Indefinido até segunda ordem #USDBRL
A pergunta de um milhão de dólares — devo atualizar o valor para os padrões de hoje, confesso que dá vontade de rir — é o que será do mercado de trabalho daqui a cinco anos. A dúvida não é gratuita. De um lado, a maioria dos economistas projeta cortes expressivos de vagas à medida que a inteligência artificial se espalhar pelas empresas, e os argumentos fazem sentido quando lidos isoladamente. De outro, os números disponíveis até agora contam uma história bem menos dramática, e o detalhe mais intrigante é que as companhias que mais usam IA são justamente as que mais estão contratando.
Um analista europeu comentou recentemente, citando dados do Financial Times, que empresas com adoção intensa de inteligência artificial viram seu quadro de funcionários crescer cerca de 10% nos dois anos seguintes à adoção, com um salto ainda maior, perto de 12%, nas vagas de entrada. A leitura que ele propõe é provocativa: em vez de destruir postos de trabalho, a IA parece estar funcionando, nessas companhias, como acelerador de crescimento. Barreiras de entrada mais baixas, jovens produtivos mais cedo, capacidade de atender mais clientes e lançar produtos mais rápido — tudo isso pode gerar contratação líquida positiva, não o contrário. Ele próprio pondera que essas empresas já eram, de saída, as mais dinâmicas e mais bem capitalizadas do mercado, o que pode enviesar a leitura.
Enquanto os números ainda não fecham a conta, dentro das empresas a batalha segue sendo convencer o funcionário cético. Reportagem recente mostrou como companhias como o Citi e grandes escritórios de advocacia vêm montando exércitos internos de "campeões" de IA, voluntários que recebem acesso antecipado às ferramentas e treinamento especial em troca de evangelizar os colegas mais resistentes. Se a substituição em massa já estivesse em curso, dificilmente essas empresas gastariam tanto esforço tentando convencer as próprias equipes a usar a ferramenta.
Mas o contraponto mais interessante que vi nos últimos dias vem de um lugar quase oposto ao medo dominante. Um estudo do demógrafo Steven Ruggles, publicado em maio na revista da Academia Nacional de Ciências americana, projeta que a força de trabalho dos Estados Unidos crescerá apenas 9,1 milhões de pessoas na década até 2030, o menor incremento em dez anos desde o período encerrado em 1960, e encolherá 2,1 milhões, ou 1,3%, na década seguinte. O motivo é demográfico: a queda na taxa de fecundidade iniciada em meados dos anos 2000 está reduzindo o número de jovens que chegam à vida adulta, e os dois fatores que compensaram esse efeito no passado, maior participação feminina e forte imigração, parecem esgotados. Ruggles argumenta que a escassez de trabalhadores deve fortalecer o poder de barganha dos empregados e pressionar salários para cima.
Nesse mar de incertezas sobre um tema muito sério, afinal 70% do PIB americano depende do consumo, e consumo depende de gente empregada e ganhando bem, o mercado vai seguindo, tateando. Como dizia minha saudosa terapeuta, para saber se uma intuição era mesmo intuição, é preciso acompanhar a realidade. E é assim, olhando os dados mês a mês, sem me apegar a nenhuma das duas narrativas, que pretendo continuar navegando por esse tema nos próximos posts.
Análise Técnica
No post "o-novo-pregão-é-o-restaurante", fiz os seguintes comentários sobre o dólar:
"Vamos ficar atentos ao nível que destaquei de R$ 5,38 para a formação de cinco ondas. Notem que não é necessário atingir esse patamar, mas seria ideal. Se ocorrer, a próxima sequência definirá se o dólar estará pronto para subir ou se haverá uma falha, e novas baixas se sucederão."
Fique ligado!
Comentários
Postar um comentário