Zumbis com CNPJ ativo #OURO #GOLD #EURUSD
Um excelente estudo divulgado pelo JPMorgan mostra que os limites desse modelo não são impostos internamente, mas sim externamente. O documento recupera a tese de Stephen Roach, ex-economista-chefe do Morgan Stanley para a Ásia, para quem o modelo chinês baseado em produção e exportação é insustentável: a fraca demanda doméstica empurra o excesso de oferta industrial para o resto do mundo, com riscos que lembram crises financeiras do passado. Os pilares dessa análise aparecem claramente nos números: exportações em disparada, investimento privado fraco, vendas no varejo estagnadas, colapso do setor imobiliário e poupança precaucional elevada diante de uma rede de proteção social ainda insuficiente.
Gross domestic savings rate of the top 10 economies — artigo "The Year of the Trojan Fire Horse", J.P. Morgan, Michael Cembalest, 12/08/2026
Esse excesso de produção não fica só na China. O estudo aponta os efeitos sobre o emprego em outros países pela invasão de produtos chineses, algo que mais cedo ou mais tarde vai encontrar repúdio de algum governante. Na Europa, calcula-se que a concorrência chinesa possa ameaçar até 350 mil empregos no setor automotivo até 2030, somando-se a mais de 100 mil postos já eliminados por fornecedores tradicionais do setor nos últimos dois anos. Outro fator que surge desse movimento é o esmagamento da própria indústria chinesa, que sobrevive por meio de subsídios em diversos setores para poder competir internacionalmente com vantagem artificial — o que torna os investimentos nesse mercado pouco atrativos para quem busca retorno genuíno de capital.
Industrial subsidies, 2005-2024 — artigo "The Year of the Trojan Fire Horse, J.P. Morgan, Michael Cembalest, 12/08/2026
Não é exagero: cerca de 30% das empresas industriais chinesas são hoje zumbis deficitárias, mantidas vivas por um sistema de subsídios que não encontra paralelo em nenhuma outra economia relevante. É essa engrenagem que sustenta preços artificialmente baixos e escoa para fora do país uma capacidade instalada muitas vezes o dobro da produção efetiva.
Mas há uma frente em que a China surpreende positivamente: na disputa pela liderança em inteligência artificial, o país vem adotando a mesma política de sempre, com objetivo duplo — se firmar como grande player ao lado dos americanos e, ao mesmo tempo, dominar o fornecimento global de serviços e insumos ligados ao setor. É a mesma lógica mercantilista aplicada a uma nova fronteira tecnológica. Outro fator que pode se transformar em risco relevante é o elevado nível de endividamento do país, tanto público quanto das empresas que dependem de crédito subsidiado para sobreviver.
Também na área tributária existe uma distorção semelhante. Um artigo recente da Bloomberg mostra que a carga tributária chinesa está bem abaixo da média da OCDE, evidenciando um regime de subsídios implícitos aos contribuintes — inclusive aos mais ricos, que historicamente usaram estruturas offshore para proteger patrimônio. Não por acaso, Pequim intensificou neste ano a cobrança de impostos atrasados: mais empresas foram autuadas no primeiro semestre de 2026 do que em todo o ano de 2025, sinal de que a sustentabilidade fiscal virou prioridade diante de receitas pressionadas.
China's tax-to-GDP ratio is below the OECD average — artigo Bloomberg Economics Daily, Chris Anstey, "China's Authorities Mount Tax-Collection Crackdown in Sign of Fiscal Worry, 12/08/2026
O resultado dessa política de exportar excedentes a qualquer custo já aparece nos números do comércio internacional: as investigações antidumping e de direitos compensatórios abertas contra produtos chineses saltaram para um recorde histórico nos últimos anos, refletindo a irritação crescente de parceiros comerciais. A resposta de Pequim não tem sido de recuo. Depois que a Europa anunciou incentivos para blindar sua produção industrial, a China ameaçou retaliar, criou decretos para punir leis estrangeiras consideradas discriminatórias e endureceu o controle sobre investimentos chineses no exterior como instrumento de represália. É uma postura que soa contraditória: uma economia tão dependente da demanda externa para crescer dificilmente sustenta, no longo prazo, um conflito permanente com seus próprios clientes.
