveis até agora contam uma história bem menos dramática, e o detalhe mais intrigante é que as companhias que mais usam IA são justamente as que mais estão contratando.

Um analista europeu comentou recentemente, citando dados do Financial Times, que empresas com adoção intensa de inteligência artificial viram seu quadro de funcionários crescer cerca de 10% nos dois anos seguintes à adoção, com um salto ainda maior, perto de 12%, nas vagas de entrada. A leitura que ele propõe é provocativa: em vez de destruir postos de trabalho, a IA parece estar funcionando, nessas companhias, como acelerador de crescimento. Barreiras de entrada mais baixas, jovens produtivos mais cedo, capacidade de atender mais clientes e lançar produtos mais rápido — tudo isso pode gerar contratação líquida positiva, não o contrário. Ele próprio pondera que essas empresas já eram, de saída, as mais dinâmicas e mais bem capitalizadas do mercado, o que pode enviesar a leitura.



A Goldman Sachs, em relatório recente sobre os ventos contrários no emprego do setor de tecnologia, tentou separar o que é atribuível a cada fator: juros altos, correção de excesso de contratações da pandemia e ganhos de eficiência da IA. A conclusão surpreende quem espera encontrar a inteligência artificial como vilã principal. O impacto direto da automação explicaria apenas cerca de meio ponto percentual da desaceleração anual no crescimento do emprego em tecnologia, bem menos do que a normalização do excesso de contratações entre 2020 e 2022, responsável por até dois pontos percentuais. Ou seja: a ressaca do exagero contratado durante a pandemia pesa de três a quatro vezes mais do que a automação. E mais: quando uma empresa anuncia demissões atribuídas à IA, os números batem com o anúncio — não há, ao menos por enquanto, uma maquiagem generalizada disfarçando de "IA" cortes que aconteceriam de qualquer forma.



O próprio rastreador de adoção da Goldman, atualizado até junho, mostra a inteligência artificial presente em 20,6% dos estabelecimentos americanos, com expectativa de chegar a quase 24% em seis meses. As demissões atribuídas à automação aceleraram, 38,6 mil funcionários só em maio, mas o efeito segue concentrado em bolsões específicos, como consultoria de marketing, design gráfico e atendimento ao cliente, e é parcialmente compensado pelo crescimento de empregos ligados à construção de centros de dados. Os ganhos de produtividade, esses sim, são reais: estudos acadêmicos apontam alta média de 23%, e as próprias empresas relatam ganhos ainda maiores, de 34%. Mesmo assim, a correlação entre adoção de IA e desemprego geral continua estatisticamente frágil.

Enquanto os números ainda não fecham a conta, dentro das empresas a batalha segue sendo convencer o funcionário cético. Reportagem recente mostrou como companhias como o Citi e grandes escritórios de advocacia vêm montando exércitos internos de "campeões" de IA, voluntários que recebem acesso antecipado às ferramentas e treinamento especial em troca de evangelizar os colegas mais resistentes. Se a substituição em massa já estivesse em curso, dificilmente essas empresas gastariam tanto esforço tentando convencer as próprias equipes a usar a ferramenta.

Mas o contraponto mais interessante que vi nos últimos dias vem de um lugar quase oposto ao medo dominante. Um estudo do demógrafo Steven Ruggles, publicado em maio na revista da Academia Nacional de Ciências americana, projeta que a força de trabalho dos Estados Unidos crescerá apenas 9,1 milhões de pessoas na década até 2030, o menor incremento em dez anos desde o período encerrado em 1960, e encolherá 2,1 milhões, ou 1,3%, na década seguinte. O motivo é demográfico: a queda na taxa de fecundidade iniciada em meados dos anos 2000 está reduzindo o número de jovens que chegam à vida adulta, e os dois fatores que compensaram esse efeito no passado, maior participação feminina e forte imigração, parecem esgotados. Ruggles argumenta que a escassez de trabalhadores deve fortalecer o poder de barganha dos empregados e pressionar salários para cima.



É aqui que a IA muda de personagem. Pesquisa recente de Daron Acemoglu, Nobel de Economia de 2024, ao lado de outros economistas, mostrou que, historicamente, economias com escassez de trabalhadores jovens respondem investindo mais em tecnologia poupadora de mão de obra, e que essa resposta costuma sustentar o crescimento do produto por trabalhador e elevar salários, em vez de travar a economia. Regiões e países com queda na natalidade registram mais patentes de tecnologia que substitui trabalho humano. Os próprios pesquisadores admitem a ressalva: se os ganhos de produtividade da IA forem grandes demais, ou vierem tarde demais, o efeito pode ser o oposto do esperado. Mas, se o raciocínio se confirmar, a inteligência artificial pode não ser o algoz do emprego, e sim a ferramenta que evita um apagão de produtividade quando faltarem braços, e mentes, para sustentar o crescimento.

Nesse mar de incertezas sobre um tema muito sério, afinal 70% do PIB americano depende do consumo, e consumo depende de gente empregada e ganhando bem, o mercado vai seguindo, tateando. Como dizia minha saudosa terapeuta, para saber se uma intuição era mesmo intuição, é preciso acompanhar a realidade. E é assim, olhando os dados mês a mês, sem me apegar a nenhuma das duas narrativas, que pretendo continuar navegando por esse tema nos próximos posts.


Análise Técnica

No post "o-novo-pregão-é-o-restaurante", fiz os seguintes comentários sobre o dólar:

"Vamos ficar atentos ao nível que destaquei de R$ 5,38 para a formação de cinco ondas. Notem que não é necessário atingir esse patamar, mas seria ideal. Se ocorrer, a próxima sequência definirá se o dólar estará pronto para subir ou se haverá uma falha, e novas baixas se sucederão."



O dólar segue sem definição, negociando em um intervalo de variação muito estreito, sem apresentar tendência. Reitero as mesmas bases da semana passada: no sentido altista, atenção a R$ 5,38; no baixista, abaixo de R$ 5,02. Os traders ou estão de férias no Hemisfério Ocidental, ou assistindo aos jogos da Copa por aqui.



O S&P 500 fechou a 7.515, com queda de 0,79%; o USDBRL a R$ 5,1468, com alta de 0,41%; o EURUSD a € 1,1384, com queda de 0,26%; e o ouro a U$ 4.004, com queda de 2,54%.

Fique ligado!

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