Nvidia garante a galera #IBOVESPA


Jensen Huang é um estrategista tão bom que nem preciso gastar linhas explicando o óbvio. Há dez anos ele comandava uma fabricante de placas de vídeo para jogos. Hoje comanda a maior empresa do planeta, ultrapassando gigantes que pareciam intocáveis, caso da própria Microsoft, Apple e outras. Quem acompanha o Mosca sabe que não é modismo: é execução.

A grande disputa do momento não é mais só tecnológica, é financeira. Quem consegue dinheiro para construir data center vence a corrida, e o custo desse dinheiro está subindo até para as hyperscalers — Google, Microsoft, Amazon, Meta. Se para elas já está mais caro, imagine para as empresas menores que também precisam de capacidade computacional e não têm o mesmo colchão de caixa.

Nvidia não quer depender só dos grandes clientes. A Google já fabrica seus próprios chips de IA há anos, os TPUs, e vem ampliando essa frente — um sinal claro de que outras hyperscalers podem seguir o mesmo caminho e reduzir a dependência da Nvidia. Se vão conseguir competir de fato com Huang no médio prazo, é outra história. Por ora, quem manda no pedaço continua sendo a Nvidia.

E qual foi a jogada de Huang para não perder a clientela menor, que não tem bolso para comprar chip à vista? Se colocar na frente do problema e organizar o financiamento ele mesmo. O Wall Street Journal detalhou o mecanismo: um plano de US$ 500 bilhões, construído com bancos e gestoras, para padronizar o financiamento de chips e criar pools de capital lastreados nesses ativos. Na prática, veículos de propósito específico compram os equipamentos com dinheiro levantado de investidores, alugam para o cliente final e repassam o pagamento aos investidores. A Nvidia entra como um tipo de garantidora parcial: Huang chamou isso de "residual-value support mechanism" — se o valor do chip que lastreia o empréstimo cair abaixo de um piso, a Nvidia cobre parte da diferença, podendo bancar até 25% do custo do projeto. Ou seja, sem citar nomes: a Nvidia garante a galera para continuar comprando seus chips, e sem desconto.

O tamanho do movimento impressiona. Segundo o Bank of America, a emissão de bonds ligados a IA já bateu recorde neste ano, bem acima de tudo que foi levantado em 2025, e o mercado espera que o ritmo continue firme até dezembro. Mas nem todo mundo capta dinheiro no mesmo preço: as empresas menores, sem o balanço robusto de uma hyperscaler, já estão pagando juros bem mais altos para conseguir o mesmo financiamento. É o mercado precificando o risco maior desse tipo de operação.

Vale registrar a crítica de Michael Burry, o investidor que ficou famoso apostando contra os títulos hipotecários em 2008 e que agora está short em Nvidia e outras ações de IA: ele lembrou que estruturar crédito é normal, o problema é estruturar crédito artificial para prolongar um momentum de bull market tardio — é aí que mora o risco. Não custa lembrar esse alerta enquanto a engenharia financeira ao redor da Nvidia fica cada vez mais sofisticada.

Aproveito para tratar de outro assunto que anda dando o que falar: os lucros do segundo trimestre das empresas do S&P 500 vieram excepcionais, e o material da Yardeni Research ajuda a entender por quê. Até agora 90% das companhias do índice já divulgaram resultado, batendo as projeções dos analistas tanto em lucro quanto em margem. Só que boa parte desse excesso não veio da operação pura: ganhos contábeis de marcação a mercado em participações da Alphabet e da Amazon, somados a uma reversão fiscal da Meta, adicionaram US$ 14 no lucro por ação do índice no trimestre. Com isso, o EPS do S&P 500 subiu 46,7% na comparação anual; sem esse efeito contábil, o crescimento foi de 25,7%.

GRÁFICO: "S&P 500 Operating Earnings Per Share — 2026 Quarterly Analysts' Consensus Forecasts (y/y% growth rate)" — fonte: Yardeni QuickTakes, "Raising Our S&P 500 Earnings & Price Targets Outlook Due To FEMO (Fabulous Earnings Momentum)", 11/08/2026

Se você olhar o gráfico sem esse contexto, pode se assustar com a inclinação da curva. Cuidado com o susto: o efeito vem de uma prática contábil legítima e reconhecida — marcação a mercado de participações societárias —, não de maquiagem nenhuma, e tende a não se repetir com essa intensidade todo trimestre. Ainda assim, mesmo descontando esse efeito pontual, um crescimento de lucro de 25,7% no ano é, convenhamos, extraordinário do jeito bom também.

