2027: vão bater sua carteira #USDBRL
Hoje trago uma pesquisa extensa do UBS sobre a evolução do patrimônio global, e os números impressionam. Só nos Estados Unidos, mais de 440 mil pessoas cruzaram a marca de milionário em dólares em 2025 — um crescimento de 1,9% em doze meses, o equivalente a mais de 1.200 novos milionários por dia. Reino Unido, França, Espanha, Japão e Índia também somaram mais de 30 mil cada um. A América do Norte já concentra 44,8% dos milionários do mundo; somada à Europa Ocidental, ultrapassa 70%. É uma fábrica de riqueza que não para de rodar.
Mas há outro lado dessa história, e ele não é tão bonito. Enquanto o patrimônio privado bate recordes, a dívida dos governos também cresce, e o próprio economista-chefe do UBS, Paul Donovan, reconhece que os níveis de endividamento público estão hoje mais elevados do que no passado recente. Isso atrai atenção política e cria um incentivo perigoso: mobilizar a riqueza privada para baixar o custo da dívida. Traduzindo sem rodeios: taxar quem tem para financiar quem gasta.
Quando esbarrei nesse estudo, pensei imediatamente no Brasil. Olhando o quadro de hoje, o mais provável é que Lula seja reeleito. Tem gente apostando que ele vai querer sair como estadista, com um governo austero no segundo mandato — eu não compro essa teoria. Lula odeia a Faria Lima, e o caminho natural é continuar gastando. Como a situação fiscal já está em ponto de bala, não vai sobrar outra saída que não seja aumentar a tributação — e já tem gente dentro do próprio governo falando nisso abertamente.
Para saber quando um país está de fato caminhando para um problema sério de financiamento de dívida, uso como referência o trabalho de Robin Brooks, da Shadow Price Macro. Segundo ele, esse tipo de estresse aparece por dois caminhos: repressão financeira, quando o governo represa artificialmente os juros — tema que já tratei aqui no post "Bonds goela abaixo" —, ou crescimento sufocado por juros elevados, que é exatamente o caso brasileiro hoje.
E os sinais no Brasil já estão aí. Nas últimas semanas, o Tesouro Nacional vem enfrentando dificuldade para colocar seus papéis no mercado: leilões de títulos indexados à inflação e prefixados foram cancelados, e a emissão vem migrando para papéis atrelados à Selic, em detrimento dos prefixados e dos indexados ao IPCA. Isso, por si só, já é um identificador de aversão ao risco. E amanhã, dia 17 de agosto, vence um lote gigantesco de NTN-Bs — R$ 258,6 bilhões, o maior vencimento de títulos indexados à inflação do cronograma entre 2026 e 2030, equivalente a 12,4% de todo o estoque de Tesouro IPCA+ em circulação. É dinheiro demais precisando de destino novo, num mercado que já mostra sinais de fadiga.
Brooks tem um jeito elegante de captar esse estresse: olhar para a inclinação da ponta longa da curva de juros, o que os operadores chamam de "steepening". Quando os juros mais longos sobem mais rápido e mais forte que os curtos, o mercado está embutindo um prêmio de risco crescente — uma desconfiança silenciosa sobre a capacidade do país de honrar sua dívida no longo prazo.
Para isolar esse sinal, ele constrói o chamado 10y10y forward: a taxa de juros de 10 anos que o mercado espera, hoje, que vigore daqui a dez anos, calculada a partir das taxas de 10 e 20 anos. A vantagem dessa métrica é que ela fica menos contaminada por decisões de curto prazo do banco central, entregando uma leitura mais limpa sobre o que o mercado realmente pensa a respeito da sustentabilidade da dívida no longo prazo.
gráficos de curva de juros e do z-score do 10y10y forward por país — fonte: Robin J Brooks, "Where is the Global Debt Crisis Most Acute?", Shadow Price Macro, 16/08/2026]
Aplicando essa métrica ao G10, Brooks encontra o Japão isolado, disparado, com a curva mais disfuncional do grupo: o z-score da inclinação oscila perto de 2, um nível estatisticamente incomum. Isso confirma a tese antiga dele de que a "taxa-sombra" japonesa — o juro que vigoraria sem a intervenção do banco central — está bem acima do observado. Lá, a crise de dívida já se travestiu de crise cambial, com o iene sob pressão constante de depreciação. Nos demais países do G10 o quadro é menos extremo, mas segue na mesma direção: os juros longos sobem em toda parte.
Achei esse arcabouço bom demais para não aplicar à nossa própria dívida. O problema é que não tenho a série histórica diária das NTN-B que Brooks usa para calcular o z-score, então recorri a uma fotografia: a curva real de hoje, num único instante, em vez de uma série ao longo do tempo. Mesmo assim, dá para tirar uma leitura. A taxa de 10 anos está em 7,99% ao ano, e o 10y10y forward implícito, calculado da mesma forma que Brooks calcula para o G10, fica em 7,41%.
Nessa fotografia, a curva não tem formato de steepening: o forward de longuíssimo prazo está abaixo do spot de 10 anos, não acima, e a curva real brasileira é decrescente na ponta longa. Isso não quer dizer que o risco fiscal desapareceu — o vencimento de amanhã e os leilões cancelados mostram que ele está bem vivo —, mas indica que, por essa métrica específica e nesta foto de hoje, o mercado ainda não está embutindo o mesmo prêmio de risco crescente de longuíssimo prazo que vemos no Japão. Fica o adendo: por ser uma fotografia e não um filme, o sinal precisa ser acompanhado ao longo do tempo antes de qualquer conclusão mais forte.
Fica o aviso: talvez as boas-vindas de 2027 não sejam tão boas assim. A conta da farra fiscal sempre chega e, pelo visto, o governo vai bater sua carteira.
Análise Técnica
No post "o-lucro-bem-explicado", fiz os seguintes comentários sobre o dólar:
Consigo observar cinco ondas na forma leading diagonal, mas não me sinto confortável em sugerir algum trade, pois é uma estrutura que facilmente pode se transformar em uma correção. Em todo caso, com essa visão de curto prazo, alterei o nível do stop loss para R$ 4,88, embora, abaixo de R$ 4,96, a probabilidade de alteração se eleve.
No gráfico semanal a seguir:
— A primeira dúvida se refere à onda A vermelha: ela terminou? Para responder essa pergunta, o nível de R$ 4,88 não pode ser ultrapassado.
— Se terminou, o primeiro ponto a ser atingido é R$ 5,3895.
— Em seguida, o objetivo seria a onda B vermelha, e aqui abre-se um parêntesis: essa correção é um triângulo, um zigue-zague ou um flat? Não dá para saber e, dependendo do caso, essa onda pode atingir R$ 5,74 / R$ 6,00 / R$ 6,35.
Paro por aí, pois daí em diante as possibilidades se multiplicam.
Talvez seja melhor mesmo; assim você pega no pé dela se não der certo. Vou fazer algumas observações: desde 2020, em plena pandemia, até hoje, passados seis anos, o dólar flutuou entre R$ 4,70 e R$ 5,85 sem mostrar um movimento direcional. Dependendo do que ocorrer, esse prazo pode ficar ainda maior, mas, em algum momento, irá romper — só não sabemos quando.
O S&P 500 fechou a 7.745, com queda de 0,52%; o USDBRL a R$ 5,2019, com queda de 0,40%; o EURUSD a € 1,1597, sem alteração; e o ouro a U$ 4.419, com alta de 0,99%.
Fique ligado!
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