O lucro bem explicado #USDBRL
Era tesoureiro do BFB — Banco Francês e Brasileiro — quando meu chefe saiu de férias e me deixou livre para tomar posições. Isso ocorreu poucos meses depois do Plano Collor, quando meu saudoso ex-sócio e, naquela época, presidente do Banco Central, Ibrahim Éris, trancou a liquidez do mercado para forçar a queda da inflação — de forma enérgica, ao congelar os ativos de empresas e pessoas físicas. Resolvi montar uma posição em LTN grande, muito grande, a ponto de buscar espaço em outras instituições financeiras para caber tudo. A inflação caiu, os títulos se valorizaram, e o banco registrou um lucro expressivo.
O interessante é que, enquanto a posição esteve montada, nenhum diretor sequer percebeu o tamanho do risco que eu havia assumido. Quando meu chefe voltou de férias — e boa parte do lucro já estava realizada —, me chamou à sala dele e perguntou o que eu tinha feito para gerar tanto resultado. Expliquei em detalhes. Ele gostou tanto da explicação que me levou a uma reunião de diretoria para contar a mesma história e ser elogiado pelo trabalho. Nenhum diretor se preocupou — ou sequer se deu conta — de qual havia sido o risco assumido. O resultado foi bom, e bem explicado. Isso bastou.
Foi dali que nasceu uma frase que eu e meu chefe passamos a repetir no BFB: melhor um prejuízo bem explicado do que um lucro sem explicação. Prejuízo explicado é examinado, questionado, às vezes até elogiado pela disciplina do processo. Lucro sem explicação é aceito sem perguntas — e é exatamente por isso que costuma ser mais perigoso: ninguém audita o risco de algo que já deu certo.
Essa não é uma peculiaridade minha, nem do BFB dos anos noventa. É um traço estrutural de como o ser humano lida com incerteza: julgamos risco pelo resultado, não pelo processo. Quando o resultado é bom, o processo que o produziu se torna invisível — e é exatamente aí que mora a semente do próximo excesso. A pergunta "que risco você assumiu?" só aparece, com força, depois do prejuízo. Por isso a retórica tem peso tão grande em finanças comportamentais: não é o discurso que explica o resultado, é o discurso que absolve o risco.
Essa lógica ajuda a entender um achado que encontrei recentemente num paper acadêmico curioso, de Samuel Hartzmark (Boston College e NBER) e David Solomon (Boston College), publicado em junho deste ano. Os dois pesquisadores fizeram algo simples e raramente feito com rigor: leram, ao longo de mais de um século, o que investidores e acadêmicos realmente escreviam sobre risco — em vez de presumir que pensavam como pensamos hoje. A conclusão é desconfortável para quem acha que finanças é uma ciência linear e cumulativa: o conceito de risco como desvio-padrão de retornos, pilar de praticamente todo modelo moderno de precificação de ativos, simplesmente não existia antes de Markowitz, em 1952. E nem o próprio Markowitz percebeu, à época, que estava inventando algo novo — ele achava que só estava formalizando um conceito que já era comum.
Antes disso, risco significava outra coisa: a chance de perder dinheiro no longo prazo, um conceito emprestado — e mal emprestado — do mundo dos títulos de dívida, em que risco é risco de default. No início do século passado, ações sequer eram vistas como investimento; eram especulação, quase um jogo de azar, tratadas com a mesma desconfiança que boa parte do mercado ainda reserva a criptomoedas hoje. Mesmo depois que as ações ganharam legitimidade, o raciocínio continuou emprestado dos bonds: performance só importava no longo prazo, como um yield até o vencimento, e as oscilações de preço no meio do caminho eram praticamente ignoradas — porque num título, sem default, o preço reverte à média; numa ação, não.
Um dos achados mais interessantes do estudo é quase literário: os autores mapearam as palavras mais usadas para descrever risco no Wall Street Journal e no New York Times entre 1905 e 2007. Por décadas seguidas, os termos dominantes não foram estatísticos — foram "fear", "panic", "uncertainty", "plunge". Psicologia pura, não matemática. "Risk", no sentido técnico que hoje consideramos óbvio, só ganha espaço relevante muito mais tarde. É a prova, em forma de gráfico, de que o vocabulário do mercado é o retrato do que ele consegue — ou não consegue — explicar em cada época.
Figura do artigo "A Brief History of Financial Risk" (Hartzmark e Solomon, jun/2026) — palavras mais usadas para descrever risco no WSJ e no NYT, por década, entre 1905 e 2007]
Não deixa de ser irônico: cada geração de investidores teve seu racional, sua explicação satisfatória para o risco que estava correndo — e cada uma delas, vista em retrospecto, se revelou incompleta, quando não francamente equivocada. Não porque essas pessoas fossem menos inteligentes do que nós. Mas porque a explicação que bastava para justificar o resultado do momento sempre pareceu suficiente, até deixar de ser.
É difícil não olhar para o mercado de hoje sem enxergar o mesmo padrão. Os teracórnios que concentram valor de mercado como nunca antes, o financiamento circular entre hyperscalers e labs de IA, os trilhões de capex justificados por uma curva de adoção que promete se pagar — tudo isso vem, por enquanto, acompanhado de lucro. E lucro, como aprendi cedo na minha carreira, é a explicação que ninguém questiona. A pergunta que fica não é se o mercado tem hoje um racional coerente para o risco que está assumindo — ele sempre tem. A pergunta é se esse racional vai resistir a um trimestre de prejuízo, ou se vai parecer, daqui a algumas décadas, tão ingênuo quanto tratar risco como simples chance de default parece hoje.
Análise Técnica
No post "bateram-carteira", fiz os seguintes comentários sobre o dólar:
"O dólar continua sem uma direção e movimento mais convincente, embora se note que a queda é a de menor resistência, conforme a área representada em amarelo a seguir"
Mudando de assunto, meu assessor jurídico, Claude, achou por bem que eu colocasse um disclaimer. Faço sugestões de trades, e isso por si só merece cuidado para não ser mal interpretado.
Aviso aos leitores
As operações mencionadas no Acertar na Mosca, incluindo a tabela de acompanhamento de trades, refletem posições e decisões tomadas com capital próprio, com base em critérios pessoais de gestão de risco — position sizing, stops técnicos e análise fundamentalista e técnica desenvolvidos ao longo de décadas de experiência no mercado.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento, consultoria financeira ou análise de valores mobiliários nos termos da regulamentação da CVM. Não sou consultor de investimentos registrado, e o blog não substitui o aconselhamento de um profissional habilitado.
Cada leitor possui perfil de risco, horizonte de investimento e situação financeira próprios. Resultados passados — inclusive os apresentados na tabela de acompanhamento — não constituem garantia de resultados futuros. Antes de tomar qualquer decisão de investimento, consulte um profissional qualificado e avalie se a operação é adequada ao seu perfil.
O S&P 500 fechou a 7.753, sem variação; o USDBRL a R$ 5,1087, com alta de 0,22%; o EURUSD a € 1,1542, com queda de 0,13%; e o ouro a U$ 4.387, com alta de 1,04%.
Fique ligado!
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