Aqui no Brasil, os embates com os Estados Unidos em torno de tarifas e de divergências políticas entre os governos Trump e Lula têm nos empurrado para uma aproximação maior com a China — o que, à luz do que vimos até aqui, é bem-vindo. A relação é complementar: a China importa commodities brasileiras e nos exporta produtos acabados. Já é visível nas ruas a presença da BYD, cujo modelo Dolphin Mini se tornou, pela primeira vez, o carro mais vendido do Brasil no varejo — nas vendas para pessoa física — no primeiro semestre de 2026, segundo a Fenabrave, superando best-sellers tradicionais como o Hyundai Creta. Nossa balança comercial com a China segue amplamente superavitária e, por esse ângulo, não vejo problema relevante no curto prazo, enquanto o preço das commodities permanecer elevado. Onde pode aparecer alguma pressão é no emprego, caso montadoras como Ford ou GM decidam fechar fábricas por aqui. Ainda assim, com o nível de emprego industrial já bastante reduzido no setor automotivo brasileiro, outros países tendem a entrar na fila de reclamação antes de nós.
O documento do JPMorgan dá essa visão de 360 graus da economia chinesa e nos permite dizer que ela opera hoje em equilíbrio instável. E, nesse tipo de equilíbrio, o grão que pode romper o balanço é desconhecido e pode surgir por qualquer motivo — uma nova rodada de sobretaxas, uma crise de crédito localizada, um choque geopolítico. Diante desse cenário, acredito que mais e mais países vão adotar medidas semelhantes às que os Estados Unidos já colocaram em prática para proteger suas indústrias e, por consequência, seus próprios mercados de trabalho. E aqui vale um lembrete estratégico: a China depende do mundo como cliente. Por isso, considero que esse país não pode se dar ao luxo de criar confusão com nenhum de seus parceiros comerciais — afinal, são todos, em maior ou menor grau, seus clientes. É essa mesma lógica que torna a retórica em torno de uma eventual invasão de Taiwan algo profundamente desaconselhável do ponto de vista econômico, por mais que a política, às vezes, não escute a razão.
Análise Técnica
No post "perder-na-certa" fiz os seguintes comentários sobre o ouro:
"Podem notar, na área destacada com a elipse, por enquanto só três ondas; se foi o fim mesmo, vai ter um momento para entrar mais à frente; se não foi, o objetivo traçado no post acima ainda é válido.
Importante frisar que coloquei a onda IV azul tentativamente, de acordo com a ideia de término, mas posso mudar se precisar."
Se o ouro atingir o nível acima, seria um ganho de aproximadamente 18%. Meu amigo, depois de 15 anos de Mosca, achei que você tinha aprendido a controlar suas emoções. Você já se tornou um expert em Elliott Wave e deveria saber que mudanças de rumo em correções exigem que nos cerquemos de confirmações, o que é bem diferente de quando o movimento é direcional. Disciplina é o nome do jogo nessas situações.
Em relação ao euro, comentei:
"De forma um pouco diferente do ouro, o euro também formou três ondas para cima. Da mesma forma, espero mais definições para eventualmente propor algum trade."
John Authers lembra que a euforia com a Europa começou há mais de um ano, quando o discurso do vice-presidente americano JD Vance na Conferência de Segurança de Munique e a eleição do novo chanceler alemão, Friedrich Merz, romperam tabus fiscais na Alemanha — abrindo caminho para um pacote de rearmamento histórico. As ações alemãs chegaram a superar as americanas em quase 40% nos primeiros três meses daquele movimento, mas a euforia esfriou: a guerra no Irã interrompeu a retomada, a coalizão de Merz entrou em crise e sua aprovação despencou para 14%. Ainda assim, o autor nota sinais de virada — os dados macroeconômicos europeus vêm surpreendendo para cima e atingiram o melhor nível em mais de três anos, a inflação por lá está mais controlada do que nos Estados Unidos e as projeções de lucro das empresas europeias, puxadas por bancos, indústria e utilities, vêm se recuperando com força.
A Pleasant European Surprise — artigo "Points of Return", John Authers, Bloomberg Opinion, 12/08/2026
Mesmo assim, Authers pondera que nada disso resolve os problemas estruturais do bloco: a Europa nunca desenvolveu um setor de tecnologia relevante, a demografia é desfavorável, o desenho da zona do euro combina política monetária única com política fiscal fragmentada, o continente segue dependente de energia externa e o quadro político é instável. E, no pano de fundo, o risco geopolítico volta a crescer — a guerra Rússia-Ucrânia dá sinais de sair da estagnação, com ataques mais intensos à infraestrutura de petróleo russa, enquanto o impasse sobre o Estreito de Hormuz mantém o gás europeu pressionado. O quadro é o de uma moeda ainda refém de fatores externos ao próprio bloco.
O gráfico da moeda única não é nada animador, o que tem ocorrido na grande maioria do tempo. A ideia de debasement tão badalada na mídia não seria com essa moeda — agora, se não é com ela, quem poderia ser? A Gavekal sugere o yuan, mas, com tudo o que comentei hoje, seria essa uma opção boa e até confiável?
Fique ligado!
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