O yen carrega o real #Nasdaq100 #NVDA
Eu tinha dito que não publicaria hoje, mas surgiu tempo e assunto — espero que gostem.
Tem um detalhe passando praticamente despercebido por trás da relativa calma do real neste fim de agosto: quem está segurando a moeda brasileira não é o Brasil. É o Japão.
O mecanismo chama-se carry trade, e a lógica é simples: um investidor toma dinheiro emprestado onde o juro é desprezível, converte para uma moeda de juro alto e embolsa a diferença. Há décadas o Japão é o financiador natural dessa festa, porque sua taxa básica vive perto de zero. O curioso é que essa conta nunca fechou tão a favor do resto do mundo quanto agora — e o Brasil está entre os maiores beneficiários.
O Banco do Japão manteve sua taxa em 1% ao ano na reunião de julho, o nível mais alto desde 1995, mas a decisão só passou por 8 votos a 1: um diretor queria subir para 1,25% e foi voto vencido. O próprio banco central japonês, aliás, revisou para baixo sua projeção de inflação para este ano. Ou seja, mesmo depois de anos prometendo normalizar a política monetária, o Japão segue pisando no freio.
Do outro lado do Pacífico, o Federal Reserve mantém os juros em uma faixa de 3,5% a 3,75% — bem menor do que já foi, mas ainda um mundo de distância dos juros japoneses. E a distância que realmente importa para o Brasil é ainda maior: a Selic está em 14% ao ano, um dos juros reais mais altos do planeta.
Há um dado fresco reforçando exatamente essa demora: a inflação núcleo do Japão vem desacelerando, com expectativa de cair para 1,7% na leitura mais recente, ante 1,9% antes. Menos inflação tira da mesa qualquer urgência do Banco do Japão em subir juros de forma mais agressiva. Na prática, isso mantém o iene fraco e o dinheiro barato saindo do país — parte dele, destino Brasil.
Vale notar que essa entrada de capital via carry trade não é o mesmo fluxo que compra ações na B3. Pelo contrário: dados do JPMorgan mostram que os fundos estrangeiros vêm reduzindo posição em bolsa brasileira havia meses, e o número de gestoras com alocação overweight no país caiu para o menor nível em um ano. O real se sustenta mais pelo diferencial de juros do que por qualquer entusiasmo com a economia brasileira propriamente dita.
Mas esse juro de 14% não caiu do céu — ele embute um prêmio de risco, e esse prêmio tem endereço certo: o desequilíbrio fiscal brasileiro. O déficit nominal do setor público somou R$ 1,31 trilhão nos doze meses até junho, equivalente a 9,99% do PIB — o maior patamar desde abril de 2021, no auge da pandemia, quando o indicador bateu 10,25%. Os juros nominais sozinhos já respondem por 8,80% do PIB nesse resultado. A dívida bruta do governo geral encostou em 82% do PIB e segue subindo mês a mês. Não é o Brasil que paga um juro alto por mérito fiscal — é o contrário: o mercado cobra mais caro justamente porque desconfia da trajetória da dívida, e é esse prêmio extra, e não a economia brasileira, que torna a operação tão atraente para quem entra financiado em iene.
E é aqui que mora o verdadeiro risco para quem está montado nessa posição, porque faltam poucas semanas para a eleição presidencial de outubro. Uma pesquisa Gerp divulgada em 26 de agosto colocou Flávio Bolsonaro à frente de Lula no segundo turno, com 47% contra 42% do presidente — margem que, poucas semanas atrás, ainda pendia para o lado oposto. Se esse cenário persistir até outubro, é bem provável que a continuidade do governo não fará nenhum esforço para diminuir o déficit — ou, quem sabe, até para aumentá-lo —, e o prêmio de risco embutido na Selic tende a se manter praticamente como está, com a festa do carry trade japonês continuando a tocar. O perigo mora nos extremos: uma eventual ruptura fiscal mais séria, com descrédito do mercado quanto à capacidade do país de honrar sua dívida, elevaria esse prêmio de forma descontrolada — o tipo de solavanco historicamente acompanhado de fuga de capital, não de entrada. Já uma virada que devolvesse ao campo de oposição um nome com credibilidade fiscal reconhecida pelo mercado — hipótese que as urnas agora sinalizam com mais força — teria efeito oposto: menos prêmio de risco, Selic mais baixa ao longo do tempo, e o diferencial de juros que hoje atrai o dinheiro japonês perdendo boa parte do seu apelo.
O iene voltou a subir para perto de 159 hoje, quase de volta à zona que já explodiu uma vez. E o board do Banco do Japão já mostrou, com aquele voto dissidente em julho, que existe gente lá dentro querendo apertar mais rápido do que o consenso atual sugere.
Não estou dizendo que o estouro vai se repetir amanhã — a inflação japonesa desacelerando é, se alguma coisa, um sinal na direção contrária, de que o Banco do Japão tem menos pressa. Mas vale registrar com clareza o que sustenta a calmaria cambial brasileira hoje: não é confiança na economia doméstica, é o fato de o dinheiro japonês continuar essencialmente de graça, somado a um prêmio de risco fiscal que o mercado brasileiro ainda não decidiu como vai precificar depois de outubro.
Para quem investe em renda fixa brasileira hoje, isso não é motivo de pânico — é motivo de atenção. O prêmio embutido na Selic continua real e continua alto, com ou sem ajuda japonesa. Mas quem depende do câmbio comportado para fechar a conta deveria acompanhar as atas do Banco do Japão com o mesmo cuidado que dedica às pesquisas eleitorais brasileiras. O real não está forte porque mereceu. Está forte porque o Japão continua pagando a conta, e porque o mercado ainda não decidiu se vai continuar cobrando esse prêmio de risco fiscal do jeito que cobra hoje.
Fica então meu conselho, mais provocativo do que técnico, para quem está financiado em iene e aplicado no Brasil: aproveitem enquanto dura, mas fiquem com o dedo no gatilho. Esse tipo de bonança tem prazo de validade político, e o prazo começa a ser definido nas urnas em outubro.
Análise Técnica
No post "o-mosca-discorda-do-mercado" fiz os seguintes comentários sobre a Nasdaq100:
Agora temos um cenário que pode permitir uma sugestão de compra. Destaquei no retângulo os níveis onde pode ocorrer a reversão; o mais provável é 28.288, mas pode ser qualquer outro — o que não pode ocorrer é uma queda abaixo de 27.179.
A situação da Nvidia é mais duvidosa que a da Nasdaq100: primeiro, porque não ultrapassou a máxima de US$ 236,54; segundo, porque a onda 1 laranja, ao terminar em US$ 227,92, ficou aquém do esperado.
Fique ligado!
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