All in em equities #SP500


Mesmo quem não conhece os detalhes do pôquer já ouviu falar do “all in” — a jogada de quem acredita ter a melhor mão da mesa e aposta todas as fichas de uma vez. Talvez seja a hora de fazer o mesmo com a carteira: alocar 100% em ações.

A partição mais usada entre ações e renda fixa é o 60/40 — 60% em ações, 40% em renda fixa. O modelo se mostrou eficiente ao longo do tempo, mas nem sempre, como vou mostrar adiante. A lógica sempre foi a correlação negativa entre os dois ativos: quando a bolsa caía forte, o dinheiro corria para o título público, o preço subia, e essa correlação negativa amortecia a queda da carteira inteira. Nunca foi sobre retorno — renda fixa raramente rendeu mais que bolsa — e sim sobre proteção.

Acontece que ultimamente essa correlação não só deixou de ser negativa como virou positiva: os dois ativos andam juntos, não existe mais proteção nenhuma. O que explica isso não é o nível da inflação, como seria tentador supor — ela caiu a década de 1990 inteira e a correlação seguiu positiva o tempo todo. O que muda o sinal é a relação entre inflação e crescimento. Num choque de oferta, os dois se movem em direções opostas: o título cai junto com a ação, porque vira aposta contra a inflação — foi assim nos anos 1970 e 1980, e em 1994, quando Greenspan dobrou os juros de 3% para 6% e o mercado de títulos foi arrasado enquanto a bolsa andava de lado. Já num choque de demanda, inflação e crescimento andam juntos: a recessão traz desinflação e corte de juros, o título sobe quando a ação cai. Foi o regime de 2001 a 2021 — o período que construiu a reputação do 60/40 como fórmula segura.

 


O gráfico acima, publicado pela gestora Investment Research Partners, mostra a correlação móvel de 24 meses entre ações e títulos desde 1975. Ele deixa claro que a correlação positiva não é exceção rara: foi o regime normal até o fim dos anos 1990, ficou negativa de 2001 a 2021 — os vinte anos que deram ao 60/40 sua fama de porto seguro — e voltou a positiva desde 2022. O economista John Campbell e coautores encontraram respaldo acadêmico: a correlação entre inflação e hiato do produto virou de sinal por volta de 2001, e a correlação entre ações e títulos virou junto.

2022 mostrou o custo desse mundo. O S&P 500 caiu 18,11% em retorno total. O Bloomberg US Aggregate, principal referencial de renda fixa americana, caiu 13,01% — o pior ano da história do índice. A metade segura da carteira não amorteceu nada; o investidor 60/40 foi atingido dos dois lados ao mesmo tempo.

Se os dois ativos andam juntos, por que manter os dois? A expectativa é de juro em alta, puxada por uma demanda enorme de capital — déficit fiscal de um lado, emissão de dívida das empresas de tecnologia financiando a corrida de inteligência artificial do outro — e a bolsa sobe puxada por lucros estelares. Seguindo essa lógica até o fim, a escolha pareceria óbvia: all in em equities.

Estou provocando o leitor. O que se deveria buscar não é abandonar a proteção, mas achar um substituto para a renda fixa tradicional que realmente proteja a carteira se a bolsa cair. Uma opção simples é uma carteira de vencimento curto, o equivalente ao nosso CDI — não é de longe a mesma coisa que o título longo em momentos normais, porque se perde a valorização que viria com a queda dos juros, mas essa fatia pelo menos não perde valor se a bolsa despencar. A matemática da diversificação também não precisa de correlação negativa para funcionar: correlação zero já ajuda, pois o título continua menos volátil que a ação — e quem precisa sacar patrimônio para viver corre o risco de sequência, em que a mesma queda de 30% dói muito mais para quem está vendendo cotas naquele momento do que para quem só está acumulando.

Cabe uma nota de ceticismo sobre quem primeiro fez esse diagnóstico. Foi Torsten Slok, economista-chefe da Apollo — gestora que vende crédito privado, private equity e outros ativos alternativos, exatamente os produtos que ganham espaço quando o investidor tira dinheiro da renda fixa tradicional. Isso não invalida os números, mas merece ser lido com o ceticismo de quem recebe conselho de vendedor, não de árbitro neutro. No mesmo dia, a Goldman Sachs, casa que raramente traz má notícia sobre os mercados que cobre, admitiu algo parecido: pode não haver bolha de preço, mas pode haver bolha de lucro.

