Bonds goela abaixo #SP500


Tenho notado, com frequência cada vez maior, documentos alertando para o nível de endividamento dos governos. Não é exagero dizer que o Japão levantou a lebre. E, como bem lembra Robin Brooks num relatório que recebi essa semana, não existe modelo capaz de dizer com precisão em que momento uma dívida começa a ser questionada pelo mercado. Isso acontece de repente, sem aviso prévio.

No caso japonês, o problema não é novo: o endividamento elevado já existe há décadas, mas ficou dormente enquanto o juro por lá rodava perto de zero. Bastou a primeira-ministra Takaichi sinalizar, em janeiro, que sua administração poria fim à "austeridade fiscal excessiva" para que o juro do título de 30 anos disparasse no dia seguinte. Desde então o Banco do Japão vem tentando conter os juros comprando títulos, o que na prática é uma forma de repressão financeira, e mesmo assim o iene segue se desvalorizando, driblando intervenções sucessivas. Se fosse só uma questão cambial, a intervenção teria funcionado. Não funcionou. Esse é, segundo Brooks, o experimento natural que comprova: o problema japonês é de dívida, não de câmbio.

No Brasil o retrato é diferente. O nível de endividamento não é tão elevado quanto o japonês, mas a taxa de financiamento é. Se não for contida a tempo, o questionamento do mercado sobre a sustentabilidade da dívida brasileira tende a ficar cada vez mais crítico, exatamente o tipo de dinâmica que, segundo estudo recente do Fundo Monetário Internacional, tende a se acelerar sem aviso prévio quando a paciência dos credores se esgota.


Esse trabalho do FMI funciona como receita de bolo para qualquer Ministro das Finanças: listar as alternativas e escolher entre elas. O cardápio tradicional inclui crescer mais rápido que a dívida, fazer ajuste fiscal clássico ou deixar a inflação corroer o estoque da dívida. Mas existe uma quarta via, menos discutida: a repressão financeira, que consiste em obrigar bancos e outras instituições a carregar títulos do governo a taxas abaixo de mercado, comprimindo artificialmente o custo de financiamento do Estado. No jargão do próprio mercado já apelidaram isso de "bank bondage", o banco como refém cativo da dívida pública.

O estudo, que cobre 17 economias desenvolvidas desde 1920, traz um dado relevante para qualquer investidor de longo prazo: a repressão financeira não é capricho recente, nascido depois de 2008. Foi ferramenta recorrente do arsenal dos governos, com pico ao redor da Segunda Guerra e ao longo do período de Bretton Woods, quando os controles de capital eram a regra. No Reino Unido do pós-guerra, a repressão respondeu por cerca de 91 pontos percentuais de PIB dos 75 pontos de redução da dívida pública na década seguinte a 1945, mais do que a inflação surpresa e o ajuste fiscal somados. Nos Estados Unidos, no mesmo período, a contribuição foi menor, cerca de 18 pontos, com o ajuste fiscal levando a maior parte do crédito.

Depois da crise financeira global de 2008, o fenômeno voltou a subir: a poupança fiscal mediana gerada pela repressão nas economias avançadas saltou de 0,08% do PIB em 2008 para 0,51% em 2020. Parece pouco, mas é o tipo de vento a favor capaz de despertar mais do que curiosidade acadêmica em qualquer Tesouro nacional — e há sinais de que o próprio Tesouro americano já flertou com essa lógica ao incentivar o Japão a manter seus Treasuries em carteira mesmo tentando segurar o iene.

E não é só o Japão que está sob pressão. Robin Brooks mostra que os juros longos estão subindo ao redor do mundo inteiro, e aponta três razões que estão se somando. A primeira é a ressaca da farra fiscal da pandemia: o juro forward de 10 anos daqui a 10 anos nos Estados Unidos está na máxima em 20 anos, e o mesmo movimento aparece de forma generalizada entre os países do G10, os Estados Unidos nem se destacam nessa comparação. A segunda é que a política fiscal perdeu a âncora: a emissão de títulos do Tesouro americano rodou em 7% do PIB no ano até o primeiro trimestre de 2026, mesmo sem nenhum choque à vista, sob governos republicanos e democratas igualmente. A terceira é a geopolítica instável, que sobrecarrega desproporcionalmente quem tinha menos espaço fiscal, caso de Itália e Espanha, cuja conta de ajuda à Ucrânia está sendo bancada pela Alemanha, a ponto de o próprio bund alemão já não se comportar mais como um porto seguro clássico.




Quando um país entra nessa zona de endividamento elevado, o ideal seria simular cenários alternativos, inclusive o de um ataque especulativo dos chamados "bond vigilants", como são conhecidos os traders que acompanham de lupa esses países e apostam contra títulos soberanos assim que surge uma oportunidade. O mecanismo é simples: alugam-se os papéis do governo e vende-se a descoberto, e como o mercado já está congestionado, os preços começam a cair em espiral. Resta ao governo comprar os próprios bonds, o que é inflacionário e acaba pressionando o câmbio, ou "convencer" bancos e fundos a absorver a oferta. Essa segunda saída é, de novo, a repressão financeira: pode ser feita com jeito, como faz o Japão, ou ainda na base de enfiar goela abaixo.

Vale registrar que, segundo Robin Brooks, à exceção da Suíça, praticamente todos os países desenvolvidos hoje carregam níveis de endividamento elevados. Seria saudável que estivessem estudando esse cardápio de soluções com antecedência, mas aconselho que o façam num lugar bem distante, onde ninguém fique sabendo, porque, se vazar, já dá para imaginar a manchete do noticiário no dia seguinte. E, já que estamos no terreno das hipóteses, deixo aqui uma ideia mais provocativa, e aqui já saio do terreno acadêmico: pedir um foguete emprestado ao Elon Musk, colocar todo mundo dentro, seguir direto até a Lua e deixar o pessoal por lá. Resolve o problema do vazamento de uma vez. Hahaha.


Análise Técnica

No post "all-in-em-equities" fiz os seguintes comentários sobre o S&P 500:

"Agora a bolsa está próxima das máximas e, caso ultrapasse, vamos ficar de olho para ter certeza de que a onda (2) vermelha terminou. Esse é o nível:"

Meu amigo também questionou qual seria o objetivo para esse índice.



Na semana passada, o S&P 500 atingiu as máximas históricas e está negociando perto desse nível, mesmo enfrentando algumas notícias ruins, como o não acordo com o Irã, que fez o petróleo subir de preço, e os dados de emprego não tão positivos. O mercado aguarda agora a publicação dos dados de inflação de amanhã.

Quanto à superação do nível de 7.728 anotado no gráfico, ela ocorreu, mas não por muito, o que ainda exige cautela. Meu assistente técnico, Claude, classifica em 65%/70% a probabilidade de que a onda 2 vermelha tenha terminado.

Assumindo que minha contagem de preferência esteja certa, o primeiro objetivo seria em 8.820 (+14%) e, preferencialmente, 9.900 (+26%). Nada mal, não é? Mas não abra a champagne ainda: espere a confirmação.



A alta que ocorre na bolsa não vem do nada. Como o ETF é o veículo mais usado pelos americanos para investir, o gráfico abaixo não deixa dúvidas quanto ao grau de otimismo do mercado, corroborado pelos lucros estelares publicados pelas empresas.

O S&P 500 fechou a 7.728 - o mercado está querendo testar mesmo o nível do Mosca! Hahaha.; o USDBRL a R$ 5,1762, com alta de 1,28%; o EURUSD a € 1,1542, sem variação; e o ouro a U$ 4.368, com queda de 0,48%.
Fique loigado!

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