A Yardeni Research aproveitou o resultado para subir a régua das próprias projeções. A estimativa de lucro por ação do S&P 500 foi revisada de US$ 330 para US$ 375 em 2026, e de US$ 375 para US$ 415 em 2027. A casa também elevou a meta de fim de 2026 para o índice, de 8.250 para 8.400 pontos, mantendo a meta de 10.000 pontos até o fim de 2029 — e deixando claro que pode subir ainda mais se o cenário de "Roaring 2020s" seguir se confirmando. Não é força de expressão: a dupla elevou a probabilidade subjetiva de esse ciclo positivo continuar de 60% para 80%, mantendo em 20% a chance de uma recessão que derrube o mercado. Otimismo declarado, mas com o risco reconhecido no próprio número — o que já diz muito sobre o momento que estamos vivendo.

GRÁFICO: "S&P 500 Index & YRI Forecast Range" — trajetória do índice e as novas metas de preço da Yardeni Research até 2030 — fonte: Yardeni QuickTakes, "Raising Our S&P 500 Earnings & Price Targets Outlook Due To FEMO (Fabulous Earnings Momentum)", 11/08/2026

Fecho com o dado que grudou nas telas hoje pela manhã: o CPI de julho saiu em linha, com o índice cheio estável em 2,7% na comparação anual e o núcleo em 3,1%, acima da leitura anterior. Nada que mude o roteiro sozinho, mas o suficiente para o mercado passar o dia decidindo se foi um alívio por não ter decepcionado ou se já estava tudo precificado antes da abertura.


Análise Técnica

No post "yen-bad-boy", fiz os seguintes comentários sobre o Ibovespa:

"O triângulo acabou rompendo, mas sem nenhuma força, na mesma forma letárgica com que a bolsa vem caminhando desde junho; é visível a diferença pela inclinação da reta traçada em verde. Enquanto as bolsas internacionais continuam a alta iniciada este ano, o Ibovespa perdeu o brilho. Será que os investidores se desanimaram com a possibilidade de um Lula 4? O que, se ocorrer, já não seria em tempo."



Eu achava que meus comentários tinham a mesma força que os de um banco como o JPMorgan, pois bastou eles anunciarem um rebaixamento da recomendação da bolsa brasileira de overweight para neutral para que a bolsa caísse ontem 2,5%. Se é assim, vou rebaixar para underweight e ver o que acontece. Tudo provocação, vocês já me conhecem! Hahaha.

Mas, melhor do que as recomendações — que podem estar certas — já serem rebaixadas por conta das quedas, é atentar ao gráfico que, como comentei acima, não estava dando sinais positivos. Embora a mínima de 167,9 não tenha sido rompida — o nível se encontra lá —, tudo indica que mais quedas virão à frente. Sendo assim, vou assumir que a onda B laranja terminou precocemente em 180,6 mil.

Vocês devem lembrar que me aventurei numa sugestão de compra, mas com muito receio. Enfatizo que ondas B são traiçoeiras: nunca confiem cegamente nelas, sempre com o pé atrás.

Nessa nova hipótese, a onda C laranja pode terminar em 160 mil (-4%) ou ao redor de 150 mil (-6%); usei símbolos em laranja para identificar. Muito importante: se a bolsa cair precipitadamente e continuar na descendência, atingindo 119,5 mil, meu cenário de ainda uma alta fica comprometido, e terei que refazer minhas hipóteses.



Todo esse desenrolar corresponde à minha visão sobre a bolsa brasileira, que posso resumir: não tem um gráfico de longo prazo com movimento direcional, são movimentos de correção.

Só para imaginar um pouco: se a bolsa cair de forma mais abrupta e atingir o nível de 120 mil, o que vai acontecer com o câmbio?

O S&P 500 fechou a 7.748, com alta de 0,26%; o USDBRL a R$ 5,1916, com alta de 0,29%; o EURUSD a € 1,1523, com queda de 0,17%; e o ouro a U$ 4.413, com alta de 1,03%.

Fique ligado!

Comentários