Há também um ângulo que puxa na direção contrária: menos de dois anos depois de o 60/40 ser declarado morto, em 2022, já havia estrategistas escrevendo que a fórmula estava de volta. A própria BlackRock reconhece que os títulos voltaram a exercer papel de proteção em 2025, ainda que a relação continue menos estável do que em décadas anteriores. Slok atribuiu a alta dos juros longos a três fatores misturados: inflação, problema fiscal e emissão de dívida das empresas de tecnologia que financiam a corrida de inteligência artificial — os três produzem o mesmo resultado incômodo: juro alto correlacionado com queda de bolsa, qualquer que seja a causa de fundo.

A semana reforça a tensão. A Goldman notou que, pela primeira vez desde 2009, o S&P 500 igualmente ponderado superou o índice ponderado por valor de mercado em mais de 7 pontos — o prêmio das cinco maiores empresas sobre as outras 495 praticamente sumiu. Bolha estourando ou mercado normalizando? A própria Goldman chama de normalização saudável, mas Jamie Dimon chamou o clima de eufórico e Ray Dalio disse que seus indicadores de bolha estão perto dos níveis de 2000 e 1929. A IBM teve em julho a pior queda diária de sua história de 115 anos — 25% em um dia — por um erro de receita de apenas 3,7%.

Essas recomendações valem para o mercado americano. Aqui no Brasil nem precisa pensar muito: all in em renda fixa, e ainda por cima no DI. Do jeito que o governo gasta mal os recursos, e mais ainda se Lula vencer as eleições, essa segue sendo a escolha mais óbvia da mesa.

No pôquer, quem sabe jogar não aposta todas as fichas só porque acredita ter a melhor mão sem antes olhar o que os outros jogadores estão fazendo. Trocar renda fixa por bolsa inteira, hoje, é ir all in sem saber direito que jogo o resto da mesa está jogando — e isso não é o mesmo que ter a melhor mão.


Análise Técnica

No post “encilhado” fiz os seguintes comentários sobre o S&P 500:

“O S&P 500 tentou romper a marca de 7.400, negociando abaixo desse nível, mas fechou acima de 7.400, indicando que vai esperar até amanhã para decidir seu caminho, dependendo do que o Fed decidir.



A semana passada foi interessante: no dia da reunião do Fed, a bolsa chegou a subir com o anúncio de manutenção da taxa, mas ficou extremamente irritada com a postura do presidente do Fed, Kevin Warsh, que não respondeu às perguntas sobre o que a autoridade monetária pretende fazer, embora já tivesse dito que, daqui em diante, cada um chegasse à sua própria conclusão analisando os dados.

No post “Don't fight the Fed” comentei que a atitude do mercado parecia mais a de um adolescente e que, ao invés de brigar com o Fed, deveria trabalhar com esse cenário e avaliar como os ativos deveriam se comportar. No caso da bolsa, como os lucros anunciados foram estupendos, não existe razão para a queda, pelo menos por enquanto. Essa foi a razão de sugerirmos a entrada na bolsa na última sexta-feira, depois de completadas 5 ondas numa janela de duas horas.

Agora a bolsa está próxima das máximas e, caso ultrapasse, vamos ficar de olho para ter certeza de que a onda (2) vermelha terminou. Esse é o nível: 



— David, finalmente algum trade, pensei que tinha se aposentado definitivamente! Hahaha. Mas um detalhe: não vi nenhuma menção ao objetivo.

Me pegou na curva! Não vou colocar ainda — não sei se lembra que mencionei trabalhar com dois objetivos, normalmente faço isso. Neste caso, um deles é absurdamente de alta, e não quero deixar os leitores excitados; prefiro ir andando devagar e, conforme o mercado for dando sinais, informo.

Por enquanto, precisa passar a máxima acima. Vou aproveitar e atualizar o stop loss para 7.490.

O S&P 500 fechou a 7.736, com alta de 1,79%; o USDBRL a R$ 5,1451, com alta de 0,83%; o EURUSD a € 1,1533, com alta de 0,21%; e o ouro a U$ 4.077, com alta de 0,55%.

Fique ligado!


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